Rita louca

Picasso. Mulher de Costas.

Quando Rita enlouqueceu, gritou e tirou a roupa. Tinha a pele branca e os seios à amostra. Eu devia ter uns oito anos e foi a primeira vez que vi uma mulher seminua. Não por ser uma senhora de quase meia idade, mas daquela cena só ficou o desespero. Seus olhos pareciam ver o que não se via e seus berros ecoam ainda hoje.

Seis homens foram necessários para colocá-la na ambulância. A família chorava o seu desespero e na cara da rua havia um sentimento de consternação. Rita era uma mulher boa e batalhadora que tentava criar, sozinha, um casal de filhos. Foi a separação do marido que a deixou desolada, por isso, vez ou outra, Rita surtava. Não parecia mais ela. A voz enrouquecia e o olhar perdia-se do mundo.

Certa vez, trouxeram-lhe um exorcista para tirar um espírito. Ela urrava feito um animal raivoso e revirava os olhos. O sujeito, baixinho com jeito de sacerdote, tinha na mão uma ripa fina de madeira e a açoitava. Rita calou-se na peia, mas o espírito voltou depois com a mesma deselegância.

A cena de Rita saindo na ambulância é a última que tenho. Deve ter sido a pior crise desde que a conheci porque nunca havia tirado a roupa. Parecia que ela precisava se libertar de algo além do corpo, uma coisa que estava escondida em algum recanto de si.

O desespero de Rita não foi o único que vi, mas ela foi a única que teve coragem de rasgar-se e gritar os pulmões como quem desafia a vida. Talvez não fosse a morte que buscava, então, ao invés do suicídio, tirou a roupa e correu na rua. Queria experimentar qualquer sensação de liberdade que pudesse existir, Rita só se esqueceu que a liberdade não é do homem. Por isso, a apanharam e lhe jogaram na ambulância, lhe deram remédio, lhe amarraram, lhe bateram. Ela tinha de recobrar a consciência e voltar a se fechar dentro de si como as pessoas normais.
Procuro Rita em toda parte, inclusive no espelho. Mas ela sumiu com toda a sua vontade de voar. Sei que ela está por aí em muitos olhos e, talvez, qualquer hora dessas, volte a tirar a roupa e a sair pela rua procurando o vento nos sinais de trânsito.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 11 comentários para esta postagem
  1. José de Paiva 10 de fevereiro de 2012 19:45

    Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram.

  2. Clarissa Torres 10 de fevereiro de 2012 9:19

    Paiva, texto incrível! Que alma atormentada e corajosa. Realmente, a imagem é igualmente perturbadora e por isso belíssima. Me lembrou Ego Schiele.

  3. Maira Leiliane 8 de fevereiro de 2012 10:56

    Mais uma vez você se supera, além de ser um texto surpreendente combina com maestria a obra de Picasso para ilustrá-lo. Os tons de azul e verdes azulados dão o matiz melancólico e envolve a figura feminina em uma aura de solidão. Não podemos contemplar a sua face, mas podemos imaginar que seu olhar é entristecido e que sua alma congela como a sensação de frio que o azul profundo proporciona, assim sente a Rita… que envolta na sua solidão e desespero, com a tez pálida e o corpo nu, retrata a concepção dessa obra da “Fase azul” do Picasso.
    Shakespeare diz que “Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança.” Eu digo que a vida é mais bela para os loucos e os artistas, vivem a sua própria vida, quebram as regras sem se preocuparem com as convenções que a dita sociedade “normal” impõe. Rita, com a inocência de uma criança e a coragem que é próprio dos vencedores abre as asas e se liberta. É uma pena que ela “se esqueceu que a liberdade não é do homem…” Parabéns!!!

  4. Nina Rizzi 7 de fevereiro de 2012 16:30

    Toda Rita é louca! e (quase) todas de Cássia. Como a minha mãe.

  5. Georja Queiroz 7 de fevereiro de 2012 13:06

    Excelente texto…existe muitas Ritas por aí querendo se libertar.
    Parabéns!!

  6. Carmen Vasconcelos 7 de fevereiro de 2012 12:49

    Belo texto!

  7. Regiane de Paiva 7 de fevereiro de 2012 10:47

    A literatura é justamente esse caminho entre o real e a ficção que se constrói, capaz de deixar no leitor um tantinho de inquietação; capaz de fazer o leitor ver outros mundos além do seu, tão pequeno e ínfimo, tantas vezes menor que o de Rita. Rita é esse ser que grita, que sofre, que agoniza e que não tem espaço para externar todos os seus cadáveres. Rita pode ser qualquer um que se esconde e se camufla ou que se liberta sem ser compreendido. Texto maravilhoso, marido. Bjs in…..!

  8. Eliana Klas 7 de fevereiro de 2012 7:52

    Emocionei-me imensamente.
    Narrativa perfeita, sobretudo por colocar-se inteiro na Rita.
    …este algo além do corpo que nos aprisiona e que para nos libertarmos enlouquecemos…descreveu perfeitamente.
    Um beijo, meu amigo.

  9. Gonzaga Filho 6 de fevereiro de 2012 21:46

    Excelente narrativa… Gostei, parabéns!

  10. Anchieta Rolim 6 de fevereiro de 2012 17:25

    Bom demais meu irmão…Parabéns!!!

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