Rosselini e Fellini

Caro Tácito, a pedido de amigos estou enviando artigo / crônica publicada ontem no JH.

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Fellini é um dos maiores artistas do século XX. Algumas de suas imagens fazem parte da antologia visual da historia da arte. Para Fellini, os grandes artistas são visionários. Visionário – foi ele – o maior de todos.

Seus filmes são muito autobiográficos e uma bela homenagem às mulheres. Um grande harém de mulheres freqüentam os seus sets e imaginação. Um hino de amor a todas elas: santas e prostitutas e/ou as duas coisas juntas. A bela Gradisca de Amacord (uma obra prima). Saraghina, a prostituta de 8 e ½. Julieta dos espíritos, filme dedicado à sua esposa. Mulher que transita entre a religiosidade e a ninfomania. A grande Giulietta Masina, das noites de Cabiria, deslumbrada com o mundo das artes. Fellini ama a arte em toda a sua plenitude. A música de Nino Rota é parte de seus filmes. O religioso e o profano juntos. A mulher da vida também pode está num altar religioso. Um santo pode aparecer de repente numa orgia felliniana.Fellini foi um visionário da bestialidade da televisão, em Ginger e Fred. Espetáculos que tudo transformam. Ginger e Fred imitam os grandes dançarinos Ginger Rogers e Fred Astaire.
Grandes personagens masculinos são espelhos do Fellini na grande sala de sonhos que é a Cinecittá. Guido de 8 e ½ (seu alter ego) tenta retirar dos escombros suas memórias sentimentais ( Entrevista). Moraldo de “Os boas vidas”: um grande fabulador e criador de personagens. Marcello Rubini de A Doce Vida, uma de suas obras primas narra o dia- a- dia de um jornalista mundano. Uma alegoria repleta de provocações à igreja e ao hedonismo dos tempos modernos. O problema da incomunicabilidade humana permeia seus filmes. Em a Doce Vida duas cenas antológicas. A primeira, logo na abertura, o jornalista transporta a estátua de Jesus num helicóptero até o vaticano, encontra uma mulher tomando sol numa cobertura e pede seu telefone. Outra cena maravilhosa é aquela em que o protagonista do filme cai na Fontana de Trevi acompanhado da estonteante Anita Ekberg (Silvia).
Satyricon é um grande filme baseado no primeiro romance ocidental, escrito por Petrônio. Um filme é uma antologia de citações pictóricas: A sauna lembra Botticelli. A Torre de Babel de Bruegel lembra novamente a dificuldade na comunicação. O poeta perde a potencia e só recupera porque Eriteia guarda o fogo sagrado entre as pernas e o recebe em seus braços. Um grande filme pouco valorizado pela critica. Babel que fala do sexo em toda a sua plenitude na Roma antiga.
Difícil escolher o melhor filme desse mágico do cinema. Seus filmes fazem sonhar. Uma grande reflexão do humano e suas pulsões. Uma epifania que só os grandes artistas conseguem atingir. Fellini sonha cortando as cabeças dos seus críticos, em oito e meio. Seus filmes fazem parte das maiores obras de artes que a humanidade conseguiu produzir. São de todos os tempos porque eternos.

Rosselini e Fellini

A vida é arte do encontro embora haja tantos desencontros pela vida, disse o poetinha maior Vinicius de Moraes. Na vida de algumas pessoas esse encontro pode ser decisivo. Na vida de Fellini o seu encontro com Rosselini foi determinante. Fellini começou sua carreira como assistente de Rosselini no filme “Roma Cidade Aberta”. Nesse filme ele participa como co-roteirista e ajudante de direção. Com o diretor de “Alemanha Ano Zero” – um dos criadores do neo-realismo, ele participa de diversos projetos e filmes, O papel da prostituta do filme “ As Noites de Cabíria” era destinado à atriz Anna Magnani, mas o papel eternizou a atriz Giulietta Masina que ganharia o premio de melhor atriz no festival de Cannes,em 1957. Magnani, ao recusar o papel teria dito a Fellini: “você me acha parecida com alguém presa num banheiro com um canalha?” Com direção Fellini ela participaria do clássico “Roma”. Tem um grande papel em “Roma, Cidade Aberta”, de Rosselini e “Mamma Roma”, de Pier Paolo Pasolini. Melhor para Masina (esposa de Fellini) que pode desempenhar um dos seus grandes papeis no cinema. Uma mulher corajosa, suburbana e terna. Papel que oscila num chiaroscuro da existência. Fellini tinha duas versões para “As Noites de Cabiria”. Na primeira um ator milionário leva uma prostituta para casa e a trancafia no banheiro. Na segunda versão, uma garota alienada fica grávida de um vagabundo que se passa por São José. De quem teria um filho santo. Essa segunda versão foi utilizada por Rosselini no filme L´Amore (A Voz humana), estrelado por Anna Magnani – grande amor e esposa de Rosselini. Fellini participa do filme como coadjuvante. A atriz Giulietta Masina “O Carlitos de Saia” é uma das maiores atrizes do cinema. Ela transita com desenvoltura entre o dramático e cômico. O olhar de Cabiria no final do filme é uma das maiores criações de Fellini, na opinião do grande crítico e estudioso do cinema André Bazin, dos Cahiers de Cinema. Seu olhar transmite esperança na humanidade, apesar de todo o sofrimento.
Fellini teve a felicidade de trabalhar com grandes roteiristas do cinema: Ennio Flaiano e Túlio Pinelli. Para decifrar e traduzir os dialetos romanos das prostitutas ele teve a ajuda de um grande estudioso de dialetos, poeta e um dos maiores cineastas do cinema: Píer Paolo Pasolini. Juntos, eles escreveram os diálogos da peregrinação ao santuário do Divino Amor. Giulietta, obrigado pelo olhar que é um hino de amor ao cinema e ao humano. Fellini querido, mais uma vez obrigado pela genialidade. Eu sei que as metáforas não comunicam aos loucos. Àqueles que como eu você ouvem a voz da lua.

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