SAINT LOUIS BLUES ou Lençóis maranhenses ensanguentados (by Sarney and daugther)

 

Hollywood, mais uma vez, se curva diante do Maranhão: para que serra elétrica, walking dead e outras tolices da presunção tecnológica e ridiculos efeitos especiais? Os estúdios Sarney & daughter reciclaram Glauber Rocha, agora com cores, em 3D e sensações olfativas (porque ao vivo), para mostrar o que é horror pra valer. Agências de turismo não dão conta para reservas em tours que incluam Pebbles Prison. Holandeses ávidos por verem decapitações ao vivo. Japoneses preferindo a estirpação de corações pelas costas. Israelenses advertindo que vale tudo se não comerem sangue. Franceses calculando racionalmente as relações custo-benefício nessa nova experiência estética – e  confirmando as reservas. Russos exigindo sol e calor como pano de fundo para as cenas. Chineses ávidos por novas técnicas de tortura. Paulistas querendo comparar o exótico Maranhão com as experiências do Carandiru na cosmopolita Sampa.

A tecnologia já explorada nos tours pelas favelas cariocas e pelos alagados baianos agora se desdobra no minimalismo da sangria maranhense – rinha de galo humana com auxílio de aparelhos e um grupo contra cada vítima. Por enquanto, o espetáculo usará apenas matéria prima com mais de 18 anos mas os adeptos do turismo consumidor de menores já estão tomando providências para obterem carta branca do STF ou instância similar, em nome da liberdade de expressão e consumo, beneficiando o mercado turístico. Tudo dentro da lei, sob a égide do aparelho de estado – convites para jantar com a daughter aumentam radicalmente o preço do pacote, compensado pela qualidade internacional de comes e bebes, mais a culinária regional (corpo humano à cabidela;  jantar com o godfather apenas para ex-chefes de estado).

Cenas de vômito e desmaios garantidos. Satisfação plena ou seu dinheiro de volta – com os descontos de câmbio habituais. Espetáculos interativos – vc tb pode matar, retomando antiga tecnologia usada contra presos políticos pela OBAN (com presos comuns, liberou geral).

Uma orquestra sinfônica de nível internacional, mais coro operístico, executarão, como pano de fundo, a “Cavalgada das valquírias” (Wagner, pioneiro anti-semita, aplicável noutros extermínios), numa singela versão para o português do Brasil:

 

“Esfola, esgana,

Prende, arrebenta,

Estupra, estripa

Até matar.

(Matar, matar, matar, matar, matar, matar, matar, matar)”.

(Ad lib itum)

 

Citando Tom Zé (baiano mas serve para o caso, sem desmerecer João do Vale: “Um dia desses fui dançar lá em Pedreiras”), “o avanço industrial vem trazer nossa redenção”. É a tecnologia nazista de assassinato em escala fabril, matéria prima (commodities com comodidade) abunda, nem precisa exportar.

Elvis pode ter morrido mas Hitler está bem vivo e mora no Maranhão. E cuida para que os menos poderosos continuem morrendo que nem moscas.

Já é mais que oligarquia. É tirania mesmo.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 14 de janeiro de 2014 8:52

    Anchieta:

    Umberto Eco, no romance “O nome da rosa”, cita varias vezes o gênero textual “Coena Cypriani”, paródia de passagens bíblicas. Pois é.

  2. Anchieta Rolim 13 de janeiro de 2014 22:13

    Interessante, são as telas que estão em uma sala especial da fundação que leva o nome de José Sarney e que é bancada com dinheiro público. São várias pinturas retratando ele, seus familiares e também amigos, como Antonio Carlos Magalhães, por exemplo. O lance é tão ridículo quanto engraçado, pois todos estão vestidos de santo.

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