O romance “Pipa Voada Sobre Brancas Dunas” e a necessidade da literatura

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Jorge Luís Borges

Li, recentemente o romance “Pipa Voada Sobre Brancas Dunas” (2ª ed. CJA Edições, 2015) do escritor e dramaturgo Júnior Dalberto, e fiquei refletindo sobre a maneira como a literatura se relaciona com a sociedade e com os direitos humanos e, sobretudo, querendo entender o distanciamento que os estudantes ainda têm dos autores e obras potiguares. O livro de Júnior Dalberto é um romance de valor, tanto estético como literário, no mesmo nível de outros bons romances escritos no Rio Grande do Norte. O autor criou uma obra, que deveria, assim como outras boas obras literárias nossas, estar, no mínimo, nas bibliotecas públicas do Estado.

Existe na Constituição Estadual um parágrafo que determina o ensino de literatura potiguar nas escolas públicas, mas infelizmente, tal dispositivo não é cumprido. Nós temos, no Rio Grande do Norte, uma lei (nº 9.105, de 09 de junho de 2008) denominada Lei Henrique Castriciano que dispõe sobre a criação da Política Estadual do Livro no Estado e dentre as suas finalidades, ela preceitua em alguns dos seus parágrafos: Estimular a produção dos autores naturais do Estado do Rio Grande do Norte e promover a circulação do livro; promover atividades com vistas ao desenvolvimento do hábito da leitura; oferecer condições necessárias para que o mercado editorial do Estado possa competir no cenário nacional e internacional;  preservar o patrimônio literário, bibliográfico e documental do Estado; implantar e ampliar bibliotecas públicas em todo o Estado;  oferecer condições para aumentar o número de livrarias e postos de vendas de livros; apoiar iniciativas de entidades associativas e culturais que tenham por objetivo a divulgação do livro. Estes são apenas alguns dos pontos, que, em sua grande maioria, não são cumpridos. Mas, sempre que falamos da importância e do direito à literatura, que todos devem ter, é inevitável lembrar o ensaio “O direito à literatura” do mestre Antonio Candido.

Sociólogo, literato e professor universitário, estudioso da literatura brasileira e estrangeira, Antônio Candido escreveu “O direito à literatura” em meados dos anos 80. Incrível que, passados trinta anos, ele continua atual. O estudioso defendeu que a literatura devia ser um direito básico do ser humano. Todos sabemos que os chamados direitos humanos, são aqueles ligados a educação, saúde, alimentação, moradia, liberdade individual, direito à crença, ao lazer. Se temos, pelo menos na teoria, o direito a essas coisas, consideradas básicas, por que não temos também o direito à literatura? De certa forma, a literatura, parece-nos negada, e há uma falta de preparo do poder público, das escolas, dos professores, para que as comunidades, sobretudo as mais carentes, tenham acesso a ela, ou seja, tenham direito à fruição da literatura. Na famosa canção dos Titãs, “Comida”, os músicos já reclamavam: “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. E arte aqui também quer dizer a arte da palavra.
Segundo Candido, a literatura se manifesta universalmente, ao longo dos anos e através dos homens, e tem uma função, um papel humanizador. O estudioso  chama de literatura, nesse seu texto, tudo aquilo que tem toque poético, ficcional ou dramático nos mais distintos níveis de uma sociedade, em todas as culturas, até as formas complexas de produção escritas das grandes civilizações. Candido descreve a necessidade que o ser humano tem de ficção, de fabulação, pois ninguém é capaz de ficar as vinte quatro horas do dia sem momentos de entrega ao “universo fabulado”.  Se assim é (vide, por exemplo, as grandes audiências das novelas e dos programas policiais) a literatura parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito.

Para Candido assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem sonho durante o sono, “talvez não haja equilíbrio social sem a literatura”.  A necessidade de fabulação é universal, quase como a necessidade de sonhar. O sonho equilibra a mente durante o sono. Harmonizando o espirito durante a vigília, a fabulação pode ser considerada um fator de humanização, pois nos confirma enquanto membros da humanidade.

Candido disse também, no referido texto, que a literatura é um instrumento poderoso de instrução e educação. Além do que, ela confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. O crítico ainda chama atenção para a questão do papel formador da personalidade, que a literatura tem. Não podemos vê-la como uma experiência inofensiva, mas como uma aventura que pode causar problemas psíquicos e morais, ou seja, a literatura tem papel formador de personalidade, sim, mas não segundo as convenções tradicionalistas; ela seria, na verdade, “a força indiscriminada e poderosa da própria realidade”. Então, não corrompe e nem edifica, mas humaniza ao trazer livremente em si o que denominamos de bem e de mal. E humaniza porque nos faz vivenciar diferentes realidades e situações. Ela atua em nós como uma espécie de conhecimento porque resulta de um aprendizado, como se fosse uma espécie de instrução. A humanização, de acordo com o estudioso, seria o processo que confirma no homem aqueles traços que consideramos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura, enfim, desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante.

Além disso – garante o estudioso – a necessidade de literatura deve ser satisfeita sob pena de se mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo, ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto nos humaniza.

Na obra “A literatura em perigo”, Tzvetan Todorov aponta para a necessidade de se resgatar parte do espírito do século XIX, que reconhecia na literatura uma verdade sobre o mundo. Para o autor, o texto literário tem muito a dizer sobre o ser humano, principalmente porque se permite incursionar para além do censurável, revelando assim o indivíduo, o particular.

Evidente que vivemos um problema que não é só do Estado: a falta de acesso a obras literárias, não apenas as locais, mas sobretudo as eruditas, por parte dos mais carentes, falta esta ocasionada inclusive pela má distribuição de recursos e pela visão de que o livro e a literatura, são coisas dispensáveis.

Encontramos em “Pipa Voada Sobre Brancas Dunas”, características que Antonio Candido considera como algumas das funções humanizadoras da literatura, por exemplo, a função estética, onde a obra literária é organizada através da escolha dos elementos da linguagem de modo a constituir uma estrutura repleta de significado;  a função subjetiva: a obra como tradutora de sentimento (grande parte do que apreendemos na fruição de uma obra literária nós o fazemos inconscientemente, pois ela atua em nós de um modo que não percebemos). A capacidade de nos identificar com o gênero humano através da empatia é a terceira função humanizadora da literatura, e por fim a função informativa, ou seja, a obra como transmissora de conhecimento, além daquele conteúdo explicitamente veiculado, (pode ser de natureza política ou religiosa) que constitui a função ideológica.

Continuaremos lutando para que obras potiguares, assim como essa de Júnior Dalberto, cheguem às escolas, e os alunos tenham acesso a elas. Um dia, poderemos sonhar todos, como disse o mestre Jorge Luís Borges: “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria”.

*Thiago Gonzaga é mestrando em literatura comparada na UFRN.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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