Ruy Guerra cria filme baseado em romance de Carlos Heitor Cony

Foto: Andrea Testoni/Divulgação 

Por Luiza Franco
FOLHA DE SÃO PAULO

São 23h e o turno de trabalho de Ruy Guerra, 83, está só começando. As filmagens de “Quase Memória”, adaptação do livro homônimo de 1995 do escritor, jornalista e colunista da Folha Carlos Heitor Cony, 88, vão varar a madrugada, o que muito agrada o cineasta, notívago.

Um dos maiores realizadores do cinema novo, diretor do primeiro nu frontal do cinema brasileiro (com Norma Bengell em “Os Cafajestes”, de 1962), ele gosta de chegar ao set antes do resto da equipe. Sozinho, acende seu charuto e pensa sobre as cenas que serão filmadas nas horas seguintes.

Parte de “Quase Memória”, cuja estreia está prevista para o primeiro semestre de 2016, foi filmada num casarão vazio numa cidadezinha no interior do Rio. O diretor conversou com a Folha antes de entrar no set, minutos depois de acordar, por volta das 17h, no gramado em frente à casa.

Guerra diz que o filme foi difícil de financiar, o que o obrigou a fazer mudanças profundas no roteiro. Custará R$ 3,7 milhões, com patrocínio de empresas. O diretor diz ter virado a obra de Carlos Heitor Cony do avesso.

“Era para ser um filme naturalista, mas, à medida que iam empobrecendo as condições de realização, o filme foi se fechando sobre si mesmo”, explica o cineasta. “Não me queixo. É mais próximo da minha visão de cinema.”

No livro, um romance autobiográfico, Cony, já maduro, recebe um pacote que ele tem certeza ser do seu pai, Ernesto, morto dez anos antes.

Sem abri-lo, encara o pacote o resto do dia e relembra episódios da vida com o pai, figura adorável e patética.

Já no filme, Cony vira dois: Carlos Velho, com mais de 70 anos (Tony Ramos), e Carlos Jovem, lá pelos 40 (Charles Fricks), que se encontram no que Guerra chama de “bolha do tempo”. É o ponto de partida para uma reflexão sobre o processo da memória.

“Carlos Velho tem uma fuga da memória. É aí que entra o jovem. Ele faz perguntas que o mais novo responde. Isso cria um conflito para o espectador”, diz Tony Ramos.

Segundo Bruno Laet, coautor do roteiro, “Ruy foi mijar e voltou com essa ideia dos dois Carlos”. Outra parte do filme são as lembranças da vida com o pai. As duas metades têm tons e estéticas tão diferentes que Guerra as descreve quase como dois filmes distintos.

A primeira é escura, e Tony e Charles fazem atuação naturalista. Na segunda, muito colorida, João Miguel e Mariana Ximenes, que vivem Ernesto e a mãe de Cony, adotam registro teatral.

“O Ernesto é um homem que já não existe mais, é um sonhador, quase um revolucionário”, diz João Miguel.

Na gravação da cena que a Folha acompanhou, os dois Carlos conversam num cômodo escuro, iluminado apenas pela luz que entra pela janela.

Ramos, barbudo e grisalho, está deitado numa rede. Ao seu lado, Fricks está sentado com um copo de uísque na mão.

De repente, Carlos Velho se levanta com dificuldade e corre para o banheiro, tentando evitar uma incontinência urinária, e deixa Carlos Jovem refletindo sobre o futuro que ele acaba de presenciar.

MASSACRE

Sentado num sofá, Guerra dá instruções. Numa entrevista ao programa de Jô Soares, em julho de 2012, o diretor declarou que massacra os atores. Mas naquela noite, ao menos, seu tom era calmo.

Ao grito de “corta”, ele se levanta do sofá e vai falar com os dois atores. Pelo microfone, escuta-se o diálogo. “Esse copo na sua mão está desconfortável? Seu dedo está rígido”, diz ele a Fricks.

“Tudo é pictórico na forma de ele dirigir”, conta Ramos. “Dirige tudo: minha cabeça, meus dedos. Vai te moldando ali na hora”, acrescenta Fricks, ator vencedor do prêmio Shell por sua atuação na peça “O Filho Eterno”.

Na noite anterior, Ramos e Fricks ficaram sentados na mesma posição por seis horas até que a equipe finalizasse os ajustes de luz daquela cena.

“Ele se cercou de uma equipe técnica jovem, pessoas que compraram a ideia dele. Ele bota o input e tem muito retorno”, diz Julio Adrião, que vive um colega de jornal de Ernesto. “Você vê que ele está querendo fazer um filme que ainda não fez”, completa.

OUTROS FILMES
Longas de Guerra baseados em livros

“Kuarup” (1989)
A partir de romance “Quarup” (1967), de Antonio Callado; com Taumaturgo Ferreira e Fernanda Torres

“Estorvo” (2000)
Baseado no romance homônimo de Chico Buarque de 1991; com Jorge Perugorría e Bianca Byington

“O Veneno da Madrugada” (2005)
Inspirado no romance “Má Hora: o Veneno da Madrugada” (1961), do Nobel colombiano Gabriel García Márquez; com Leonardo Medeiros e
Juliana Carneiro da Cunha

OUTRAS ADAPTAÇÕES
Livros de Cony que foram para o cinema

“Antes, o Verão” (1968)
O romance homônimo de 1964 serviu de base ao filme de Gerson Tavares, com Jardel Filho e Norma Bengell

“Um Homem e Sua Jaula” (1969)
Inspirado no romance “Matéria de Memória” (1962); direção de Fernando Cony Campos, com Hugo Carvana e Helena Ignez

“Intimidade” (1975)
O argumento foi escrito por Cony. Anos depois, em 1980, escreveu “Vera Verão” com base na mesma história; direção de Michael Sarne e Perry Salles, com Vera Fischer

Livro marcou volta de cony aos romances

Publicado em 1995 pela Companhia das Letras, “Quase Memória” quebrou um jejum de 22 anos de Cony sem publicar romances. Sucesso de crítica e público, o livro venceu o prêmio Jabuti e vendeu mais de 400 mil exemplares. Atualmente é editado pela Nova Fronteira (R$ 29,90; 244 págs.)

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