Romances entrelaçados com a poesia

Pela primeira vez em Natal, no Festival Literário da Pipa, escritora Ana Miranda revela seu estilo peculiar de escrever romances históricos e lança Yuxin

Foto: adriana vichi

NA TRIBUNA DO NORTE

Para conhecer um pouco sobre a escritora Ana Miranda, que vai participar este ano do 4º Festival Literário de Pipa, recomendo a leitura do site www.anamirandaliteratura.com.br do qual retirei este trecho: “Voltada para a linguagem, dotada de um brasilianismo intenso, Ana Miranda realiza um trabalho de redescoberta e valorização do nosso tesouro literário, que a leva a dialogar com obras e autores de nossa literatura, numa época em que as culturas delicadas são ameaçadas pela força de uma cultura universal.

Fundada em séria e vasta pesquisa, recria épocas e situações que se referem à história literária brasileira, mas, primordialmente, dá vida a linguagens perdidas no tempo. Sua obra tem sido matéria de estudos na área acadêmica, recebendo teses e monografias, geralmente ligadas a questões de literatura & história, barroco brasileiro, romantismo, pós-modernidade”. Cinquenta anos depois de viver longe de sua terra, está de volta ao Ceará: “Morei no Rio a maior parte de minha vida, e poucos anos em São Paulo. Há muitos nordestinos em São Paulo, eles fazem parte da cidade, alguns são pensadores, alguns são artistas, escritores… Mas é difícil, para quem não é nordestino, entender o Nordeste, assim como é difícil para o nordestino que não vive por lá entender São Paulo”. Nesta entrevista, ela comenta sua obra:

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Você estourou no cenário da literatura brasileira com Boca do Inferno, um livro repleto de poesia. Mas começou com Anjos e Demônios, um livro de poesia. Qual é mesmo a sua praia, o romance histórico ou a poesia?

Ana Miranda: Sou romancista, considero a minha obra os romances que escrevi, e os demais, uma obra paralela. Mas a minha primeira experiência, quando criança, foi a poesia, e a poesia está viva dentro dos meus romances, seja pela presença de personagens poetas, seja pela própria estrutura da linguagem.

Boca do Inferno vendeu mais de 40 mil exemplares na época do lançamento e continua vendendo bem, a qual motivo você credita tanto sucesso?

A aceitação de um livro é sempre um mistério. Normalmente é resultado de uma combinação de elementos e fatores. Escrevi o Boca do Inferno durante cerca de dez anos, e ele deve ter a força desse sacrifício, assim como a liberdade de alguém que não escrevia para a publicação, mas apenas por um ímpeto apaixonado. A presença de Gregório de Matos e padre Vieira é um elemento fascinante, e a obra desses dois monumentos de nossa literatura elevou a linguagem e a qualidade do romance. Isso deve ter ajudado. Também o fato de cumprir um comportamento clássico na construção do romance, tão conhecido como aceito pelos leitores. Também o fato de se passar na Bahia, estado tão brava, alegre e dignamente cantado por seus filhos, sejam músicos ou escritores ou artistas plásticos. A Bahia tem um encanto e um mistério que representam muito do Brasil, talvez porque tenha sido local onde o Brasil começou a se formar.

Você foi criticada na época. Parece que alguns críticos não entenderam muito bem o que você estava fazendo. A crítica lhe incomoda?

Recordo-me apenas de uma crítica enviada aos jornais por um professor universitário, reclamando do uso da obra do padre Vieira sem uso de aspas ou asteriscos, citação de fontes, notas de rodapé, etc., ele na verdade pretendia que meu livro, e apenas o meu, se comportasse como uma monografia acadêmica. Desprezou, aí, toda a história da literatura, que nasce da literatura, e que todo autor é devedor dos seus antecessores. Que as fontes de um romancista são infinitas, compondo-se de introjeção dos sentidos. Sofri muito com a publicação dessa crítica equivocada, estou segura do que escrevo, prefiro que não falem nada ou que, ao falarem, se informem bem dos aspectos que meus livros carregam. Uma crítica bem informada costuma ter interesses nobres. Mas me consola saber que a incompreensão tem sido uma virtude, na história da literatura. Normalmente assinala algo novo.

Seu segundo livro é O Retrato do Rei, agora você leva o leitor para Minas Gerais do século 18. Mas não repetiu o sucesso do livro anterior. O que houve?

Não sei. Talvez o livro não seja tão bom quanto o primeiro. Escrevi-o em apenas três anos, pressionada pelo desafio de saber da existência de leitores, e durante muitos anos fiz edições revistas, melhoradas. Mesmo assim, teve uma aceitação elevada. É o romance predileto de meu filho, isso conta mais do que tudo, para mim.

Já Sem Pecado é literatura infanto-juvenil. Como foi esse desafio de escrever para jovens?

O livro tem um tom juvenil, apenas porque conta a história de uma adolescente, que foge da casa dos pais. O desafio foi bem menos expressivo do que escrever romances de cunho histórico, pois prescindia da pesquisa e do transporte a outro tempo, não tinha também a responsabilidade da recriação de algum personagem real, o que sempre foi para mim um processo repleto de dilemas éticos e literários. Não considero Sem Pecado parte da minha obra principal, nem mesmo permito que seja reeditado, e me divirto com a lembrança do comentário da Rachel de Queiroz, dizendo que era o meu melhor livro. Não sei se ela estava elogiando este, ou arrasando com os outros.

Aí você voltou ao universo da poesia, agora de Augusto dos Anjos, com seu livro A Última Quimera. Como foi isso para você e a recepção do público?

Adorei escrever sobre Augusto, ele é fenomenal, e a sua biografia é muito representativa do sofrimento e da incompreensão humana. O livro representou para mim um crescimento, pois tem uma estrutura mais solta, é narrado na primeira pessoa, mas em termos de número de leitores, vem me trazendo numa linha em declínio: uma escritora que, quanto mais se aproxima de uma literatura pura, voltada para a linguagem, menos é lida. Não importa. Meus romances refletem meu movimento interior e registram quem eu sou. Não consigo ser diferente. Não consigo perseguir o formato de algo que teve aceitação. Não é isso o que orienta o meu trabalho. Procuro ficar sempre indiferente às imposições do mercado de livros, e atenta a minhas necessidades interiores.

Em seguida você mergulhou no denso universo de Clarice Lispector, com a novela Clarice. Você quis facilitar a vida dos leitores dela ou gerar mais perguntas?

Quis apenas registrar a relação entre duas escritoras, que se processou por meio da leitura do que Clarice escreveu. Foi o meu único trabalho de encomenda, era uma coleção de escritores escrevendo sobre escritores que viveram no Rio. O problema é que Clarice nunca viveu no Rio e nem em cidade nenhuma, ela era de outras esferas da existência. Um resenhista disse que parece a biografia de uma alma. O Fernando Sabino disse que o livro não tinha nada a ver com a Clarice, que ele conheceu: “Você é boba, Ana, troca o nome de Clarice por Maria e o livro é teu”. Amei conviver com a Clarice. Ela foi corajosa, ousada, e jamais deixou de ser ela mesma, nem mesmo quando foi pressionada para isso. Ajudou-me muito a me libertar, no romance que escrevi em seguida, o Desmundo.

Seu romance seguinte Desmundo, foi novamente um grande sucesso que foi parar no cinema. Como foi essa experiência para você?

Na verdade o Desmundo foi o meu livro menos lido entre todos, é um livro estranho, recriando uma linguagem arcaica, até que foi feito o filme, um filme lindo, que deu um impulso na ampliação de leitores. No começo eram pouquíssimos leitores, mas alguns apaixonados pelo livro. Considero um marco no meu processo de aprendizagem da escrita de ficção. Desliguei-me de toda a estruturação clássica, de todas as imposições técnicas de construção do romance histórico, deixei a poesia invadir a linguagem, e a linguagem tornou-se quase a figura central do romance. Até meus desenhos passaram a fazer parte dos romances.

Voltou ao romance histórico com Amrik, contando uma história de amor na São Paulo do século 19. Ao mesmo tempo, começou a escrever crônicas para a revista Caros Amigos. Como foi conciliar as atividades?

Existe a crença, entre escritores, de que o jornalismo “torna a pena rombuda”, acho que uma expressão do Hemingway. E sempre me recusei a escrever em jornais e revistas. Quando um amigo me convidou para escrever na Caros Amigos aceitei, achando que a revista não passaria de dois ou três números, o que é muito comum. Fiquei uns vinte anos escrevendo na revista, e foi um “equívoco” afortunado, pois acabei aprendendo a trabalhar com um novo modo de prosa, a crônica, e com ela me comunico com meu próprio cotidiano, com minhas memórias e comigo mesma.

Com o romance Dias & Dias você parece ter voltado ao projeto inicial de romance histórico entrelaçado com poesia. Desta vez sobre o poeta Gonçalves Dias. Pode explicar isso para nós?

Ana Miranda: Em Amrik eu cheguei às raias do meu texto experimental, e como se tratava de uma linguagem inspirada em literaturas árabes, recriada por uma dançarina, o meu romance atinge um extremo de volutas, sinuosidades, sonoridades, devaneios. Estranhamente, passou a ser o meu segundo livro mais vendido, atrás somente do Boca do Inferno, já que você estabeleceu esse parâmetro de aceitação. Acho que porque tem “muito sexo” como disse uma senhora leitora. Eu estava em busca de uma simplificação na linguagem, para não afundar de vez no exotismo linguístico. Era uma necessidade interior. E a ideia, muito antiga, de trabalhar com a obra de Gonçalves Dias se encaixou perfeitamente nessa minha necessidade. Dias & Dias é um livro de linguagem singela, romântica, idílica, como a própria obra de Dias e o romantismo brasileiro. “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”, nada mais puro e encantador, nada mais singelo e ao mesmo tempo repleto de significados poéticos. E trabalha com o tema do exílio, que estava florescendo em mim, pois à medida que eu me aprofundava no meu quebra-cabeças eu me sentia mais incomodada com a região obscura de minhas origens. Pela primeira vez a minha literatura pisa no Ceará, onde nasci e que não conhecia, pois saí de Fortaleza aos cinco anos de idade. É o meu livro mais bem-comportado e, talvez por isso mesmo, o mais premiado. Junto com o Boca do Inferno, é o mais adotado em escolas, para a compreensão do barroco, no caso do Boca, e do romantismo, no caso de Dias & Dias. Eu tive esta sorte, de haver um interesse extraliterário em alguns de meus livros.

Seu último romance, Yuxin, Alma é dedicado à floresta e traz um CD de Marlui Miranda. Seria um primeiro passo para a convivência do livro com novas mídias?

Foi um passo de aproximação com a minha irmã, Marlui Miranda, que trabalha magnificamente com a música indígena e sempre trouxe para dentro de minha vida a presença dos índios. Era também uma ideia antiga escrever um livro narrado por uma indígena, e quando passei um tempo morando na propriedade da Marlui, dentro de uma mata, ouvindo suas interpretações e composições, assistindo a seus filmes, vendo-a partir e voltar de viagens a tribos distantes, vendo raios de sol atravessando a floresta, e passarinhos, lagartos, veados, o romance tomou força dentro de mim. Tem relação com a minha especulação sobre minhas origens, porque o Ceará é um estado de alma indígena, assim como o Rio Grande do Norte, e o Acre, onde se passa o romance, era quase uma região cearense, com a presença dos soldados da borracha, na maioria sertanejos fugidos das adversidades do Ceará. E quem me deu a chave deste livro foi um grande cearense, o Capistrano de Abreu, com seu vocabulário kaxinauá.

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