[SAFRA 71] “Eletric Warrior”, de T. Rex

Rezam as lendas que povoam a história do Rock que segundos antes de Marc Bolan aparecer diante das cameras no programa Top of The Pops, alguns respingos de glitter teriam, “por acaso”, caído sobre uma fina camada de rímel que cobria suas bochechas. Esse pequeno detalhe teria, junto com os acordes da canção Hot Love, entrado para a história como uma espécie de big bang, um acontecimento inaugural do glam rock, definindo o estilo que imprimiu os anos 70 na memória cultural do século XX.

Obviamente não havia nada de casual naquilo. A ideia de salpicar glitter no rosto do líder do T. Rex fazia parte de uma estratégia de marketing bem mais sofisticada, que unia música à moda e que fazia referência a uma tradição londrina que transitaria do talhe bem marcado dos mods dos anos sessenta até o “punk de botique” do final da década de setenta.

Bolan, que tinha como ídolos de adolescência Chet Baker e James Dean, sempre teve uma obsessão por se tornar uma estrela da música. Desde de cedo ele sabia intuitivamente que no mundo da cultura Pop a preparação da imagem era tão fundamental quanto a composição sonora de uma banda.

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De ascendência judaica, o líder do T. Rex nasceu logo depois da guerra e cresceu em East Lodon, uma das primeiras comunidades multiétnicas de Londres, cercado por sinagogas, mesquitas e ruas apinhadas de imigrantes jamaicanos e paquistaneses.

Em 1966 estreou com sua primeira banda (John´s Children) seguindo no esteio do sucesso do The Who e do agito cultural da Swinging London. Antenado com o bonde da história, corria sempre para onde apontavam as tendências mais atuais de comportamento e de moda dos jovens da capital britânica. Foi justamente seguindo essa intuição, ao ver uma apresentação ao vivo do músico indiano Ravi Shankar, que Bolan entendeu que precisava trilhar um caminho próprio e inaugurar uma estética particular para poder se firmar no mundo da cultura de massas.

Inspirado em passagens dos livros de Ray Bradbury e muito influenciado pelas leituras de Tolkien, o nativo da zona leste londrina migrou no fim dos sessenta para uma nova formação e montou o projeto do Tiranossauros Rex. No inicio Bolanse apresentava sentado em um tapete com um violão (inspirado no modo como Shankar tocava sua cítara) acompanhado um percussionista no bongo, enquanto executava canções folks experimentaisque lembravam o som da “hipperima”  The Incredible String Band.

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Depois de cinco anos de estrada e com cinco discos no mercado, Bolan sacou finalmente qual era o caminho e deu sua guinada definitiva, pulando de uma vez por todas para fora dos sessenta e tocando o foda-se, tanto para o mod britânico quanto para a estética “chá de cogumelo” do folk de Stonehange.

Abreviando o nome da banda para T. Rex, assumindo a guitarra elétrica e os vocais; e trazendo Stevie Currie para o baixo, Bill Legend para a bateria e Mickey Finn para a percussão, Bolan entrou com o pé na porta na parada britânica com o disco Electric Warrior.

Com músicas belíssimas como Cosmic Dancer, uma balada melancólica com arranjo de cordas e harmonias vocais transcendentais, misturadas a canções como Planet Queen e Monolith, que flertam as bases vocais do gospel e do soul norte americano, Eletric Warrior não é um disco que se reduza facilmente a um estilo sonoro.

Se em Mambo Sun, Bolan parece nos levar em um passeio pelas ruas da cosmopolita East London, trazendo a tona todo caldeirão multiétnico em que passou a infância e a adolescência; em The Motivator ele nos lança sem nenhum pudor em um rockraiz muito mais ianque do que britânico.

Curiosamente, mesmo com toda labuta para se aproximar de uma sonoridade que fosse mais palatável a uma audiência da terra do Tio Sam, Eletric Warrior não conseguiu ser bem compreendido pelo público norte americano da época.

Apesar dos esforços obsessivos em se tornar uma mega estrela da música Pop nos dois lados do atlântico, fazendo inúmeras concessões comerciais e tendo inclusive que renomear o hit Get it On nos EUA (que passou a se chamar Bang a Gong nas rádios norte americanas) Bolan viu sua música chegando apenas a posição 32 das paradas do lado de cá do Atlântico, a despeito de ter ficado semanas entre as músicas mais tocadas nas rádios britânicas.

Mesmo sem ter o sucesso estrondoso que se esperava, Eletric Warrior é um dos discos mais icônicos da história do rock, justamente por ser um dos que melhor sintetiza a fusão entre música, modae comportamento, misturando como poucos, sonoridade e atitude em um mesmo caldeirão comercial. O Glam rock, que nasceu com a imagem de um Bolan andrógino na TV, brilhando com o glitter derramado em suas bochechas, se tornou a expressão de uma forma de vida urbana e de um sensibilidade juvenil que anunciava mudanças muito significativas nos paradigmas de gênero e de sexualidade que marcam definitivamente essa nossa virada do milênio.

Bolan não teve tempo de ver a abrangência de sua influência frutificar no mundo da cultura pop, sempre acelerado, correndo na busca de um sucesso planetário e vendo a ultrapassagem de seus contemporâneos Bowie e Elton John, que se tornavam mega estrelas globais a cada disco lançado, o líder do T. Rex faleceu em um acidente de carro em Londres, na madrugada de 16 de Setembro de 1977.  Em mais uma das tragédias românticas que vitimam os heróis do rock, Marc Bolan partiu cedo, tão rápido quando surgiu, talvez sem saber que já havia inscrito seu nome definitivamente na cultura do século em que viveu.   

Ficha do disco

Eletric Warrior

T. REX

Selo: Fly

Produção: Tony Visconti

Nacionalidade: Inglaterra

Duração: 36min33

Escritor, dramaturgo, professor de filosofia e direito [ Ver todos os artigos ]

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