[ROCK PROGRESSIVO] Um interlúdio: King Crimson

Essa é a melhor banda de todos os tempos.” Jimi Hendrix ao ver o show do King Crimson enquanto pulava e se divertia.

Quando você quiser saber pra onde a música está indo no futuro, ouça um disco do King Crimson”, Bill Brufford disse em 1995.

Kurt Cobain disse certa vez que o Red do King Crimson era um de seus álbuns prediletos desde sempre.

Eu acredito que algumas bandas tiveram uma importância ímpar para a construção do Rock Progressivo. São elas: Pink Floyd, Genesis, Yes, Jethro Tull e King Crimson. Essa última deixou toda uma audiência boquiaberta quando teve a oportunidade de fazer o ato de abertura do show do Rolling Stones no Hyde Park em 5 de julho de 1969, introduzindo o jovem guitarrista de 20 anos Mick Taylor e homenageando Brian Jones falecido dois dias antes. Esse grande concerto foi gratuito e tinham mais de 500 mil pessoas e algumas bandas de abertura. O King Crimson era uma delas. Eles ainda não tinham lançado o álbum de estreia, que saiu em outubro do mesmo ano e delineou o Rock Progressivo e influenciou até mesmo o Heavy Metal.

A grande importância do King Crimson foi manifestar-se sempre contra a corrente em toda a sua carreira, a começar por esse show e pelo lançamento do primeiro disco. Um show eletrizante e repleto de improvisos, essa é a característica mais marcante do King Crimson, e causou um rebuliço geral que, por pouco, não ofusca a grande atração.

O som do King Crimson era denso, com letras pesadas, sempre se desviando do lugar comum e trazendo amálgamas fabulosas em sua mistura musical. Jazz, música erudita e influências nada ortodoxas sempre permearam o trabalho da banda. Centrado na figura do icônico guitarrista Robert Fripp (no início houve várias mudanças de formação, a instabilidade reinou e a banda teve inúmeras pausas e retornos), músico excepcional que usou a tecnologia a seu favor criando o Frippertronics, que consistia de dois gravadores de rolo Revox A77 interligados, que repetiam e alteravam o tom e a maneira como era repetido, possibilitando tocar em cima dessas bases pré-gravadas instantaneamente.

Assim nasceu o primeiro sistema de loops amplamente utilizado hoje como pedais de efeito de diversas marcas. Fripp também desenvolveu uma maneira de tocar em que sua guitarra é afinada em quintas, similar ao violoncelo e criou uma escola que  ensina esse método, inclusive mundo afora.

Segue uma playlist introdutória ao King Crimson:

Primeira pausa na banda

Houve um desfile de músicos fantásticos no King Crimson, com passagens por diversas bandas conhecidas. A primeira formação teve Greg Lake (baixo e vocais) que em seguida montaria o Emerson, Lake and Palmer, além de Michael Giles (bateria), Peter Sinfield (letras e show de luzes, isso mesmo) e Ian Macdonald (sax e teclados). Essa formação gravou o In The Court of The Crimson King. Em seguida veio Keith Tippett (piano) e Mel Collins (sax e flauta) que substituíram Ian Macdonald, que montou o Foreigner. Com essa formação lançaram o In The Wake of Poseidon e trouxeram uma pegada mais jazzística e Fripp também tocando Mellotron (um dos primeiros sintetizadores, senão o primeiro da história), começando a se distanciar do Prog Sinfônico e partindo definitivamente para o experimentalismo. Seguiram-se turnês inglesas e americanas.

O terceiro disco saiu em agosto de 1970, chamado Lizard, bastante próximo do subgênero Canterbury Scene, com as influências do jazz bastante presentes e com Andy McCulloch (bateria) e Gordon Haskell (baixo e vocal), permanecendo Tippett, Sinfield e Collins na banda e com Jon Anderson do Yes fazendo uma participação fantástica na música título. Em seguida, em 1971, sai o Islands, que trazia Boz Burrell (baixo e vocal) e Ian Wallace (bateria). Após esses quatro discos excelentes surge um hiato, quando Fripp percebeu que havia chegado onde queria e não era onde queria estar. A intenção dele era buscar uma música mais desafiadora ainda e explorar fronteiras diferentes.

O Rock Progressivo já estava estabelecido e vários subgêneros haviam surgido, o que ele procurava era se distanciar da cena e trilhar um caminho único. E assim o fez. A próxima formação traria Fripp (guitarras e mellotron), Bill Brufford (bateria) que havia deixado o Yes para encarar esse desafio, David Cross (violino e teclados) e John Wetton (baixo e vocais) que quando saiu do Crimson tocou e gravou com Roxy Music, UK, Uriah Heep, Wishbone Ash, Asia entre outros. Essa formação trouxe uma música mais densa e experimental onde o improviso reinava e rendeu 3 álbuns que influenciaram mais uma geração inteira no Prog, Metal e Fusion. As apresentações deixaram as orquestrações de lado e focava bem mais nos instrumentos, interpretações e improvisos. O som ficou ainda mais pesado, com o uso de pedais por John Wetton no baixo. Nesse período veio Richard-Palmer James com suas letras surreais e o percussionista Jamie Muir que antes do Kiss subia ao palco fantasiado e cuspindo sangue numa performance bastante peculiar. Os álbuns Lark´s Tongues in Aspic, Starless and Bible Black e Red surgiram nessa fase. Então, em 1974, o King encerra suas atividades.

AQUI o King Crimson executando a emblemática 21st Century Schizoid Man do primeiro álbum com três baterias.

Polirritmias, compassos complicados e uma pitada de som pop

Em 1981 o Crimson dá de novo as caras com um som bastante diferente, dessa vez volta Bill Brufford e vem Tony Levin (baixo e Chapman Stick) e Adrian Belew (ex-Talking Heads) para a guitarra e vocal. Nessa fase foram lançados três discos: Discipline, Beat e Three of A Perfect Pair. O som mesclava elementos da última formação com polirritmias e compassos complicados associado ao som percussivo da música javanesa e frases hipnóticas de guitarra, além de uma orientação levemente voltada ao som pop recorrente da época, trazido talvez pela experiência de Belew com o Talking Heads. Mais uma vez o Crimson nadando contra a corrente.

Os improvisos continuavam ali e as performances mesclavam também músicas das fases anteriores. 1984 termina com o Crimson em animação suspense para retornar 10 anos depois,  quando eles, mais uma vez voltam ao experimentalismo extremo com o que foi chamado de the double trio, duas bateras, duas guitarras e dois baixistas e muito peso, improviso e uma linguagem única. Seguiram-se os discos VROOM e THRAK. A formação era a mesma anterior acrescida de Pat Mastellotto (bateria) e Trey Gunn (guitarra WARR). Nesse período o Crimson passou a ser uma entidade que permitia e incentivava os membros a produzir e lançar trabalhos independentes e paralelos. Os shows poderiam ser coletivos ou apenas com alguns membros e o palco viria a ser uma grande oportunidade para uma experiência anárquica controlada. Esses trabalhos eram chamados de ProjeKtc One, Two, Three e assim por diante, gerando inúmeros discos ao vivo e também inúmeros lançamentos de shows de todas as épocas do Crimson.

Os anos 2000 chegam e são lançados The ConstruKction of Light (2000) e The Power To Believe (2003) e logo após Adrian Belew saí da banda. O Power em especial mostra novamente o King Crimson em grande performance.

Em 2019, o Brasil teve o privilégio de assistir o King Crimson pela primeira vez com uma formação mais inusitada ainda, com 3 bateristas que se posicionam a frente do palco e os demais músicos em um tablado elevado atrás. A formação atual conta com Fripp (guitarras e mellotron), Jakko M. Jakszyk (vocais, guitarra e teclados), Mel Collins (Sax e Flautas), Tony Levin (baixo e Chapman Stick), Gavin Harrison (bateria), Pat Mastellotto (bateria) e Jeremy Stacey (bateria) mas pode mudar a qualquer momento. A liberdade criativa, de improvisação e de ir e vir são amplamente incentivadas. Vale muito a pena conhecer e apreciar essa banda fantástica.

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