Roleta Russa

É na madrugada que vagueiam todos os bichos, todos os bruxos, todos os brutos.

Sou gordo e pálido, baixo e de olheiras.

Eu nunca tive nada até ter esta pistola. Calibre 38. Preta. Dividida em seis parcelas iguais de R$340.

Com meu salário de policial recém formado posso pagar isso, as contas de minha mãe e uma rotina de álcool, cocaína e bares sujos.

Gosto dos bares mais sujos, daqueles com merda no vaso do banheiro e garçonetes gordas, pouco vestidas e banguelas.

Numa noite dessas, em que emendo uma farra escrota com o serviço, bebendo cachaça barata e cheirando pó em público, eu quase matei um travesti porque ela era linda e aquilo me incomodou.

Sou conhecido nesses bares que freqüento… Por toda a cidade ouvem falar de mim e eu gosto, e têm medo… Eu nunca tive nada até ter esta pistola. Calibre 38. Preta. Dividida em seis parcelas iguais de R$340. Nenhuma bala disparada.

Ainda.

Estuprei uma menina apontando minha arma pra cabeça dela. Foi na rua, de noite. Depois deixei uma grana… Hoje em dia quem não se vende?

Chegando em casa, uma vez, tinha uns filhos-da-puta na esquina… Saí empunhando minha pistola, mandei-os embora… Mas sem atirar… Para que serve a bomba atômica senão para deixar todo mundo com o rabinho entre as pernas?

Esta pistola tem valor sentimental para mim. Nunca tive nada antes de tê-la. Calibre 38. Preta. Dividida em seis parcelas iguais de R$340.

Com meu salário de policial militar recém formado mal posso pagar as contas de minha mãe e esta rotina cada vez mais cara de álcool, cocaína e bares sujos.

Nunca apertei o gatilho.

Miro contra a têmpora.

Eis que se impõe o patético destino de homens covardes como eu: sair a dar tiros nos pés.

Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
    • Tácito Costa 21 de julho de 2011 18:32

      Valeu Crasso, acessei e vi que tem outros trabalhos massas do Cláudio. Nina, dê um pulinho lá.

  1. Nina Rizzi 18 de julho de 2011 12:52

    Também fiquei bastante curiosa, Tácito; uma mistura de Robert Delaunay com Paul Léger, demais!

    Continuarei a brechar meus arquivos…

  2. Carlos Gurgel 17 de julho de 2011 12:35

    caramba, como Jota é foda!!! nada iguala sua nudez atômica verbal. estupefacto de uma merda de texto que me esculhamba o juízo. e para que serve a literatura???????
    Cgurgel

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