[SAFRA 71] “Live!”, Fela Ransome-Kuti and The Africa´70 With Ginger Baker

Quando Fela Kuti saiu da África para estudar na Inglaterra na virada dos anos 50 para os 60, descobriu que sua terra natal, a cidade de Abeokutá, em pleno coração do território Yorubá na Nigéria, não fazia realmente parte do império britânico.

Educado em escolas religiosas mantidas pela Igreja Anglicana, esse filho de um pastor protestante com Funmmilayo Ransome-Kuti, uma pioneira do ativismo pelos direitos femininos na África tomou consciência dos efeitos devastadores do colonialismo racista justamente nas ruas de Londres, ao perceber que as ofertas imobiliárias nos jornais britânicos geralmente indicavam que os apartamentos só poderiam ser alugados: “sem gente de cor e sem cachorros”.

Mas foi quando atravessou o Atlântico em direção a Califórnia para divulgar seu trabalho musical, no final dos anos 60, que Fela Kuti deu sua guinada política definitiva. A partir do contato com a ativista californiana Sandra Akante Izsadore, Kuti passou a ter conexões com o Partido dos Panteras Negras e conheceu a fundo o pensamento de Malcon X, consolidando a base política de sua mensagem.

Em 1971, após uma excursão pelos EUA e Europa Ocidental, Kuti voltou a Nigéria com uma perspectiva sonora tão radical quanto suas ideias políticas. Influenciado pelo Funk, pelo Fusion e pelo rock psicodélico, Kuti montou sua banda Africa´70 junto com Tony Allen, baterista e criador da batida do afrobeat, produzindo entre 1971 e 1979  a impressionante quantidade de mais de 20 discos.

Entre eles a coletânea de apresentações ao vivo de 1971, Live! se destacou, entre outras coisas, pela participação, em duas faixas, de Ginger Baker, ex baterista do Cream.

Baker, um apaixonado pela música africana, já havia co-produzido em Londres algumas das primeiras gravações do Africa´70, inclusive usando o mitológico estúdio da Abbey Road, e em 1971, havia se mudado para Lagos, na Nigéria com um estúdio de 16 canais para registrar o movimento musical que estava nascendo por lá, capitaneado pela força sonora e pelo carisma de Fela Kuti.

Disco reúne faixas gravadas ao vivo em 1971 pelo ‘pai’ do afrobeat e o ex-baterista do Cream

O disco, que faz 50 anos agora em 2021, talvez não seja o mais genial do multi-instrumentista nigeriano, mas de longe é o que melhor capta a atmosfera de transe de seus shows. Com Baker nas baquetas em faixas como Let´s Start e Ye Ye De Smell, Kuti intercala solos de sax e piano, com longas e hipnóticas digressões rítmicas, em meio a um naipe de trompetes, baixo, guitarra, bateria e um conjunto de cinco percussionistas. A potência sonora do disco, que em alguns momentos lembra muito o toque de nossos xirês de candomblé, explora até os limites a capacidade rítmica do grupo em um diálogo exuberante com um Ginger Baker na melhor forma. 

Com músicas que giram em torno de 15 minutos em média e faixas que abarcam quase todo um lado do vinil, Kuti imprime seu discurso político por sobre climas sonoros que evocam tanto os rituais da religião Yorubá, quanto o experimentalismo fusion no melhor estilo de Miles Davis.

O disco fecha com uma longa faixa, Egbe Mi O (Carry Me I Want to Die), em que o tema melódico básico, tocado por Kuti no piano, aparece e desaparece em meio a tessitura jazzística, expandindo-se em uma onda quase mediúnica, até explodir como uma melodia vocal poderosa, colocando plateia e músicos pra cantar juntos.

Defensor do pan africanismo e crítico mordaz do regime politico nigeriano, no começo dos anos 70 Kuti fundou uma comuna independente nos arredores de Lagos. A República de Kalakuta. Um conjunto de casas amarelas cercadas por arame farpado que funcionava como estúdio e residência, onde o músico vivia com os membros da sua banda, sua mãe, seus parentes próximos, suas 27 esposas (calma, é isso mesmo… você não leu errado) e mais toda uma fauna de artistas e dissidentes políticos da ditadura militar que governava seu pais.

Em 18 de Fevereiro de 1977, após declarar sua comuna um “território libertário autônomo e independente”, Kuti viu a Republica de Kalakuta ser invadida por 1200 soldados do exército nigeriano. O local foi incendiado, os homens brutalmente espancados, inclusive Kuti que teve traumatismo craniano.  As mulheres foram estupradas e mãe do músico assassinada. Após esse ataque brutal o músico teve de se exilar em Gana.

Quando morreu, em 1997, vítima de complicações decorrentes do HIV, o cortejo fúnebre que levava o corpo de Fela Kuti atraiu um cerca de um milhão de pessoas para as ruas de Lagos e mais  outros 150 mil fãs, que se espremeram em uma longa fila para dar o último adeus no velório do músico.

Àquela altura, não adiantava o regime ditatorial da Nigéria, que havia colocado fogo na República de Kalakuta vinte anos antes, manter sua proibição de aglomerações públicas no país. A força espiritual e simbólica da arte de Kuti calaria com sangue qualquer ação repressiva de qualquer regime. E é justamente a presença dessa força, que arremessa a imaginação para esferas libertárias, que a gente experimenta quando bota pra rodar na vitrola ou no streaming um álbum como Live!

Ficha do disco

Live!

Fela Ransome-Kuti and The Africa´70 With Ginger Baker

Gravadora: Celluloid

Produção: Jeff Janratt

Nacionalidade: Nigéria-Inglaterra

Duração: 45:19

Escritor, dramaturgo, professor de filosofia e direito [ Ver todos os artigos ]

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