Rosalba, Isaura e a cultura

Aos poucos, de entrevista em entrevista, se conhece um pouco mais sobre as idéias e propostas da professora Isaura Rosado para a Fundação José Augusto e Secretaria de Cultura. Fundo de Cultura, editais, retorno da revista Preá, publicação de uma agenda de eventos culturais, um mês – agosto – dedicado ao folclore, manutenção da Lei Câmara Cascudo, extinção da Fundação José Augusto, interiorização das escolas de arte e feiras de cultura são algumas das ações já anunciadas. Parte delas consta do programa da candidata Rosalba (aqui). Não está lá a Secretaria de Cultura, que considero um avanço e ao que tudo indica teve sua criação apressada para burlar a Lei do Nepotismo (acomodar dois familiares no governo – o outro é o deputado Betinho Rosado).

Lendo as propostas lançadas durante a campanha por Rosalba e as divulgadas agora por Isaura, fica a sensação de que não há propriamente um programa, uma política cultural definida, mas um elenco de ações e intenções desarticuladas. Como fazer a ligação dessas ações entre si e entre outras secretarias (Educação e Turismo, por exemplo), de forma a provocar uma sinergia, ainda não foi esclarecido.

Um outro ponto fundamental, mas que nunca foi tratado é mudar a mentalidade e capacitar os servidores da Fundação José Augusto. Como é do conhecimento de todos, grande parte desses funcionários entrou na instituição sem concurso, através de apadrinhamento político. Lembro de uma época em que todos os dias dois ônibus de Macaíba estacionavam em frente à FJA para pegar funcionários daquele município.

O desafio é grande. E esses primeiros meses serão de arrumação da casa.

Os últimos quatro anos foram de ineficiência, mediocridade e completo descaso com a cultura. Mas, a culpa não cabe, exclusivamente, aos dirigentes da FJA, como alguns e a própria Isaura divulgam. Totalmente dependente de repasses de recursos do governo, a FJA foi condenada a viver de “pires na mão”, dependendo do humor do governador de plantão. Numa situação dessas é impossível se imaginar um trabalho de envergadura duradouro.

No caso de Isaura é compreensível que ela poupe o governo Wilma/Iberê pelo desastre também no setor cultural. Amiga da ex-governadora, participou do governo em cargos diversos, inclusive, na própria FJA pós Foliaduto. Difícil equilíbrio, uma vez que é cunhada da governadora.

Rosalba Ciarlini sempre recorre às ações culturais que implementou quando foi prefeita de Mossoró, notadamente, aos mega eventos realizados desde a sua época. Essa ‘eventomania’, que rende muito espaço na mídia é preocupante e tem rendido discussões sobre sua validade cultural. Por isso mesmo causa apreensão essa super valorização do folclore que está colocada com prioridade cultural. Não são poucos os governantes que se utilizam dessa linha populista “que manipula uma abstração genericamente denominada cultura popular, entendida como produção cultural do povo e identificada com o pequeno artesanato e o folclore, isto é, com a versão popular das belas-artes e da indústria cultural” (M. Chauí).

Em que pesem sua origem oligárquica e conservadora, inclusive com filiação ao principal partido da direita no país, o DEM, a vitória de Ciarlini foi melhor para a cultura do que a de Iberê, que deixou claro o seu descaso e sua ignorância com o setor durante a campanha eleitoral. Chegou ao ponto de faltar a um simples debate sobre cultura na Casa da Ribeira mostrando ali, claramente, que não estava apto para governar coisa alguma. A perda de mais de R$ 10 milhões de recursos, via editais, para o setor, em alguns casos por falta de módicas contrapartidas é escandalosa e chocante (nas outras áreas os descalabros não foram menores).

Com Iberê teríamos mais do mesmo, ou seja, quase nada, e com Rosalba, mesmo com possíveis equívocos políticos, conceituais e gerenciais, existe a possibilidade de se sair do fundo do poço em que a cultura mergulhou no Rio Grande do Norte.

Para finalizar gostaria de comentar uma das propostas de Isaura, a edição de uma agenda cultural pela Secretaria. Crispiniano teve a mesma idéia logo que assumiu, fez um negócio mal feito, horroroso, que durou pouco tempo – ainda bem.

Em Recife, existe, em nível municipal, uma agenda muito bem feita. Não acho que Natal precise desta publicação. Já temos uma, do mesmo nível da de Recife, a Solto na Cidade, impressa e online, que cumpre bem até demais a função de manter a cidade informada sobre os eventos. Caberia, no máximo, uma parceria com o Solto na Cidade e não tentar rivalizar e enfraquecer com uma iniciativa vitoriosa. (TC)

Comentários

Há 9 comentários para esta postagem
  1. Civone Medeiros 21 de janeiro de 2011 15:18

    } O que vem lá para a Cultura Potiguar?

    Vamos atentar a todo o processo… Acompanhar & Compartilhar… Pois, nossa omissão abre valas imensas para descasos… A FUNCARTE está perdida… Empurram lá uma agenda com os egos – desmandos e descasos e populices… A FJA falida tem uma estrutura obesa… Despreparada e ‘irrefletida’… A mentalidade dos que antes estavam lá + a crise de poder/descrédito e desmandos após o ‘vazamento’ do FOLIADUTO… Degringolaram da ‘necessária burocracia’ para uma praticada e (in)Operante BURROcracia aliada a um BUR(r)OCRATISMO extremado / Onde engrenagens soltas-desconexas e desinformadas umas-das-outras… emperram qualquer máquina … Isaura é eficiente (se tiver autonomia!) e tem competência… Quem não tem competência (e compromisso/interesse real) mesmo é o ‘poder público’ como um todo – todas as esferas e “graus/setores” de poder/representação social – para perceber a dimensão macro transFORMADORA (a quem interessa mentes autônomas e estimuladas ao dicernimento!?) da Cultura na Vida de um Povo… A cultura, a História e o acesso ao conhecimento agrega o pertencimento das regras em duas vias – direitos/deveres… E liberdade/respeito… Agrega a vivência cultural a saúde (o que comemos/ quando e quanto comemos – segurança (emocional/física/psicológia) – educação (acesso aos saberes da humanidade… estímulos a reflexão do passado – o que fazemos de nós e nosso entorno agora e o que termos e quereos para o amanhã… E, da-lhe… A omissão dos setores/poderes públicos ecoa – ressoa e respinga em nós e sob nossos pés e estão também em nossas mãos… Nós, fazedores de opinião… PROSUMIDORES / Produtores e Consumidores de Cultura e Arte… Para exigirmos o correto, o urgente, transparente, necessário em vez de acessório… Inclusivo e abrangente… Sair dos muros e sombras… Tirar máscaras de grupelhos e personas que se servem de expedientes de mobilização para na banca do poder usar contingentes e zuadas como massa-de-manobra e moeda de troca para ‘melhores comportamentos/acomodamentos… Em busca não de “políticas (de fato) públicas” abrangentes, reais e irrestritas… mas d’um ‘carguinho aqui – uns calaRe$ de boca acolá… Uma DISPENSA alí e uma INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO acolá… Et caterva e tals…É tempo de tomar posse de nossos territórios… Terra e chão! Nossa voz e face… Sotaque e tons… Nosso ar – fogo e água… Nossa memória e nossos sonhos – devir(es)… Dignamente… Nossa identidade… Eternamente OUROBOROS em construção… Exercer nossa humanidade sem fugas…

    E exigir realisticamente o básico de nossos representantes: O IMPOSSÍVEL!

    Ah… E…
    Tudo isso: PARA ONTEM!

    ~~~

    TC, parabéns EVER pelo SPlural… A persistência… Essência… Consistência e pelo Texto! D+!!!

    ~~~

    ^cm
    } nArede.com/Civone | http://www.viradanumtraque.blogspot.com + http://www.naredecomcivone.blogspot.com + http://www.escriturasangradas.blogspot.com

  2. Lenilda Sousa 18 de janeiro de 2011 19:02

    Politica cultural são basicamente duas coisas: planejamento e vontade politica fora disso não há execelência.

  3. Lenilda Sousa 18 de janeiro de 2011 18:58

    Exelente texto muito coerente.Só nos resta torcer para que as coisas melhorem.

  4. Yuno Silva 18 de janeiro de 2011 18:36

    Saibam que a esperança é a última que morre, mas a primeira que entra em coma!

    abraços

  5. Fábio DeSilva 18 de janeiro de 2011 18:02

    Parabéns, excelente texto Tácito.

  6. Titina 18 de janeiro de 2011 13:59

    Também fiquei grata com seu texto, preciso e com memória.
    As transformações devem ser bem profundas, transformações de conceitos. Nem sei se tenho ou não esperança com o quadro que se apresenta aí.

  7. César Ferrario 18 de janeiro de 2011 11:40

    Grande Tácito!
    Fiquei gratificado com seu texto. Por vezes achamos que não temos pares na indignação com o problema histórico governo/cultura. Muito sóbria sua análise. Harmonizo com o pensamento contido no texto.

  8. Ramilla Souza 18 de janeiro de 2011 11:20

    Os ônibus vindos de Macaíba eram da época do Valério Mesquita, né?
    Ótimo artigo, mas pouquíssima esperança da minha parte. Não li uma linha acima sobre uma (óbvia) política de editais.
    Triste.

  9. TEROTONIO ROQUE - PONTO DE CULTURA 18 de janeiro de 2011 11:20

    PARABENS PELA CLAREZA E PELA FIRMEZA DE PENSAMENTOS.
    CONCORDO COM VOCÊ.
    ABRACO
    TEOTONIO ROQUE

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