[SAFRA 81] “Movement”, New Order

Não é fácil para uma banda de rock se recompor depois da perda de seu vocalista. Ainda mais quando o vocalista se mata. Ainda mais quando o suicídio acontece às vésperas da primeira turnê da banda pelos EUA. Ainda mais quando o suícida é Ian Curtis.

Deborah Curtis, viúva de Ian, no seu relato biográfico Touching from a distance (1995) que inspirou o filme Control (2007)dirigido por Anton Corbijn; conta como Ian apresentou ao amigo Bernard Summer os discos do Kraftwerk, o álbum Low de David Bowie e a obra do Velvet Underground.

“Adorado pelos fãs mais fervorosos de Ian Curtis, desprezado como um “álbum inconsistente” pelos amantes do tecnopop, quarenta anos depois de lançado, ainda é uma obra de transição, uma bifurcação, um enigma”.

Essas referências foram todas liquidificadas junto a crueza minimalista do punk para depois serem temperadas com a tendência de Ian de, nos dizeres de Tony Willson, dono da Factory Records: “usar formas arcaicas da língua inglesa e construções gramaticais do século XIX” em suas letras.

O carimbo das influências de Ian sobre o som do que viria ser o New Order nunca desapareceu totalmente, mesmo quando o grupo inglês mergulhou de cabeça no tecnopop  com os maravilhosos Substance  de 1987 e Techinique  de 1989.

Talvez por isso, quando no Outono de 1981, Movement, o primeiro álbum do New Order chegou nas lojas, o fantasma de Ian parecesse pairar ainda tão vívido sobre o grupo. Muita gente apostou, naquela altura,  que a banda de Manchester não chegaria muito longe.

O álbum não foi bem recebido nem pela crítica especializada, nem pelo público; e acabou atingindo apenas o 30º lugar na parada britânica. Considerado por muita gente como um álbum de transição bastante “difícil” de se escutar, Movement trazia uma capa de Peter Saville, inspirada na obra do pintor futurista italiano Fortunato Depero. Com um design que perecia um rótulo de creme dermatológico desses que vendem em farmácias, passava muito longe da qualidade densa e enigmática das capas de Unkown Pleasures e Closer.

Gravado em 10 dias, entre 29 de Abril e 09 de Maio de 1981, no Strawberry Studio em Stockport, uma pequena cidade situada no entorno de Manchester; o disco não agradou nem mesmo os membros da banda. O baixista Peter Hook, anos mais tarde, afirmou que o grupo ainda estava “musicalmente confuso”, especialmente após lançar um single com sobras do Joy Division (Ceremony/ In a Lonely Place).

Obviamente havia o incontornável problema do vocalista.

Afinal, quem iria substituir Ian?

Brigas e imitação de Ian

Bernard Summer no Plaza, de Glasgow, 1981

A proposta apresentada no álbum de 1981 é que tanto Bernard Sumner quanto Peter Hook deveriam se alternar nos vocais do disco, de maneira que o ônus de ter de ocupar o lugar de Ian não pesasse exclusivamente sobre os ombros de ninguém.

Mas não era só isso… as gravações foram marcadas por brigas com Martin Hannet, o mesmo produtor dos discos do Joy, o cara que praticamente inventou o pós punk quando colocou o baixo e a bateria mais altos no álbum Unknow Pleasures, invertendo o cânone clássico de sua época e reduzindo a guitarra,  a toda poderosa rainha do rock, ao papel de auxiliar de cozinha.

Os problemas com Hannet marcaram definitivamente as gravações de Movement. Além de já estar em uma disputa judicial com a Factory, o ex-sócio de Tony Wilson, que aquela altura do campeonato já apresentava os problemas com o velho combo roquenrol “álcool e drogas”  (fato que o levaria a morte prematura em 1991), batia o tempo inteiro de frente com a banda. Hannet insistia, para o desespero de todos, em fazer com que o som do New Order soasse como o do Joy, apelando para as mesmas fórmulas usadas nos álbuns com Ian.

Músicas como Senses, Truth e Doubts Even Here soam quase como um pastiche da antiga banda, com os vocais ainda buscando imitar sem sucesso o estilo de  Ian. Muito da sonoridade do álbum soa como se banda, em uma tentativa desesperada de vencer a tragédia, quisesse continuar a ser o que era, sem levar em consideração que a morte não faz acordos quanto a permanência, nem dos que vão, nem dos que ficam.

O tom sombrio, a guitarra minimalista e a batida tribal hipnótica da bateria, junto a uma base claustrofóbica de barulhos eletrônicos de fundo, traziam para o disco as mesmas referências essenciais de Ian trouxe para a banda. O David Bowie de Low, o Velvet Underground de White Light/White Heat  e o Iggy Pop de The Idiot, marcam a maioria das faixas do álbum, dando a nítida sensação de que o grupo colapsaria inexoravelmente sob o peso do cadáver enforcado de seu antigo líder.

Mesmo assim, há algo no Movement que aponta para o futuro, que escapa pelas frestas e que traz auspícios de mudança.

Disco não é unanimidade

A presença de Gillian Gilbert, que chegou para dar aos sintetizadores (tocados em parceria com Sumner nos estúdios de gravação do álbum) um protagonismo que eles nunca tiveram no Joy Division, mostra que a guinada para o eletrônico e a abertura em direção ao tecnopop já dava, mesmo que timidamente, o ar da sua graça.

Em Dream Never Ends, com a guitarra mais livre, a batida da bateria mais solta e um baixo bem mais melódico guiando os vocais de Peter Hook, a banda parece flutuar sobre a densidade expressionista do pós-punk e dar um duplo carpado em direção ao movimento que é a cara das pistas de dança dos anos 80.

Em ICB (uma sigla para Ian Curtis Buried) o grupo parece tentar exorcizar definitivamente seus fantasmas com uma letra que procura elaborar as sensações conflitantes de culpa, raiva e tristeza que parecem ter tomado conta de todos após o suicídio de Ian.

Mas é em The Him, com seus mais de cinco minutos de duração, que o ponto de inflexão aparece de maneira mais clara. Iniciando com uma sonoridade pós-punk raiz, com bateria tribal, baixo sombrio, sintetizadores organísticos e guitarra minimalista, a canção acelera e retrocede em mudanças de andamento, como se a banda estivesse tentando se libertar de um peso que a prende pelos pés enquanto busca correr em direção a seu destino.

Em meio a essas idas e vindas, Sumner canta: “Círculos brancos, linhas negras me circundam/ renascem, tão claros, meus olhos/ veja: esta é a razão de eu estar aqui/ tão perto dessa pessoa ”. A música então chega aos 3´51´´ como se todo o conflito fosse se resolver em um único pulso eletrônico que se mantem constante, apontando para o fim e o silêncio que permanece como eco quando a morte interrompe nossa aventura pelo reino do tempo.

 Só que não.

A música subitamente ressuscita.

Aos 4´06´´ tanto guitarra, bateria e baixo, quanto os sintetizadores retornam ao andamento mais rápido, rasgando o tecido do pulso eletrônico e desqualificando o silêncio residual da morte. Uma eclosão de esperança toma conta da faixa para que um Sumner resoluto possa concluir a canção com um último verso “I´m so tired, I´m so tired”.

É por tudo isso que Movement, o primeiro álbum do New Order, nunca será uma unanimidade.

Adorado pelos fãs mais fervorosos de Ian Curtis, desprezado como um “álbum inconsistente” pelos amantes do tecnopop, quarenta anos depois de lançado, ainda é uma obra de transição, uma bifurcação, um enigma e um grito de libertação de uma banda que soube exorcizar suas assombrações e mudar tudo para fazer diferente o que já sabia fazer de melhor.

Escritor, dramaturgo, professor de filosofia e direito [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo