[ROCK PROGRESSIVO] Canterbury Scene

Fotografia: Banda Caravan, por Barry Plumer

Extremamente curioso é o fato de existir um subgênero dentro do Prog para designar uma sonoridade própria de uma região, como o som feito em Canterbury, uma pequena cidade catedral a cerca de 90 km de Londres, alvo de peregrinações durante os séculos. Na segunda metade dos anos 60, um movimento começou a tomar forma nessa região a partir de uma banda de amigos adolescentes chamada The Wilde Flowers que misturava melodias pops, psicodelia e R´n´B.

O termo Canterbury Scene inicialmente definia um movimento de contra cultura da região e passou a ser associado a música produzida pelos artistas locais. Uma figura catalisadora dessa cena foi o australiano beatnik Daevid Allen que passou pelo Soft Machine e depois montou o Gong. Ele apareceu em Canterbury e se hospedou na casa dos pais de Robert Wyatt (outra figura fundamental da Canterbury Scene), local esse que serviu de refúgio para muitos músicos e artistas esquerdistas no período. Rapidamente Daevid Allen se envolveu com os músicos e artistas locais. Apesar de Canterbury ser o berço para o desenvolvimento desse estilo obscuro, esse movimento cresceu e passou a influenciar outros artistas em todo o mundo, por exemplo na França, onde o Gong surgiu, com o Moving Gelatine Plates e o Travelling, ou o Supersister da Holanda, o COS da Bélgica, Picchio Dal Pozzo e DFA da Itália, Amoeba Split da Espanha, De Lorians do Japão, Zyma da Alemanha, inclusive no Brasil através do Violeta de Outono, banda de Psychedelic/Space Rock capitaneada pelo guitarrista Fábio Golfetti que é membro ativo do Gong hoje.

Antiga capital dos Celtas, Canterbury (Cantuária) é um dos principais destinos turísticos do Reino Unido, cidade onde mora o líder da Igreja Anglicana.

O amor pelo jazz e suas improvisações e pela influência dos artistas e da arte de vanguarda nos anos 60 e início dos anos 70 são os pilares que moldaram o estilo. Uma mistura de Jazz-Rock /Fusion, Psicodelia, liberdade de expressão e melodias pops com o Rock Sinfônico que estava tomando forma na Inglaterra. Inclusive, outro subgênero que trouxe grandes influências dessa corrente e que falaremos em outra playlist, foi o Avant Prog/Rock in Opposition (RIO). As letras são leves, cômicas, absurdas ou mesmo sem sentido, em contrapartida a profundidade e, às vezes, densidade da maioria das letras dos outros subgêneros dentro do prog na época.

Quando o The Wilde Flowers acabou em 1967, deu origem aos pilares do Canterbury Scene, as bandas Soft Machine e Caravan que lançaram seus primeiros álbuns em 1968 e faziam frente, na cena psicodélica, ao Pink Floyd. Os músicos, todos amigos e conhecidos entre si, deram origem, juntos ou separados, às primeiras bandas do estilo como Gong, National Health, Egg, Hatfield and The North, Matching Mole e algumas outras, além das duas citadas acima. É fácil identificar elementos do Folk, Blues e música erudita junto a psicodelia, improvisações do jazz e linhas melódicas bem características do estilo. Também começamos a perceber as semelhanças nesses primeiros subgêneros do prog se consolidando, o Canterbury Scene tem uma proximidade forte com o Psychedelic/Space Rock definido pelo Pink Floyd principalmente nos anos seguintes e também com o King Crimson pelo Symphonic Prog do seu primeiro disco e das suas incursões jazzísticas posteriores. Alguns dos músicos dessa geração tornaram-se músicos conhecidos por seus trabalhos no Free Jazz, Fusion e Rock posteriormente, como Andy Summers do The Police, Allan Holdsworth, Phil Miller, Steve Hillage, Fred Frith, Elton Dean e Lol Coxhill.

O Canterbury com o passar dos anos 70 e depois, acabou diminuindo gradativamente os elementos do rock e absorvendo cada vez mais os elementos do jazz, e alguns músicos indo cada vez mais nessa direção e contribuindo em outros gêneros. Steve Hillage por exemplo, produziu inúmeras bandas nos anos 80 e desenvolveu um estilo de música eletrônica através de outros artistas e formas iniciais de house music e remixagens associadas, uma antítese do prog com poucos riffs tocados repetidamente ao invés de vários diferentes tocados numa mesma música no progressivo.

O Canterbury Scene se manteve através dos anos como um estilo de prog rock mais voltado ao experimentalismo, jazz e improvisação e com uma nova leva de artistas espalhados além das fronteiras regionais, influenciando e sendo fundamental na construção de toda uma cena até os dias de hoje.

Vale a pena conferir essa playlist com 50 músicas desse estilo.

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