Rodolfo Lima e sua trilogia teatral sobre o amor

No domingo retornei à Boca Espaço de Teatro, na Ribeira, para assistir o último dos três monólogos ou espetáculos solo com o ator e diretor Rodolfo Lima, “Réquiem para um rapaz triste”, a partir de fragmentos de textos de Caio Fernando Abreu. Nas semanas anteriores vi “Bicha Oca”, inspirado em contos de Marcelino Freire, e “Desamador”, adaptação das crônicas de Fabricio Carpinejar. Comentei aqui no blog os dois primeiros trabalhos.

Achei por bem acrescentar aqui o termo “espetáculo solo”, o que não fiz nos dois primeiros textos. Na verdade a diferença entre os dois formatos é pequena. Tanto que os dois termos são usados como se fossem uma coisa só. O monólogo é mais fechado, digamos assim, enquanto o espetáculo solo permite uma abertura de interação com a plateia. O solo proporciona um “diálogo” do intérprete com o público e isso está bem presente em “Réquiem…” e “Desamador”.

Em “Réquiem para um rapaz triste” a personagem, uma mulher de meia idade, que fuma um cigarro atrás do outro, expõe o seu isolamento e com um certo ar melancólico aborda, ora séria, ora com humor, suas escolhas e questões sobre o relacionamento amoroso. “Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada ‘impulso vital’. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo como ‘estou contente outra vez’ (trecho de “Réquiem…”).

O amor é tema dos três monólogos, que podem muito compor uma trilogia sobre o afeto nos tempos atuais, sendo que o último, “Réquiem…” é menos pessimista que os outros dois. Se não fosse isso o conjunto poderia muito bem se chamar de “trilogia do desencontro amoroso” ou “trilogia do desencanto amoroso”.

Refletindo agora, fiquei em dúvida se gostei mais de “Bicha Oca” ou de “Réquiem”. É que pensei em nominar, pela ordem, quais os que curti mais. Então, voto no empate. “Desamador” tem também boa interpretação, mas o texto não me agradou, achei meio clicherizado.

Gostei da encenação de Rodolfo Lima nos três espetáculos. Demonstrou que é um bom ator. Não é fácil fazer um monólogo, quando cabe a um único personagem controlar todo o palco. É um desafio e tanto. Geralmente, permite distinguir melhor o bom do mau ator.

Foi mais uma noite de casa cheia na Boca. Sobretudo de jovens. Parece que o povo que tem acima de 40 anos nessa cidade não gosta de teatro. Uma pena!

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