[ROCK PROGRESSIVO] Pink Floyd: Da psicodelia ao mainstream

Em 1965, os rapazes do Pink Floyd com certeza não imaginavam que um dia a banda se tornaria a maior de Rock Progressivo de todos os tempos e uma das maiores bandas de rock em geral. Facilmente reconhecível, até mesmo pra quem não conhece o Prog Rock, suas características inconfundíveis o fizeram vender 45 milhões de cópias estimadas do The Dark Side of the Moon, sendo o terceiro disco mais vendido da história, perdendo apenas para o Back in Black do AC-DC e o Thriller do Michael Jackson. Além desse álbum, o The Wall vendeu cerca de 30 milhões de cópias, estando entre os 30 mais vendidos de todos os tempos. Roger Waters foi, a partir do The Dark Side, o principal responsável pelo feito, por direcionar a concepção artística da banda, embora ao se ouvir a guitarra e a voz de David Gilmour, imediatamente percebemos que se trata do Pink Floyd.

Formada em Londres pelos amigos de faculdade Roger ‘Syd’ Barrett na guitarra e vocal, Nick Mason na bateria, Roger Waters no baixo e vocal e Richard Wright nos teclados e vocal. O Pink Floyd chamou rapidamente a atenção na cena de Rock Psicodélico pelo seu som único, repleto de efeitos criados pela dupla Barrett e Wright, alguns nunca usados antes, e, shows com uma iluminação hipnótica que se tornaria uma marca registrada da banda. Assim começaram a construir uma legião de fãs e fizeram suas primeiras aparições na tv com performances ao vivo e entrevistas na BBC. O nome da banda foi dado por Barrett e tirado da sua coleção de discos, dos blueseiros Pink Anderson e Floyd Council.

Em 1967, a banda assinou contrato com a EMI que lançou os primeiros singles, Arnold Layne em janeiro, criando polêmica desde o primeiro lançamento, pelas referências ao Cross-Dressing e See Emily Play em junho. No mesmo ano, saiu o primeiro álbum, The Piper at the Gates of Dawn e Barrett começou a mostrar os primeiros problemas por causa do uso diário do LSD. Segundo Nick Mason, Barrett estava se distanciando completamente de tudo ao seu redor. As crises começaram a se instalar, culminando na impossibilidade de Barrett se apresentar ao vivo. Então, os outros membros recrutaram David Gilmour como segundo guitarrista e vocalista e, inicialmente, ele cobriria as guitarras de Barrett ou tocaria junto e até cantava imitando a voz dele. A situação agravou-se a tal ponto que, esperando por Barrett, a caminho de um show, após a sugestão de alguém da equipe em ir buscá-lo, um deles disse que não precisavam se dar a esse trabalho e seguiram sem Syd Barrett ao show.

Em abril de 1968, é oficialmente anunciada a saída de Barrett e sem ele lançam o disco A Saucerful of Secrets. Gravado no Abbey Road, traz a última contribuição de Barrett, Jugband Blues. Outra música de destaque nesse álbum é Set the Controls for the Heart of the Sun, de autoria de Roger Waters que estava assumindo as letras e a liderança artística. O título dessa faixa parecia prenunciar o controle exercido por Waters nos anos que se seguiram ao Meddle em 1971. A faixa em si mostra um Pink Floyd experimentando, cada vez mais,  outros caminhos e sentando a pedra fundamental do que viria a ser, dentro do Prog Rock ainda não completamente definido, o sub gênero Psychedelic Space Rock.

Cinema, Ummagumma e Meddle

Rick Wright, Roger Waters e Nick Mason estudavam arquitetura em Cambridge quando formaram o Sigma 6,com mais três amigos, o embrião do Floyd; logo em seguida, Syd Barrett, estudante de artes plásticas, entrou pra banda e mudou a concepção sonora.

A música do Pink Floyd, desde os tempos de Syd Barrett, usava e abusava da psicodelia, da improvisação e das experimentações, apenas esse direcionamento mudou um pouco com a mudança na formação, além disso, eles precisavam de um horizonte por assim dizer, e apenas a psicodelia não definia a amálgama floydiana que se distanciava do então Rock Sinfônico do período.

No início de 69 eles gravaram a trilha sonora do filme More, sendo o primeiro disco sem Syd Barrett e sem a assistência do produtor Norman Smith, ficando a produção a cargo deles próprios. Não foi a primeira experiência do Floyd com trilhas sonoras e seus experimentos caiam como uma luva para tais eventos. Eles haviam gravado, no ano anterior, temas instrumentais para o filme The Committee. O diretor do filme, Barbet Schroeder ficou particularmente impressionado como eles gravaram rapidamente, em apenas duas semanas, de forma semi improvisada. Contendo faixas mais pesadas como The Nile Song e Ibiza Bar, e trazendo os primeiros experimentos folk com Green is The Colour e outras instrumentais bem ao estilo do Floyd na época.

No mesmo ano, lançado em outubro, o disco duplo Ummagumma trouxe mais experimentos, com cada um dos membros tendo espaço para desenvolver um tema em um dos discos e, no outro disco, registros ao vivo realizados entre abril e maio de 69, embora no disco esteja escrito que foi gravado ao vivo em junho de 69, mostrando todo o arsenal sônico psicodélico do Floyd. A ideia do álbum duplo partiu de Wright que gostaria que eles escrevessem “música de verdade”. A bem da verdade, eles não ficaram satisfeitos com o resultado final do trabalho, embora tenha agradado fãs e crítica, e vendido muito bem, sendo citado como um grande álbum ao vivo que representou perfeitamente a força e a atmosfera do início do Pink Floyd.

Em 1970, o Rock Progressivo já era amplamente conhecido como tal e seus subgêneros já se formavam por si sós, e o Floyd delineou o Psychedelic Space Rock, umas das vertentes mais poderosas do Prog. Em outubro lançaram Atom Heart Mother. Waters e Gilmour acharam o disco muito ruim e preferiam nem sequer tê-lo lançado. Mas foi o primeiro número 1 das paradas do Pink Floyd, permanecendo por 18 semanas nas paradas na Grã-Bretanha. Eles tocaram exaustivamente pela América e pela Europa nesse ano e começaram a ganhar dinheiro de verdade. Após essa tour veio o disco Meddle em outubro de 1971. David Gilmour apresentou sua mais bela forma e demonstrou que sabia conduzir muito bem a sonoridade da banda. O disco traz Echoes, um grande clássico e marcou a transição entre a fase Barrett, a psicodelia inicial e a grande força musical que o Pink Floyd se tornaria, permanecendo por 82 semanas nas paradas.

The Dark Side Of The Moon – Wish You Were Here

Entre 1972 e o início de 1973, eles gravaram o disco mais emblemático do Pink Floyd, o The Dark Side Of The Moon, que é um dos melhores álbuns de Prog de todos os tempos, marcando o começo da absoluta liderança de Roger Waters que escreveu todas as letras do álbum, bem como direcionou artística e musicalmente a banda a partir de então, até sua saída após o álbum The Final Cut (título sugestivo) em 1982. O The Dark Side os deixou milionários, passaram a adquirir propriedades e bens e usufruir um pouco desse sucesso. Trocaram de gravadora nos EUA, da Capital Records para a Columbia Records,  abocanhando 1 milhão de dólares, o equivalente hoje a cerca de 5 milhões de dólares. Eles estavam completamente exaustos, física e mentalmente, após a tour desse disco.

Em janeiro de 1975, entraram em estúdio para a próxima aventura. Não foi um trabalho fácil, demoram algumas semanas no estùdio até engrenar e, então, Wish You Were Here é composto com 4 temas apenas, sendo que a faixa de abertura, Shine on you Crazy Diamond, é dividida em duas e também fecha o álbum. Uma clara homenagem ou,  despedida de Barrett que, inclusive os visitou no estúdio. Esse é o disco onde eles melhor trabalharam em conjunto na criação, e fugiram completamente do Dark Side. Também é uma crítica a indústria musical, mostrando uma faceta diferente até o momento.

Eles criaram grande parte desses temas e também algumas para o Animals durante a tour de 1974. Era costumeiro para o Floyd testar os temas em shows antes de gravá-los para os álbuns subsequentes. Com o dinheiro entrando eles compraram, ainda em 75, um prédio de uma igreja de 3 andares e construíram seu estúdio e um galpão que também servia para armazenar sua parafernália, equipamentos de som e luz. Em 1976, gravaram Animals no seu estúdio recém construído. E começa, a partir daí, a tirania musical de Waters com o resto do grupo, crendo que era o principal compositor da banda, além do fato de eles receberem partes diferentes em direitos musicais, gerando uma série de conflitos. O disco saiu em 1977 e foi muito bem comercialmente.

The Wall

No ano seguinte Roger Waters apresenta algumas ideias conceituais ao resto da banda e eles escolhem o que se tornaria o The Wall. Durante a gravação desse disco Wright é despedido por Gilmour e Mason alegando que ele não estava preparado para gravar o disco e teria contribuído com absolutamente nada. E seria melhor ele concluir o trabalho, ganhar a parte dele e sair calado, a entrar numa batalha judicial. Assim aconteceu. O disco saiu em 79 e foi o primeiro com uma capa que não foi feita pela Hipgnosis. Rendeu um filme dirigido pelo diretor Alan Parker e com Bob Geldof como o ator principal.

A essa altura do campeonato a relação deles estava em seu pior momento e Wright fez a tour como músico contratado, ironicamente, só ele ganhou dinheiro porque eles tiveram mais de um milhão de dólares de prejuízos com a tour. Waters reinava e assim que o filme saiu em 1982 ele apresentou a Gilmour e Mason um projeto musical para o The Final Cut. A contribuição de Gilmour, na visão de Waters, foi nada e seguiu como o único compositor da obra. Sem Wright eles tiveram a ajuda de Michael Kamen fazendo as orquestrações do álbum.

Depois de tantos problemas a situação ficou insustentável e eles partiram para discos solos e para um briga na justiça pelo nome Pink Floyd. Waters queria que a banda tivesse um fim e não permitiria o uso do nome, mas Gilmour insistia que a banda continuaria e ganhou esse direito na justiça. Anos mais tarde, Waters reconheceu o quanto foi idiota na época.

Fase sem Roger Waters

Em 1986 começa a era liderada por David Gilmour. Wright foi repatriado inicialmente como músico contratado, por causa de complicações jurídicas não podia ser integrado como membro do Floyd. A Momentary Lapse of Reason saiu em 1987 com críticas severas de Waters, acusando-os de uma imitação do Pink Floyd, eles acabaram chegando a um acordo onde Gilmour e Mason teriam o direito de usar o nome Pink Floyd eternamente enquanto Waters teria os direitos sobre o The Wall entre outras coisas.

Após uma pausa para seguir com suas vidas pessoais, em 93 o trio retorna para as sessões de composição e gravação do The Division Bell, lançado em 94 e seguido de sua última tour, encerrada em 29 de outubro de 1994. O Pink Floyd deixa um legado imenso ao rock como um todo e ao Rock Progressivo em particular, sendo a principal inspiração para o subgênero Psychedelic Space Rock e admirado e reconhecido por fãs de todas as idades e de estilos distintos ao redor do mundo.

Em julho de 2005 o Pink Floyd se apresentou com os quatro membros, depois de 24 anos sem tocar juntos, no festival Live 8. A reunião foi articulada por Bob Geldof que era o produtor do festival. Após especulações diversas, eles recusaram um contrato milionário para uma tour e Gilmour foi categórico em dizer, que a marca Pink Floyd havia acabado de uma vez por todas e que trabalhar sozinho era muito mais confortável.

Syd Barrett morreu em 2006 na sua residência e Richard Wright em 2008 de um câncer não divulgado. Gilmour e Mason revisitaram os tapes de gravação do The Division Bell e lançaram o álbum The Endless River, como um tributo a Wright, em 2014.

O Pink Floyd ainda gravou algumas outras trilhas sonoras como Zabriskie Point de Michelangelo Antonioni e Obscured By Clouds em 1972, do filme La Vallée do mesmo diretor do More. Também é notável a contribuição do Floyd pelo uso de tecnologias avançadas desde o início da carreira. Equipamentos de som com falantes quadrafônicos e sistemas de luzes e efeitos sonoros inovadores. O Pink Floyd é uma das bandas mais influenciadoras e de maior sucesso musical de todos os tempos e sua influência vai além do Rock Progressivo ou mesmo do Pop. Artistas diversos e de estilos bem distintos como David Bowie, U2, Queen, Tool, Radiohead, Queensryche, Dream Theater, Kraftwerk, Marillion, Nine Inch Nails, são apenas alguns que bebem reconhecidamente nessa fonte.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Carito Cavalcanti 4 de julho de 2021 20:47

    Valeu, Eri! Texto massa.

    • Eri 4 de agosto de 2021 19:35

      Grato mestre. Muito legal vindo de vc que admiro demais seus escritos e trabalhos musicais e visuais. Abs

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