Ródtchenko na Pinacoteca do Estado

A Pinacoteca do Estado (São Paulo SP) apresenta, de 19 de fevereiro a 1º de maio, belíssima e entristecedora exposição de fotografias de Aleksandr Ródtchenko.

Belíssima porque Ródtchenko nos coloca em contato com a fotografia como profundo pensamento visual, no nível da melhor pintura – penso em nomes como El Greco, Rembrandt, Picasso e Matisse. Entristecedora porque acompanhamos o deslocamento dessa grande capacidade expressiva para os quadros de funções utilitárias e diminuidoras de suas conquistas, levando em conta a transformação do excepcional inventor de faces humanas e objetos em ilustrador de revistas pioradas ao longo do tempo pela política cultural de Stálin – a sensibilidade administrada pelo estado, mais conhecida como realismo socialista, dupla ofensa ao real e à sociedade. A tragédia da arte soviética (gente como Eisenstein e Maiakóvski) é a tragédia da revolução, que anunciou o melhor, demonstrou que ele era possível mas contentou-se com o de sempre.

Apesar dessa tristeza, rever as imagens desafiadoras de Ródtchenko é uma oportunidade para enfrentar utopias, pensar que, talvez, as utopias um dia retornem contra esse mundo tão desanimador.

Ródtchenko, fotografando rugas ou olhares, faz-nos pensar sobre o que existe em cada ser humano no limiar entre o que se vê e o que pode vir a ser visto. E fotografando objetos (molas, por exemplo), nos coloca diante do que os seres humanos conseguiram fazer e nem viram ainda direito, passam a ver melhor depois daquelas fotos.

Ele não esconde do espectador que luzes e enquadramentos são escollhas negociadas do fotógrafo com sua matéria. E realiza um compartilhamento de visão com quem conhece suas fotografias, como se visitássemos suas retinas tão atentas.
É uma exposição para se ver e rever muitas vezes.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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