Sacola com dentes de ouro

Silviano Santiago
O Estado de S.Paulo

Quando o saber e a pátina começam a recobrir os grandes acontecimentos históricos, de que o Holocausto é exemplo, os dramas demasiadamente humanos, mínimos e sinistros ganham consistência. Eles emergem nas gretas do quadro oxidado pelo exercício da ciência histórica e o desgaste do tempo, e usurpam a superfície. O momento inoportuno das aventuras liliputianas reanima e reforça o significado universal da catástrofe. Já blasés, os cientistas sociais desprezam as figuras humanas de pequeno porte e macabras. Seus dramas são apenas infames. Merecem a lata de lixo da história e não as páginas de livro. Os romancistas se encantam pelos deslocados e anônimos. Tornam-se a exceção que confirma a regra geral da barbárie humana.

Com o romance Lejos de Dónde (Tusquets, 2009), ainda inédito entre nós, o argentino Edgardo Cozarinsky intervém na história do Holocausto. Ao fim da 2.ª Guerra Mundial, uma jovem guarda em campo de concentração, de descendência austríaca, se encontra só (sua filha única estava sob a guarda dum casal de poloneses), sem abrigo, sem fortuna e sem documentos. Terá de fugir para evitar o estupro, ou a morte, alerta um companheiro de trabalho no Natal de 1944. Ela se lembra do depósito onde ficam guardadas as sacolas de pano com os dentes de ouro arrancados dos cadáveres antes da incineração. Apossa-se da pesada e macabra fortuna para custear sua fuga sofrida pelo território polaco e checo até Viena. De lá, viaja a Gênova, onde ainda em 1945 toma o navio para a Argentina. Como é dito em epígrafe, o romancista se interessa pela beirada perigosa das situações, onde habita o ladrão honesto e o assassino amável. No popular brasileiro: morre o cavalo a bem do urubu.

A trama romanesca abandona a refugiada no porto mediterrâneo e a revisita em Buenos Aires no ano de 1948. É, então, hóspede da pensão de Frau Dorsch. O nome judaico, Taube Fischbein, lhe é emprestado por passaporte falso. Trabalha como cozinheira em restaurante alemão e convive com imigrantes romenos e húngaros. Ninguém sabe como conseguiu escapar-se da Europa devastada. No pós-guerra, o universo dos emigrantes europeus na América Latina se desenha pelo silêncio oferecido pelo marco zero, como o soubemos pelo tardio caso Eichmann. O silêncio enterra o remorso a fim de que a culpa, sob a forma de apreensão diuturna, seja sonegada ao círculo dos semelhantes. Nos anos 1950, o saber e a pátina tinham banalizado em branco e inocência as variadas cores sombrias dos delitos europeus. Cozarinsky reaviva-as para lembrar-nos como, abaixo do Equador, são chamativas todas e qualquer das tonalidades brancas e inocentes ambicionadas pelos feitores do Holocausto em exílio.

Se Taube tinha escapado do estupro no fim da guerra, o padecerá ao voltar do trabalho para a pensão. De olhos negros e pele escura, o bastardo se chamará Federico: “O Senhor lhe havia enviado o castigo merecido por ter abandonado no passado a filha loura, de olhos claros.” No terceiro capítulo, datado de 1960, reencontramos a mãe e o filho de 12 anos. Ela continua expatriada na cozinha do restaurante, enquanto ele, um rapazinho de traços mestiços, busca refúgio nos cinemas da cidade. Morre a mãe atropelada. O quarto capítulo se passa em fevereiro de 1977 e é conduzido pelo filho, um terrorista que, ao trair os companheiros e obter passaporte uruguaio falso, faz caminho semelhante e inverso ao da mãe em 1945. Passadas em dezembro de 2008, as páginas finais do romance dramatizam o encontro por acaso dos irmãos. Ela é balconista de bar na estação central de Dresden. Eles não se reconhecem e a conversa fiada não leva o leitor a enxergá-los como seres humanos que povoaram as frinchas do fim do século 20. As gretas do Holocausto fecham-se modestamente em Lejos de Dónde.

Uma das inúmeras epígrafes do romance diz que “contos não se inventam, são herdados”. Da perspectiva do romance em pauta, a afirmação é falaciosa, pois os filhos não herdaram à altura a aventura escabrosa da mãe. São meros pingentes. Na formação do caráter, acaso e necessidade são inimigos ferozes do DNA. Irmão e irmã não têm a força identitária de urubus da desgraça alheia, que os faria ombrear com a violência da vida vivida pela imigrante Taube Fischbein, aliás, Therese Feldkirch.

Se o romance Lejos de Dónde é menos revelador nos dois capítulos finais, há de voltar aos primeiros capítulos e examinar três intervenções na trama, paralelas à fuga de Taube. As três passagens entrecortam metaforicamente a história. Nelas, o narrador refere-se ao fotógrafo ucraniano Yevgueni Khaldei (1917-1997), de descendência judaica, então tenente do Exército soviético. No front alemão, registrava as conquistas da Grande Guerra Patriótica para a agência de notícias Tass. Em maio de 1945, ele fotografa o instante preciso em que um soldado russo hasteia a bandeira soviética no telhado do parlamento alemão em ruínas. (Em termos simbólicos, sua foto, A Bandeira Vermelha sobre o Reichstag, é tão memorável quanto a de Joe Rosenthal, que retrata o hastear da bandeira americana em Iwo Jima.)

De volta à pátria, Khaldei tem a rotina atormentada por acontecimento imprevisto. A criação do Estado de Israel detona uma onda de antissemitismo na União Soviética. A agência Tass dispensa seus serviços. Começam os anos de difícil sobrevivência, que só terminam quando o jornal Pravda o chama de volta. Ao ter o valor finalmente reconhecido, Khaldei desconstrói a aura que recobre a foto documental. Escolhera um negativo entre os 36 clicados. A cena fora encenada três dias depois da tomada de Berlim. A bandeira soviética à disposição não era fotogênica. Khaldei pediu a um alfaiate de profissão que a costurasse do zero. É artificial a fumaça negra que recobria a cena; no entanto, ela “contribuiu para a autenticidade da foto”. O retoque preciso do artista é a garantia da verdade poética. “É uma bela imagem, não?” Khaldei teria perguntado a um repórter bisbilhoteiro.

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