Ronda na biblioteca, com lanterna

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Venho registrar alguns livros que me chegaram às mãos nas últimas semanas. Para não me perder na absoluta dispersão, trato de descobrir algum fio secreto que os ligue. Tenho uma amiga que garante que, no silêncio da noite, acamados nas prateleiras das bibliotecas, os livros se põem a conversar. Já subi a minha biblioteca em plena madrugada, com uma lanterna nas mãos, disposto a flagrar esses encontros. Nada descobri. Mas é claro: livros _ que se definem, antes de tudo, pelo poder da introspecção _ conversam em silêncio. Só eles mesmos se escutam.

O primeiro livro de que quero falar é “Visconde de Pirajá, 487”, de Celina Whately – FOTO (Nova Fronteira), um inspirado estudo sobre as domingueiras que ocorriam, em meados do seculo 20, na casa do escritor Anibal Machado. Ponto de encontro de escritores e intelectuais, que para lá se dirigiam sempre aos domingos, a casa ficava no número 487 da rua Visconde de Pirajá, em Ipanema. Nela Machado morou desde 1937, até sua morte, em 1964. Ficava em frente à sorveteria Morais e ao bar Zepelin, no centro nervoso de Ipanema.

Lembra Celina que nas décadas de 1940 e 1950, Ipanema era um bairro pacato, dominado por casarões. Cenário adequado, portanto, às lentas e amistosas conversas entre vizinhos e amigos. Candido Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Oscar Niemeyer e Tônia Carreiro foram alguns dos frequentadores mais fiéis das domingueiras de Machado. Eram encontros vivos, de gente cheia de entusiasmo, que apostava muito na literatura. Poderiam repetir uma idéia do próprio Anibal Machado em seu “Cadernos de João”: “O espírito só tem uma idade: ou é sempre jovem, ou não é espírito. Tudo o mais é arquivo e reminiscência”. Machado foi não só um importante escritor _ hoje infelizmente esquecido _ mas um grande anfitrião. Um dos últimos do século 20 carioca. Um homem que apostava no diálogo e na amizade como formas de arte. O livro de Celina Whately reforça os aspectos humanos da literatura, coisa de gente de carne, osso e sangue. Relata uma história de amor e afeto entre homens e mulheres, ligados por um amor maior: pelos livros.

O segundo livro é “50 livrarias de Buenos Aires”, de Adriana Marcolini, com fotografias de Alejandro Lipszyc (Ateliê Editorial). Para quem for a Buenos Aires, e gostar de livros, torna-se, desde já, um guia essencial. O título de Capital Mundial do Livro, conferido a Buenos Aires pela UNESCO no ano passado, justifica por si a existência desse guia. Fartamente ilustrado por fotografias e mapas, ele traz as livrarias classificadas por bairros. Grandes escritores e artistas argentinos aparecem nos verbetes como coadjuvantes. As conferências de Jorge Luis Borges, já quase cego, na livraria La Ciudad, na calle Maipu 971. As partituras de Astor Piazzolla encontradas na livraria Melos, na calle Perón, 1560. Fala ainda de livrarias preciosas como a Crack-up, na calle Costa Rica, 4767, em Palermo, que só fecha nos dias 1º de maio, 1º de janeiro e 25 de dezembro. Ou a livraria El Tunel, na Avenida de Mayo 767, que homenageia o primeiro romance de Ernesto Sábato. Homenagens, carinho, devocação sempre aos livros também.

O terceiro livro de que venho falar é “A polêmica vida do amor”, coletânea de contos assinados por jovens escritores, organizada por Daniel Russell Ribas e Flávoia Iriarte para a editora Oito e Meio. Relatos _ como já indica o título _ de paixão, de traição, de erotismo, de danação. O breve prefácio, de Luiz Biajoni, lembra uma inspiradora história relatada pelo escritor mexicano Octavio Paz. Dizia ele que não é por acaso que a palavra Amor seja o contrário de Roma. “O Amor teria sido inventado pelo trovadores medievais para contrariar o que dizia a Santa Sé, a sede da Igreja Católica, em Roma, a respeito das relações afetivas”. Os contos trabalham, de modo delicado, com perturbadores elementos que envolvem as relações amorosas, como o medo de perder, a força das ilusões, a fragilidade, a dissolução do Eu e a paixão cega. Traçam, ainda, um retrato animador de uma literatura feita quase em segredo, mas que já anuncia seu futuro. Em “A polêmica vida do amor”, o livro se torna um abrigo para as relações amorosas, que são instáveis e indomáveis, mas fixam a marca do humano. E que guardam aspectos tão secretos e comoventes quanto os diálogos noturnos travados entre os livros de minha biblioteca.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo