Romance de Robert Walser antecipa universo kafkiano

Se o adjetivo “kafkiano” está definitivamente incorporado ao nosso tempo para designar tudo que recaia no terreno do insólito ou do suprarreal, então vale a máxima borgiana de que determinados obras produzem automaticamente seus predecessores. O romance “Jakob Von Gunten: um diário”, de Roberto Walser, se enquadra, por foros legítimos, na classe de obras que anunciariam o advento de Franz Kafka.

A biografia do autor, que viveu anonimamente durante vinte anos internado numa instituição psiquiátrica suíça até ser encontrado sem vida na neve, evoca a solidão sem remédio que assombra o mundo kafkiano. Mas é a própria ficção de Walser que anuncia antecipadamente alguns temas próprios ao autor de “O Processo”. A perplexidade de viver num mundo que escapa a toda investida da razão é um desses temas que surge com impositiva nitidez na prosa de “Jakob…”. A certa altura do livro, o personagem-título confessa que está sempre investigando porque, justifica-se, “segredos exalam perfume muito belo, indizivelmente belo”. Mesmo assim, confessará mais na frente: “Alguma coisa está acontecendo, mas não compreendo o que é”.

O núcleo do romance de Walser é de típica matéria kafkiana: um colégio para formação de criados, mas não se trata de um colégio qualquer. Sua estrutura interna, composta de dependências secretas, jardins misteriosos, câmeras interditas de onde irrompe a determinada hora uma vaporosa figura feminina como que saída de uma novela gótica, conferem ao livro uma atmosfera abafada, onde presságios os mais sombrios parecem grassar como a erva no campo.

Quanto ao campo pedagógico, anima-o uma única lição: “Como deve comportar-se um rapaz?”, ministrada pela enigmática e elusiva Fräulein Lisa Benjamenta, que não resistirá a um amor não correspondido pelo narrador. Ainda assim, num gesto desesperado, ela tenta fazer de Jakob um confidente da hora final, como a buscar nele uma última esperança, no que também fracassa pela impossibilidade de amar que marca esse Dr. Fausto do início do século XX.

Diante desse ambiente temerário, o jovem Jakob não encontra outra defesa senão descrever diligentemente num diário tudo o que ocorre ao seu redor. Mas esse método defensivo não tardará a se mostrar insuficiente perante a aluvião de acontecimentos que se precipitam de toda a parte, formando um cerco que ameaça se fechar em seu entorno.

As contradições não resolvidas de Jakob começam pela sua origem nobre, classe que, historicamente, foi atendida por servos oriundos dos extratos plebeus da sociedade. Quando um nobre tenta inverter essa ordem social, oferecendo-se para regredir à condição servil, mecanismos de alerta começam a tocar denunciando a contradição.

A originalidade do enredo não deve privar o leitor de apreciar demoradamente a prosa de Robert Walser, que deixou em seu “Jakob von Gunten” páginas de uma sutileza surpreendente, o que lhe assegura um lugar destacado na complexa literatura alemã do período imediatamente prévio à Primeira Guerra Mundial.

As anotações de Jakob sobre os seus colegas de estudo são inestimáveis. Típicas “vidas minúsculas”, para aproveitar uma expressão do francês Pierre Michon, esses seres reunidos pelo autor no seu colégio para criados forma um desses conjuntos literários que ficam como referências de leituras e cuja ambientação pode ser em toda a parte e em lugar nenhum. Algumas raízes do adjetivo kafkiano com certeza provieram dessa base ficcional.

O breve estudo de J. M. Cotzee sobre Walser, enfeixado no livro “Mecanismos internos”, dá detalhes biográficos do autor que ajudam a entender o universo ficcional de “Jakob Von Gunten”, ao mesmo tempo em que analisa seu romance “Der Räuber” (“O ladrão”), aliás, inédito em português, e salienta o caráter universal da sua obra. É, em síntese, um bom “recomeço” para Walser neste começo de século.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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