Roberto Carlos morreu

Por Fernando Monteiro
SUL 21

Dedicado à memória de SOLEDAD BARRETT VIEDMA, companheira do “Cabo Anselmo” — que nem cabo era – e por ele entregue para ser assassinada pelos facínoras da Ditadura que não pode ser aliviada, de modo algum, nas suas culpas tenebrosas perante a História e a hoje democrática (institucionalmente) sociedade brasileira.

É o que estão dizendo, a notícia circulando, parece, desde a manhã, muito cedo, se é verdade, não sei: Roberto Carlos parece que sofreu um acidente, ontem de noite, e morreu hoje, de madrugada, no hospital de Santos, foi na estrada, justo na estrada das curvas que ele cantava: preciso de ajuda/ por favor me acuda/ eu vivo muito só sempre vivi cercado dessas canções, dessas baladas, como todo mundo da minha geração e de mais adiante, ao longo de trinta anos, não é pouco, nunca deixou de se escutar RC, o “Rei” (esse negócio de “Rei” consegue me irritar: rei de quê?, da Jovem Guarda, da vendagem de discos de “Jeesus Cristo, Jeeesus Cristo, Jeeeesus Cristo!, estou aqui”…??, pois então está mesmo, acabou chamando a atenção de JC: morreu, é incrível, a noticia surpreende, faz a gente parar – será que é verdade? – embora eu esteja me lixando, na verdade é o que eu estou, me l-i-x-a-n-d-o mesmo, a caminho do trabalho, mais uma vez atrasado e abalado, mas não porque Roberto Carlos morreu, ora bolas, todos têm de morrer, os cantores e os fãs dos cantores, se Frank Sinatra cantava parecendo que não iria morrer – olhava firme para algum ponto obscuro da platéia fascinada, erguia o braço direito com um anel de pedra no dedo mínimo, os olhos faíscando daquele azul de alumínio lixado – e eu me lixei quando, também, quando o velho mafioso morreu, meus abalos são mais fundos, são pessoais, mais íntimos, não posso ficar abalado porque Roberto Carlos morreu, sem faísca nos olhos apagados, beijando a santinha de Aparecida com seus cabelos pintados de “rei” ancião da jovem guarda que não quer morrer.

aqui

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Fernando Monteiro 26 de outubro de 2011 18:26

    Na moita, na moita, ó Poeta invejado, e, aqui, amoitadíssimo, escrevendo –aqui e ali — para desespero dos mosquitos de cara de cascavel das matas…
    Honra imensa!, ter um Jarbas Martins perdendo tempo com o meu beletrismo bissextamente sazonal.

  2. Jarbas Martins 26 de outubro de 2011 13:25

    o narrador, cineasta e dramaturgo Fernando Monteiro – um dos maiores nomes da literatura contemporânea – mal esconde o poeta que sussurra, grita,monta,desmonta, cita e recita sua arte só de linguagem feita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo