Romance: Márcio Benjamin e o ataque de zumbis no Sertão

As entranhas fazem parte do cardápio sertanejo.

Ainda nos séculos iniciais desta terra potiguaris, escaldados na secura luminosa de um território hostil, nativos e colonos se ajustaram a uma dieta peculiar, praticada pelo homem da Caatinga até os dias atuais.

Línguas, vísceras, parte do aparelho excretor, todo tipo de órgão e bicho ganhou vez no prato de uma gente que entende o jejum, o jejuar.

Negócio carnívoro, sem muito gosto por vegetais, exceção feita para milho, feijão e jerimum caboclo, se as águas dos céus consentirem.

O provimento, a fartura vem lá do alto, dizem alguns que a mando de Deus.

Se chove, babugem salta, papo cheio da bicharada, esperança renovada.

Se estia, a miséria ataca índio, mulato, preto, branco, em uma mostragem de que ela é suprema em qualquer canto.

Vence o horror, o horror, cenário apocalíptico e fértil para quem tiver uma boa ideia e quiser iludir a fome com arte, pois de metáfora em metáfora, de ironia em ironia, o que existir de melancólico e desesperador ganha alento nessa capacidade congênita que uma obra honesta tem de se adequar aos novos tempos.

É o que resta: cantar, poetizar, prosear.

Fome_Zumbis_2Márcio Benjamin e suas histórias aterrorizantes que o digam.

O escritor natalense tem explorado um gênero literário incomum por estas bandas, com possibilidades de comunicação que tanto atende exigências imediatas, sintéticas, de rápida circulação, como revigora a persistência de valores, tradições, em um campo mais vasto e indeterminado.

Falo do terror, ambiência da coletânea de contos Maldito Sertão e agora de seu primeiro romance, Fome (ambos da editora Jovens Escribas), lançado há poucos dias.

Um livro que ataca a jugular do leitor logo pela capa, criação do ilustrador e quadrinista paraibano Shiko, e arranca nossas tripas com sua trama sui generis, em que uma pequena cidade do interior nordestino é atacada por zumbis sem aparente explicação.

Carne de pescoço arrancada à dentadas, crianças devoradas por seres de sangue negro e medo em cada esquina são ligados a percalços conhecidos por quem mora nesta região inóspita do Brasil – como a seca, a pobreza e a corrupção.

Foram dois anos e pouco de trabalho árduo, de noites e finais de semana diante da tela do computador, espremidos entre o expediente em um escritório de advocacia.

“Estou muito safado, por sinal. Não tenho horário muito certo, não. É quando dá um estalo eu vou e escrevo. Quando vejo que a coisa não está caminhando, eu paro”.

Conversei com Márcio em um shopping da cidade, duas semanas atrás.

Falamos sobre os vários núcleos da narrativa, das viagens pelo interior cearense e norte-rio-grandense que lhe inspiraram a construção de cenários e personagens, em sua viagem surreal à França para participar do Salão do Livro de Paris.

Depois da grande surpresa que tive com Maldito Sertão (algumas histórias são de tirar o fôlego e atrapalha o sono dos mais impressionáveis), queria ouvir o que ele tinha preparado em seu primeiro escrito mais longo, antes de partir pra cima de Fome.

“Sou muito sensorial. Sou muito de instinto, não sou muito de fazer estruturas literárias. Nem resumos eu faço. Vou escrevendo, escrevendo, escrevendo o que me dá vontade. Às vezes eu tenho o fim e não tenho o meio. Acho legal trabalhar esse fim, porque ele é o que chama atenção. Com um final legal você consegue amarrar toda a história”.

E então tudo começou com Zefa.

Fome_Marcio Benjamin.2
Márcio Benjamin é um advogado natalense leitor de Cortázar, Garcia Márquez e Érico Veríssimo; das andanças pelo interior do Ceará e Rio Grande do Norte tirou inspiração para escrever “Fome”, seu primeiro romance ambientado em um sertão sobrenatural

Maldita comparação

Comecei a ler Fome naquela de esperar o porvir de um autor após o êxito de seu primeiro trabalho.

Momento definidor para sabermos se a maturidade textual chegou ou se será necessária mais uma vida para repetir algo palatável.

Com Maldito Sertão, lendas clássicas do interior nordestino assombram comunidades rurais.

Em Fome, pelo que entendi, a coisa foi armada no centro de uma cidade de pequeno porte – a delegacia é um dos palcos de conflito.

A abertura traz Zefa, mulher solitária, ex-amante do delegado Paranhos, um dos protagonistas, em um passado distante.

Ela pensa em ir embora para o sul do país, onde está a filha Fátima, enquanto esfola uma galinha.

De repente, uma multidão maltrapilha surge em seu horizonte, como cangaceiros um século atrás.

Sem chance de defesa, a mulher é devorada sem dó.

“O grande motor são os personagens. São pessoas comuns, típicas de interior, a maioria de meia idade, só um que é mais jovem, que é o ajudante do delegado e uma menininha”.

Então Paranhos entra em cena para investigar a morte brutal da antiga parceira de alcova, acompanhado de Segundo, seu capacho desajeitado.

Aparece também o casal Chico e Luzia, esta uma adepta do candomblé, filha de Oyá, entidade yoruba, conhecida como iansã, controladora dos ventos que precedem uma tempestade.

A dinâmica social excludente com crenças minoritárias, porém, a transformou em uma evangélica recém-convertida – um dos dramas existenciais de Fome reside aí, o choque entre as religiões de Luzia, à medida que os zumbis ganham terreno; já o padre, após ser deglutido, vira um dos líderes do bando de mortos-vivos.

O marido de Luzia é motorista do ônibus que traz Fátima, a filha crente que encontrará a mãe depois de tanto tempo.

Ainda na estrada, Chico vê um monstro em cima de um cadáver, como um urubu em festa sobre carniça.

Ao chegar em casa, Luzia se recusa a acreditar no episódio.

A cidade está deserta, o prefeito, ausente.

Promessas de campanha davam conta dos problemas dos munícipes, um deles a falta de sinal telefônico.

Internet inexiste.

Feito um faroeste, Fome tem clima árido, sepulcral.

“Tem um lance meio faroeste mesmo, aquela coisa de cerco, das pessoas tentando sobreviver contra essa ameaça. Toda coisa de zumbi me remete a faroeste”, diz Márcio, em concordância à minha alusão aos ensaios Sobre a Cegueira e Lucidez, de José Saramago, como semelhança na atmosfera.

Fome_Marcio Benjamin
Capa foi criada pelo ilustrador e quadrinista paraibano Shiko

A trama se passa em dois dias.

Com a delegacia cercada por zumbis ensandecidos, Paranhos, Segundo, Fátima e uma menininha estão ilhados no teto do prédio.

“Mas ali era vida real e Deus andava longe”, salta do capítulo 18, mais um de modelo curto escolhido por Márcio para agilizar a narrativa.

Cancelada a festa da padroeira, o leitor pensa nos escândalos em prefeituras interioranas, várias controladas por espertalhões que tratam a população como zumbis.

Quem são eles? Cadê o prefeito? Abandonar a cidade ou tentar descobrir a origem daquilo tudo?

O sotaque arrastado, matuto e ansioso das personagens, além do narrador, poderia ser menos utilizado.

Assim como as notas de rodapé com regionalismos, algumas desnecessárias – Como explicar que sequilhos são biscoitos de maizena e que ‘Seu cabra’ se refere a cabra da peste.

Foi uma escolha do autor, de olho na divulgação em terras distantes.

Nada que atrapalhe a leitura.

A construção da sombra

Márcio trabalhou em João Câmara (RN) e morou em Sobral, no Ceará, Estado vizinho onde viajou de carro por várias regiões.

“É uma história que na verdade fala sobre sobreviver a todo custo. Não tem heróis. São pessoas que primeiro estão tentando ficar vivas”.

Na esteira da série Walking Dead e inspirado no livro Nossos Ossos, de Marcelino Freire, Márcio Benjamin acredita que a divulgação de um romance é mais fácil.

Leitor assumido de Júlio Cortázar, Gabriel Garcia Márquez e Érico Veríssimo, ele esteve na França em março passado, a convite do brasileiro radicado em Paris, Leonardo Tonnus, professor de Estudos Lusófonos da Sorbonne.

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Narrativa deixa a humanidade aflorar em meio aos inumanos, bem ao alcance dos nossos olhos, e nos conduz entre o inverossímil e o antinatural até o desfrute de uma intensidade que só a boa literatura pode nos oferecer

“Foi negócio de sonho, foi uma coisa absurda”.

O contato via Facebook feito pelo docente animado com a boa divulgação dos contos levou Márcio até Sagi, na Paraíba, para entregar o livro em mãos.

Já na França, participou da Primavera Literária Brasileira e do Salão do Livro de Paris, um dos principais eventos do gênero na Europa.

De volta a Fome, seu universo arcaico e sombrio mistura espectros, crimes, ameaças sociais, em uma sequência de fatos extraordinários com inúmeras possibilidades de interpretação.

Uma análise mais exigente dirá que algumas cenas e personagens mereciam maior desenvolvimento, como a fatídica invasão dos zumbis na delegacia.

Talvez, sim.

Mas olho o todo, sobretudo a evolução do escritor desde seus primeiros contos publicados.

A boa dose de tensão criada com o cerco dos zumbis e a fuga da delegacia, com ares trágicos (o corpo de uma criança é jogado longe, para atrair a atenção dos fantasmas sanguinários, enquanto o grupo salta para o ônibus), tem carga dramática suficiente para justificar a leitura das quase 200 páginas.

Márcio nos faz dar valor à ficção com sua escrita cheia de minúcias significativas, cheia de realidade.

Ele deixa a humanidade aflorar em meio aos inumanos, bem ao alcance de nossos olhos, e nos conduz entre o inverossímil e o antinatural até o desfrute de uma intensidade que só a boa literatura pode nos oferecer.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ View all posts ]

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