Rodolffo e o nosso racismo cotidiano

Feliz pela saída do cantor goiano. Não sei vocês, mas não consigo isolar um único aspecto da personalidade de alguém e fixar nele minha admiração, esquecendo características reprováveis. Só consigo admirar o conjunto da obra, por assim dizer.

Temi que o Rodolffo ficasse, por conta dos fã-clubes que votaram centenas de vezes no Caio, para que ele permanecesse no jogo. (Esquisito, né? O Caio era o melhor amigo do Rodolffo na casa; mas esse detalhe, assim como outros da maior importância, foram relegados pelos ardorosos admiradores do moço). Eis o retrato da nossa sociedade: Caio ainda recebeu cento e oitenta e três milhões de votos. Não saiu por muito pouco. Seu pior defeito? Ser fofoqueiro.

Nunca vi o Rodolffo com bons olhos. Percebi desde o início, o incômodo dele com o Gil e com o João pelo fato de os dois serem gays. Sobre Gil, o cantor alegava reticências por causa do jeito, digamos exuberante do brother. Sobre João o incomodo era menos claro porque, afinal, como explicar a antipatia gratuita por uma pessoa tão gentil e ponderada? Mas o João sentia e falava disso desde o início: “quando eu entro, o Rodolffo sai; não fala comigo direito…”.

Da metade do “folhetim” em diante também foram surgindo atitudes claramente machistas por parte do sertanejo: uma tendência a desculpar os erros dos homens (dos héteros, é bom frisar) e de se afetar com os desenganos das mulheres. Em uma noite de paredão em que justificou o voto em Carla Diaz acusando-a de trair o Arthur, escancarou sua visão sexista da relação afetiva dos dois.

Mas o x da questão que desejo tratar aqui é o racismo recreativo que ele cometeu contra o João e que se repete todos os dias no Brasil: nas escolas, nas igrejas, nos espaços públicos e privados, dentro dos lares, entre amigos e familiares…

Gente como nós comete racismo recreativo de maneira consciente e intencional ou em atos falhos, como uma reprodução automática daquilo que a sociedade por séculos considerou como normal, aceitável e até mesmo, engraçado.

 O que surpreendente, de fato, é como os brancos, ainda se mantem alheios a esses abusos, pouco se esforçando para compreender as questões históricas envolvidas nos assédios erroneamente chamados de “brincadeiras”. Por isso as pessoas negras se dizem tão cansadas e enraivecidas com os pedidos de que “nos ensinem” a agir da maneira certa.

Esse pedido de ajuda é absurdo e constrangedor porque termina revelando nosso nível de comprometimento com um tema fundamental para o avanço de uma sociedade que se deseja justa, igualitária, pacífica e segura.

Da falta de interesse em aprender; do desleixo e da ignorância, resultam as violências cotidianas que a população negra continua a vivenciar 123 anos após a abolição da escravatura.

Não posso demonizar o Rodolffo. Não me considero melhor do que ele. Demorei muito mais tempo do que deveria para ler autoras negras e desconstruir um pouco da cultura eurocêntrica que me formou até aqui. Não tenho desculpas: tive acesso à informação. Eu não me interessei. Considerei que sabia o suficiente, que compreendia as questões e achei que fosse uma pessoa melhor do que os que escancaram seu racismo de maneira violenta.

Espero que o cantor esteja sendo sincero em seu arrependimento, busque conhecimento e o coloque em prática no seu cotidiano. Talvez se torne digno de toda a admiração pelo trabalho que realiza na área musical. Pessoas públicas podem contribuir com a luta contra o racismo, contra o machismo e contra a homofobia. Elas podem usar sua imagem e seu discurso para mudar as mentalidades dos seguidores. Não consigo imaginar o que seria mais importante na carreira de alguém do que salvar vidas. Sim, porque é disso que se trata: o racismo, o machismo e a homofobia matam pessoas todos os dias.

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