O romance “Por que não se casa, Doutor?” sob o olhar da nova geração

Por Kamila Costa de Lima*

O escritor José Bezerra Gomes (1911-1982) nasceu no município de Currais Novos, interior do Rio Grande do Norte. Passou sua infância no Seridó e juventude em Natal, formou-se em 1936 na Universidade Federal de Minas Gerais em Ciências Jurídicas e Sociais. Autor de três romances regionalistas: “Os brutos” (1938), “Por que não se casa, Doutor?” (1944) e “A porta e o vento” (1974).

“Por que não se casa, Doutor?” retrata a vida de Flávio de Oliveira, mais popularmente conhecido como o Doutor, formado em advocacia pela Universidade de Minas Gerais, um homem com mais de quarenta anos, ainda solteiro morando em uma pensão pobre. O Doutor saiu de interior localizado na região Norte e foi para a cidade grande em busca de estudo, situação imposta pelo pai que queria que o filho se tornasse um advogado. Com o falecimento do pai, Flávio se viu em uma crise existencial, tinha feito o curso a pedido dele e agora, com o pai morto, não tinha mais o interesse naquela profissão; assim, culpava a morte paterna pela vida solitária que levava.doutor

O Doutor passa então a viver em um mundo só dele, um mundo de sonhos e fantasias e momentos que se realizam somente na sua cabeça. O que pode ser constatado em seu amor por Magda, uma cantora argentina de um clube ao qual ele frequentava. Um amor platônico que ele alimentava todas as vezes que a via, imaginava de passeios a casamentos, totalmente perdido em seus sonhos, acreditando que a cantora sentia o mesmo por ele. Porém, sofre grande desilusão ao saber que seu amigo Lucilo era quem gozava do amor dela, uma tristeza muito forte o Doutor sentiu, apesar de que todo aquele amor que ele cultivou pela cantora era apenas uma ilusão que nunca existiu na realidade.

Por ser inteligente, o Doutor sabia na teoria como fazer para melhorar sua vida, porém era incapaz de fazer uma ação prática para mudar a sua realidade. Ele passa desde os primeiros capítulos ao último bebendo, chorando o amor de mulheres que se foram, ressaltando a sua incapacidade no trabalho e vendo a sua vida ficar para trás enquanto os seus amigos de faculdade crescem e obtêm reconhecimento. Descrever esse dia a dia é o enredo do livro do começo ao fim, repetidas vezes.

A narração do livro é feita por ele mesmo tratando-se assim de um narrador-protagonista, ele conta a sua história e a história dos muitos personagens que existem ao seu redor, muitos até, em minha opinião, desnecessários ao desenrolar da ação narrativa, já que o narrador somente conta a trajetória de vida dele, passo a passo, inúmeras vezes, alguns personagens até dialogam com o Doutor, mas é de modo muito superficial. Tenho a impressão de que se tirassem todos os personagens “desnecessários”, não faria tanta diferença no andamento da história, já que o livro trata da covardia, do medo, e da insegurança do Doutor e isso seria totalmente perceptível sem precisar usar tantas comparações.

Todo o enredo nos mostra, na verdade, a resposta para a pergunta do título do livro “Por que não se casa, Doutor?”, ele não se casa porque é um fraco, tem medo de encarar os seus medos e já se acomodou a sua vidinha cotidiana, ou seja, tem receio de sair de sua zona de conforto e mudar o que já foi “estabelecido” pela vida.

Outro ponto negativo do livro é a quebra na sequência narrativa, pois esta se torna muito aberta, como se fosse uma narração televisiva, com cortes muitos bruscos, exigindo do leitor total atenção à obra, e esse recurso é utilizado justamente quando se está narrando a vida dos personagens “desnecessários”, ou seja, a leitura fica até certo ponto saturada, já que a maior parte do livro é dedicada a mostrar a vida dos outros e não do personagem principal. São cortes que, de repente, remetem à infância de um primo distante que fez tal coisa que não tem nada a ver com o que o personagem vive atualmente ou que teve alguma consequência na infância. O que pode tornar o livro um pouco mais interessante é a dúvida que existe se o personagem Doutor é o próprio José Bezerra Gomes, se o seu personagem conta um pouco de como foi a sua vida em Minas Gerais, como um diário, oscilando entre a realidade e a ficção, sem nunca sabermos qual é qual, contudo isso descaracteriza um pouco o livro já que o que é mais interessante é saber da vida do autor inserida na obra e não da obra em si.

Portanto, compreendo a obra desta forma: pelo viés do excesso de detalhes que há nela, aspecto que não afiro como interessante. Acredito que minha avaliação pode ter sido influenciada pelo fato de pertencer a uma “geração tecnológica” em que tudo tem de ser resolvido rapidamente, gerando a expectativa de ações contínuas que sejam capazes de me prender à história, sem muitos detalhes. Tudo deve ser ágil e envolvente na narrativa, até certo ponto mantendo uma linearidade. Narrativas descontínuas e fragmentadas podem se tornar um problema aos olhos dos jovens de hoje, que possivelmente não conseguem parar para ler obras tão detalhistas.

 

*Aluna graduanda do Curso de Tecnologia em Produção Cultural do IFRN – Campus Natal Cidade Alta.

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