A rota do barco e do dia

Um barco, um sonho que o transportaria ao horizonte, ao infinito sem sombras. Em cada onda uma energia perene. Enquanto o tempo se espalhava pelas veias, as ideias tomavam corpo e forma e vida. A mente fervia. Suspiros já não funcionavam. O momento era do alto mergulho e do voo. Um ser bifronte, cheio de potências – anjo e monstro – para alcançar as dimensões longínquas e romper a inércia ameaçadora das covardias. Havia, sim, um ponto de reinício mais adiante. Bastava agora engendrar a nova aventura. E partir. Velejar sem medo. Voar na superfície prateada do oceano. Como um pássaro em busca do seu peixe. E morder a água. E mastigar o tempo.

Percebia a essencialidade de pousar os braços sobre o timão e de deitar os olhos no infinito, navegando sonhos nunca abandonados, que agora deslizavam sobre a madeira náutica, os pés descalços sentindo o contato molhado. A humana ilha que pretendia encontrar não estava ainda nem perto, mas sabia qual trajetória haveria de seguir. Era manter-se no mar. E manter-se vivo. E manter-se livre. Plenamente. Todos os dias seriam de trabalho e de contemplação, até que chegasse ao ponto em que as soluções viessem no topo das ondas que àquela altura eram pequenas, mas viriam fortes, intensas em desafios e dramas. E em certezas de vitórias mais consistentes e definitivas.

Não havia o que adiar. Era o tempo de se jogar na viagem e no desafio. Fixar marcos nas profundezas e nas superfícies oceânicas e remar. Realizar os planos, a cada estágio. Firmar vontades. Não se desviar. O mundo novo fala agora aos infernos, dita que não mais retornarão. Abrir as nuvens, secar o cinza e trazer cores. O lema. Deixar as asas crescerem e os braços fortes romperem os mares. É lá adiante o que se busca, o que se quer, o que se vai ter.

São as distâncias que se há de percorrer, arremessando o medo nas pedras, nas perdas deixá-lo minguar. Os degraus no oceano serão galgados até as montanhas altas que se erguem no centro do mapa das águas, onde estarão as almas corajosas.

Manter o dia aceso. Salvar o dia. Superar estranhamentos, incomunicabilidades, exclusões, perdas. São mais fortes os que sabem amar a solidão. O relógio do sol mostra que nada ainda acabou. Há tarefas a cumprir e sonhos a sonhar. No dia e na noite. Na luz e na escuridão, porque a alma é feita de muitas cores e do nem-sempre-e-do-que-continua, aos saltos, aos sobressaltos, silêncios e barulhos que recalcitram e reafirmam.

A vergonha é não lutar. Viver ou morrer somente de pé, ereto e atento. A morte…não há tempo para ela enquanto se trava a batalha. A que recomeça. Todos os dias sonhadores. Todos. O ideal encarna, encantado que nos guia, porque sangue correndo. Verdades firmadas nas veias abertas do continente inteiro. Nem todos o sabem. Todos o saberão.

Reconciliar ideais. Deixar o barco singrar. Às vezes, devagar. Às vezes, apressando o sopro dos ventos, levantando ondas, porque sem elas não há potência. O que move são as velas. O que move é o músculo. O que move é a voz. E a palavra é o que move. O que move é o sonho, a utopia. O que move é o povo e o ser atento. O que move é estar vivo e livre, como sempre é preciso estar. O que move é desvendar o enigma, que permanece.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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