Rua da Frente

A Francisco Ilo

 

Esta rua, calma e conhecida, foi amizade antiga

de casas, sobrados, ventos e becos,

praças com damas na tarde e homens nos bares.

Esta rua foi, sem dúvida, uma rua de verdade,

uma rua como nenhuma outra, desfeita pelo tempo.

Algumas coisas são livres, não podemos tê-las,

talvez por serem inumeráveis,

mas guardo todas em mim.

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À noite, com maior evidência, via-se a luz das estrelas,

a beleza que se opõe à distância e à essência das coisas.

Eram apenas estrelas, depois luzeiros.

É que as estrelas, antiguíssimas, às vezes

substituíam as amarelas e tímidas luzes da rua.

Do Bar Rochedo, não restou senão minha lembrança,

boêmia e solitária, e as vozes emudecidas.

A igreja, não, não foi demolida,

vê-se ainda a torre e o cruzeiro adormecidos.

A rua deitou por terra, acabou-se,

e seus escombros não cabem no poema.

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Não se pode mudar impunemente a história de uma rua,

mas se o tempo, a lembrança e as lágrimas silenciaram,

como condenar tamanha insensatez?

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Assim, incansável, vou refazendo o caminho,

correndo o pensamento pelo repouso das lembranças.

Tudo continua no mesmo lugar menos o vinho na taça:

algumas coisas mudam de lugar ao menor descuido.

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Mas a rua finalmente adormeceu.

A cidade, menor que uma canção, apagou suas luzes.

É hora de voltar para casa

ouvindo o silêncio imóvel das estrelas.

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