Sair de Gaza

J. P. Cuenca
FOLHA DE SÃO PAULO

Do outro lado do muro, a voz arenosa e fria pelo telefone: “É impossível. E amanhã é o Shabbat. Você vai ter que esperar até domingo.”

A confusão entre um representante do Hamas e o meu fixer em Gaza fez com que eu chegasse à fronteira atrasado num dia em que Israel também fechou a porta antes do horário. O desencontro me presenteou com duas noites a mais no maior presídio a céu aberto do mundo. A fronteira estaria fechada pelas próximas 48 horas e, nem em caso de uma tragédia humanitária, seria aberta.

Dar com o nariz nesse muro foi desagradável, mas experiência de proporções microscópicas perto do que é viver sitiado num retângulo de quarenta quilômetros de costa por seis a doze quilômetros de profundidade. Eu sabia que domingo, se tudo desse certo, estaria do outro lado daquela cerca. Os palestinos de Gaza não tem a menor ideia de quando vão poder sair.

Voltei para o meu hotel, onde era o único hóspede. Por uma diária de 60 dólares, eu tinha ar-condicionado e uma parede envidraçada com vista para o Mediterrâneo. E para um pôr do sol grandioso, com o sol vermelho sendo engolido pelo oceano, a projetar uma avenida de moedinhas douradas crepitando sobre o azul até o ponto onde o mar risca elipses na areia.

Os poucos que se arriscam a mergulhar são meninos vestidos com camiseta e bermuda. E um senhor, levando a cabra para tomar banho. Como durante o mês do Ramadã todos jejuam durante o dia, depois do café da manhã não há nada para comer na cidade inteira. Passei o fim de tarde fumando narguilé para matar a fome num dos cafés com mesas de plástico postados na areia da praia. Olhando para a direita, dá pra ver as chaminés da gigantesca estação de energia do lado israelense, a poucos quilômetros dali. Mas as distâncias aqui não dizem muita coisa: só há energia elétrica em Gaza durante um terço do dia.

Se o palestino é normalmente simpático, em Gaza a hospitalidade é ainda maior. Como praticamente não há estrangeiros e o turismo inexiste, o gringo com a câmera é seguido por crianças curiosas e, num mercado ou até dentro de uma mesquita, é interrompido a cada dez metros com um pedido de fotografia ou selfie. Em cafés, é comum que não aceitem gorjeta ou cobrem pela garrafa d’água –inclusive durante o dia, quando eles mesmos não podem beber.

À tarde caminhei do hotel até o Al-Shati, conhecido como Beach Camp, o terceiro maior campo de refugiados da Palestina. Neste favelão horizontal na beira do mar há outdoors com o rosto de mártires a cada esquina. O lugar é velho o suficiente (foi fundado em 1948) para ter ganho em muitas quadras traçados e aspecto de bairro. Ainda assim, num lugar como este no Brasil eu não andaria sozinho e com uma câmera fotográfica a tiracolo. Aqui, entro em becos e tiro fotografias sem temor. O perigo é outro.

Depois de matar o jejum, ultrapassei a parte alta de Gaza até o souk central da cidade velha em ruas apinhadas de gente ao redor de um comércio exclusivamente iluminado por geradores a gasolina. Somado às buzinas, o barulho é infernal. Apesar da multidão e de lojas abertas até a madrugada, as únicas que parecem comprar alguma coisa são mulheres cobertas de hijab ou burca. Disputadas pelo grito dos vendedores, elas param em frente a vitrines com manequins vestidas com saias curtas, tops ou blusas de seda. Roupas que só usarão dentro de casa –normalmente, apenas na frente do marido ou de amigas.

Volto de madrugada para um iluminado parque de diversões na beira do mar. Famílias comem na frente de telões que exibem seriados de TV da Síria, com antigos guerreiros árabes com barbichas aparadas. Fumo outro narguilê. O garoto que troca o carvão puxa papo e eu pergunto se ele pensa em sair de Gaza um dia. “Sim. Mas só se for pra voltar”, ele diz.

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