Rock in Rio no Rio

Por Caetano Veloso
O GLOBO

O rock dos anos 80 foi mais injusto com Erasmo e Raul do que com os tropicalistas

Fui com Lulu Santos até a nascente Cidade do Rock. Naquele ano em que o Paralamas arrasou. Fiquei irado porque o corredor para onde dava a porta do camarim de Lulu foi tomado com agressividade por roadies ingleses grosseiros (os ingleses são polidos, mas não há nada mais feio do que a brutalidade de um inglês surgindo por debaixo do polimento): Rod Stewart ia passar. Era um camarim de artista (eu não: eu era um penetra curioso, convidado do meu querido Lulu). Veio a exigência de que se fechasse a porta. Me perguntei: se Lulu quisesse exigir algo parecido, poderia? “Não passo por esse corredor se Rod Stewart não fechar a porta: não quero que ele me veja.” Eu acharia Lulu um chato se ele fizesse isso. Mas o inglês fazer era para ser tomado como normal.

Fiquei sacaneando: quem é que quer ver a cabeça de manga chupada de Rod Stewart? E me dei conta de quão ridícula é a liturgia dos astros de rock, milimetricamente copiada da de imperadores romanos de filmes de Hollywood. Uns atores fazendo cara de bicha má. Fiquei com saudades dos festivais de jazz, que acabavam com as grandes estrelas indo dar canja no Mistura Fina. Em 1967 iniciei uma onda de repúdio ao nacionalismo. Mas numa hora dessas eu me sentia mais nacionalista do que José Ramos Tinhorão.

Sou realista. Não pretendo fingir que estrelas pop brasileiras tenham o mesmo peso de estrelas pop americanas ou inglesas. Mas não sou obrigado a aplaudir as distorções bregas que essa sua superioridade (devida, é claro, à superioridade da cultura de massas americana sobre todas as outras, inclusive a inglesa, sendo esta um apêndice daquela) impinge.

Mesmo porque não sou nacionalista mas meu realismo exigente vê um mundo em câmbio, ao qual o Brasil pode (pode, não estou dizendo que fatalmente vai) dar um toque sutil que revolucione tudo. Posso também simplesmente querer isso. E quero. Mas creio que mais quero porque vejo possível do que vejo possível porque quero. Revolucionar tudo é passar do reino do Filho para o do Espírito Santo. O Brasil tem, como se diz no candomblé, todas as ferramentas. Então, espero que se entenda que observo essas coisas de uma outra perspectiva.

Outro dia li uma maluquice no “JB” (não existe mais o “JB” físico, só o virtual): um cara defendendo Raul Seixas de uma suposta agressão contida na canção “Rock’n’Raul”. Meu camarada Ty Medeiros foi quem me mandou o link. O cara pensa que descrever “uma vontade feladaputa de ser americano” é uma acusação, como se isso representasse algo negativo para mim. Está por fora. Ou pior: mostra que ele próprio é quem supõe — numa atitude pré-tropicalista — que um brasileiro sentir genuinamente essa vontade feladaputa de ser americano e exibi-la é algo reprovável. Burrice. Um garoto, em meio à pequena multidão que se reúne para ver Gerônimo cantar na Escadaria do Passo em Salvador, me abordou com a mesma conversa. Estava fulo. Era muito jovem e viril e parece que queria me bater. Discuti um pouco com ele e segui meu caminho. Ele não engoliu a veemência com que reafirmei que a canção é uma homenagem a Raul. Deve ser muito óbvio para quem quer que esteja inteirado dos assuntos envolvidos (rock, rock no Brasil, o histórico de Raul, o meu, o dos tropicalistas, a verdade tropical) que minha canção (com ser o embrião do trabalho que veio dar no “Cê”) é uma ode a Raul Seixas. Não me interessam as interpretações que porventura ofereçam Lobão ou Marcelo Nova. Aliás, será que tenho de explicar que dizer que Marx tem razão como Lobão é uma piada irreverente com Marx? Há mesmo quem não tenha entendido a graça? E há quem pense que a frase “Lobão tem razão” da minha canção significa, não a restrita e comovida aprovação do verso “chega de verdade”, mas uma afirmação de que Lobão — tão errático — tem sempre razão???

O rock dos anos 80 foi mais injusto com Erasmo e Raul do que com os tropicalistas. Mas os anos passam e as coisas vão se acomodando. É a história. Imprevisível em seus fins mas acompanhável em seus processos. Se há uma canção que alguém como eu tem de admirar de modo exaltado é “Ouro de tolo”. Sobretudo com aquela gravação, paródia de “Detalhes”, de causar inveja a qualquer tropicalista que se preze. Além disso, tem as bases espetaculares, aquela bateria aquela banda, que estão em tantos discos de Raul. Um babaca musical como eu tem de apreciar com reverência. Se Nando Reis me diz que fica embasbacado com “O conteúdo”, entendo que valeu a pena esperar. Eu amava o Camisa de Vênus. Nunca pedi, quis ou esperei reciprocidade de seu front-man.

Nem preciso.

Uma vez eu disse que Ivan Lins era música e Nirvana era lixo. Ora, eu gosto mais do Nirvana do que de quase tudo que ouvi nas últimas décadas. Mas o jornalismo de rock imitado do britânico me enche o saco. Além disso, é preciso que quem me ouve dizer que adoro Nirvana saiba que é assim sem que eu perca de vista o que há de semelhante entre ele e o Police. Soo muito heterodoxo criticamente?

Bem, não será a última vez.

Arto Lindsay (que com o DNA e com o Ambitious Lovers criou ao menos dois momentos culminantes da história do rock) e eu aderimos às vaias de “veado! veado! veado!” contra Prince, porque ele estava demorando demais de começar o show (uns caras ficavam passando Brasso nos corrimãos dourados que ele ia usar na apresentação). Rimos. Enfim o show se deu (no Maracanã): foi o melhor que eu já vi na minha vida.

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