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Rizolete apresenta “Ruminar”, de David Leite, na Espanha

A poeta Rizolete Fernandes apresentou o livro “Ruminar” do escritor David Leite no último dia 8 do mês passado, em Salamanca/ES, por ocasião do XVIII Encontro de Poetas Iberoamericanos. A obra será lançada ainda no dia 6 próximo, na Feira do Livro, em Mossoró e, mais para o final do mês, em Natal.

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Por Rizolete Fernandes

O escritor e poeta David de Medeiros Leite está de livro novo na praça. Intitulado Ruminar, reúne vinte e dois poemas, que versam sobre o meio rural, tendo como personagens o gado e o vaqueiro, figuras familiares nos sertões do Nordeste brasileiro. O diferente nesta obra é que, no desenvolvimento do tema, o autor dotou de voz tanto vaqueiro quanto animais.

Assim sendo, na primeira parte, bois e vacas fazem digressões e análises sobre sua explorada condição de propriedade do homem. Ora se preocupam com o futuro das suas crias, ora com o ferro em brasa que em sua pele identificará seus donos. A vaca (ou o boi) diz a que veio, já no poema inicial, que intitula o livro – Ruminar:
O alimento é pretexto
para triturarmos aflições
maturarmos pensamentos
mastigarmos ilusões.

Mais adiante, o boi, face à tortura do ferro em brasa, se interroga, atônito, no poema A ferro e fogo:
Por que
nos marcam
a ferro e fogo?


Por que o afã
se já nos tem
cativos?

Por outro lado, esse mesmo gado perplexo, tem momentos de regozijo, na liberdade relativa da vida na pradaria, senão vejamos o que atesta uma rês, em Luar:
É privilégio nosso
contemplar a lua
tão despudoradamente


Em noites redondas,
plenas na própria quietude
ao luar ruminamos.

Já na segunda parte, é o vaqueiro que toma a palavra para discorrer sobre a relação com os animais aos seus cuidados. Mas atenção, porque aqui não se trata de uma relação usual do binômio homem/animal, vaqueiro/gado, porém de uma relação humanizada, como explícito em vários poemas, entre eles, Sujeitos (ruminam), em que elege a vaca Estrela para confidente; ou em Contraste, no qual tematiza uma festa no alpendre da casa, com dança e cantoria, mas com a qual pouco interage, posto que o pensamento está noutro lugar, ali nos arredores:

Em meio a tanta algaravia
olho para o estábulo
e tudo é calmaria…

Animais (irracionais) falantes/pensantes, é um recurso utilizado por escritores e pensadores desde a antiguidade, como bem frisou o professor e poeta Alfredo Pérez de Alencart, no excelente prefácio ao livro, recurso este que, alhures, como aqui, tem pontuado a história da literatura. O narrador do conto Kholstomier (1885), do grande Liev Tolstói, é um cavalo.

O que o autor mossoroense faz, pois, é reviver e atualizar a prática, com estilo e eficiência. Seus animais se angustiam, sentem alegria, são vaidosos, invejosos, têm preocupação com o futuro de suas crias e seus amiguinhos, os filhos do vaqueiro, enquanto este com eles se relaciona como de humano para humano.

Atribuindo voz e sentimento ao gado, David Leite acabou por escrever um livro a um tempo criativo, bonito, enternecedor e que induz à reflexão. Variantes que, certamente, farão a diferença no mar de poesia que banha o Rio Grande do Norte, Brasil.

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Tácito Costa

Comentários

3 comments

  1. Fructuoso 3 novembro, 2015 at 15:28

    Amigo de David, vecino de Salamanca en España, natural de pueblo y conocedor de vacas y bueyes, testigo de su tranquila y larga acción de “rumiar”… DECLARO QUE: me ha encantado el libro, la idea, los poemas, el espíritu… de RUMINAR.
    Saludo a todos los poetas de Mossoró y alrededores. Amén (ah, es que soy un cura español)

  2. David Leite 3 novembro, 2015 at 21:27

    Amigos; Don Fructuoso não é somente um “cura” (padre) espanhol… É escritor, poeta, resenhista e profundo conhecedor de literatura e artes em geral… Portanto, não posso deixar de ficar envaidecido com seu comentário sobre nosso Ruminar.
    Abraços
    David Leite

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