Roberto Carlos em pequenos detalhes

Título original: Roberto Carlos em pequenos detalhes – Uma biografia tambem censurada!

Li num fôlego só o livro-biografia “Roberto Carlos em detalhes” (Ed. Planeta 2006, 504pags), escrito pelo historiador Paulo César de Araújo em 15 anos de trabalho. Esse livro está fora de circulação a pedido do rei Roberto Carlos. Não entendo os motivos do rei para tirar de circulação tal livro.

Livro que é uma belíssima homenagem ao homem e ao mito Roberto Carlos e que nos ajuda a entender melhor a sua trajetória vitoriosa em mais de meio-século embalando os corações do Brasil de todas as classes sociais, cores e raças. Privar o leitor de se deliciar com a leitura dos detalhes da vida e da feitura de suas músicas é um grande atentado à liberdade de expressão e história das mentalidades de um país tão desmemoriado.

Roberto canta a trilha sonora da minha, da sua e de muitas gerações. Mesmo sem comprar seus discos, conhecemos suas músicas e as associamos à diferentes situações e momentos da existência. O amor é sempre o amor – e o que Roberto canta é, sobretudo- o amor à pessoa amada e ente querido ou superior (ele gravou Jesus Cristo em 1970 e Tu és a verdade, Jesus 2000 ).

Sua música pode ser da maior densidade erótica ou do mais puro e singelo amor juvenil. Em 1973 ele grava a canção “ Proposta”, inaugurando um ciclo de canções sensuais e apelativas. Começou imitando o grande João Gilberto com o disco “ Louco por Você” e logo percebeu que sua praia era outra. Roberto é um grande cronista das relações amorosas de um Brasil que passava por profundas e rápidas transformações: a mini-saia, inventada pela Inglesa Mary Quant; a liberação sexual dos anos 60; a pílula e a televisão iriam provocar profundas transformações nos costumes dos jovens que tinham nos cabeludos do iê, iê, iê os seus ídolos. As tardes de domingo seriam invadidas pelos astros da Jovem-Guarda. As fãs enlouqueciam e faziam tudo para se aproximar e agarrar seus ídolos. O cantor precisava esconder o seu estado civil, se casado, para não prejudicar a carreira-imagem que rendia muito dinheiro.

Roberto Carlos tem uma voz pequena, e muito bem colocada. Na MPB, esse estilo de voz foi inaugurado pelo Grande cantor Mario Reis, nas primeiras décadas do séc. XX. O Primeiro disco de Roberto foi um 78rpm, gravado em 1959, com as músicas Fora do Tom, de Carlos Imperial, e João e Maria, de Roberto e Carlos Imperial. O primeiro disco na Polydor não logrou sucesso. O segundo 78rpm foi gravado na CBS, gravadora que também gravaria o 1º LP do Roberto em 1961. De 1963 a 1983, Evandro Ribeiro produziu todos os discos do Rei, tornando-se o responsável pelo sucesso do Rei da Jovem Guarda, e o consagrando para sempre como o maior cantor popular da Música Brasileira.

Até a gravação do primeiro disco não foram poucas as dificuldades e vicissitudes sofridas pelo pequeno Roberto, apelidado de Zunga, por ser rechonchudo. Aos seis anos tem a perna esmagada por um trem em Cachoeiro de Itapemirim, a terra onde nasceu. Cantou pela primeira vez na rádio da cidade. Depois cantou no programa de Carlos Imperial, em circos e na Boate Plaza, quando já se aproximava dos 18 anos. A música Meu pequeno Cachoeiro, interpretada por Roberto Carlos, foi composta por um outro Cachoeirense, o compositor Raul Sampaio. Autor, também, do famoso bolero: Quem eu quero não me quer…

A partir da década de 60, o Amor começa a deixar de rimar com Dor. Até 60, observa Faour, em História Sexual da MPB, 90% das letras de músicas ao falar do amor versava sobre relações mal resolvidas, tristes melancólicas e interditas. Com a Bossa-nova e a Jovem Guarda esse amor se torna mais ameno e gozoso. De Roberto e Erasmo é a bela canção que pode ser ouvida ou lembrada em qualquer alcova. Roberto só canta o que sente. Muitos sonham ter uma música gravada pelo rei, e o seu parceiro mais constante é Erasmo Carlos. Nunca a música popular teve uma parceria tão pródiga e duradoura. Um aspecto altamente positivo do livro de Paulo César, é que ele dá detalhes da gestação de alguns dos maiores clássicos da Canção Popular Brasileira. Muitas vezes a música é composta por telefone com parceiro. Outras vezes na solidão dos hotéis . Roberto compôs com muitos outros parceiros (Carlos Colla, Isolda, Helena dos Santos…). Com Isolda, irmã de Milton Carlos, ele compôs uma de suas músicas de maior sucesso e uma das mais re-gravadas: ‘Outra vez’.

Lendo o livro “ Roberto Carlos em Detalhes” ficamos conhecendo melhor o rei num perfil demasiadamente humano. O mito permanece e o encantamento de algumas canções não é menor com o tempo. Muitas vezes não percebemos a riqueza e os detalhes de algumas canções que o livro ajuda a desvendar. O rei está mais vivo do que nunca e não tem o direito de nos privar da historia de suas canções e vida que também nos pertence.

Nem sempre o rei esteve nas paradas de sucesso. A década de 80 do século passado foi a grande década do rock nacional e nessa década o rei esteve em baixa, só retomando seu prestígio na década seguinte com Caetano cantando e lembrando que o Rei é o Rei, e que “Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos” foi composta para ele pelo rei quando estava exilado em Londres. Depois, Maria Bethânia, gravaria um álbum de grande sucesso só com as canções de Roberto e Erasmo. Antes, a musa da Bossa Nova Nara Leão havia gravado um disco “ E que tudo mais vá pro inferno” ( 1978 ) só com músicas do Rei da Jovem Guarda. Muitos outros grandes cantores do Brasil e do mundo continuam a gravar Roberto Carlos. Musicas como Emoções, Como é Grande o meu amor por você, Detalhes e dezenas de outras continuam a tocar e encantar gerações. “ Splish Splash” Roberto. Parabéns nos seus setenta anos.

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