Sábado era dia de feira

Bem cedo, Angicos acordava para o escambo. Era sábado, e todo sábado tinha cheiro de criação, mas também de morte, pois no começo da rua, animais esquartejados e estripados expunham-nos uma intrínseca selvageria. Não a deles, já vencida e devastada, mas a nossa. Os deuses nos haviam acostumado assim.

Os deuses podiam até ser um mistério. Já os humanos se revelavam a cada banca da feira. Entre saber o preço da batata e comentar a desgraça alheia (ou a própria), a cidade decompunha suas intimidades. Magnitudes e mesquinharias eram construídas e desconstruídas de uma esquina a outra. A palavra provava o seu poder, e dele se lambuzava.

E pensar que só os tolos atribuem aos escritores um suposto talento com a manipulação das palavras… Escritor é um filho da penúria e da esperteza delas e recebeu destino de amá-las. As mesmas palavras que abundam nas falas da feira. No livro, ou na esquina do mercado, são sempre elas que comandam. É delas o controle de qualquer criação, inclusive a dos bordões de feira.

A feira sacudia o marasmo e atraía a expedição das moscas. Só o cheiro do coentro recentemente arrancado de seu talo apaziguava umas tantas futuras angústias que me aguardavam ávidas em tonéis feitos de tempo.

Da gritaria dos vendedores eu preferia aprender cadências. Nunca consegui aderir ao mote que diz que é no grito que se prova competência. Sei que isso é ser fora da linha e da curva, mas, passo. Ser fora de linha e de curva é que sempre foi minha competência.

A semana inteira minha espera não era pela feira, era pelo velho que vendia geleia de coco. Geleia era mágica que se comia. Eu pensava que, no mundo inteiro, só o velho tinha o segredo da geleia. Eu também cheguei um dia a pensar que, no mundo inteiro, só o homem da máquina de algodão doce guardava o segredo do algodão doce. E esse não ia para a feira. Só aparecia na cidade uma vez por ano. Eu começava a ter angústias de esperas, mas tinha também muito apego por mágicas e segredos.

O que eu não tinha era dimensão. Até hoje me resta uma carência dela e eu também não tenho dimensão do tamanho dessa carência. É um círculo luminoso esse.

Eu, não, mas a feira tinha a dimensão do mundo, um lugar de encontros e trocas. De olhares também, de amores. De muitas maledicências desalmadas e alguma delicadeza. Uma ou outra vez alguns saíam no tapa e alguma vez aconteceu assassinato a faca. O mundo. Som e fúria. Alvoroço.

A fruta da palmatória, o pelo, orgulho da cidade de Angicos, só se vendia no tempo do inverno. Como até hoje, a venda dessa fruta ultrapassa a feira e o dia de sábado e sua única regra é a chuva.

Bastava o final de tarde apontar, para cair o preço dos produtos e aumentar a gritaria. A algaravia de palavras e o coro de vozes ia ao seu ápice, pois os vendedores não queriam voltar para casa carregados de mercadoria que, era a lei da vida, iriam perecer. Nessa hora também chegava o vendedor de roupas, tardio, espalhando a mercadoria sobre uma lona, no espaço que já se ia folgando pela debandada dos comerciantes de frutas e verduras. Blusas, shortinhos e vestidos ocupavam com duvidosa vantagem estética o lugar do chuchu.

Assim eu confirmava que sábado é mesmo dia de criação. Na carne, na laranja e no legado do anzol. Criação que tinha cheiro, gosto, cor e som. E fúria. No fim, ficava só um chão avermelhado de tomates…

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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