Salinger, o roncolho

Apanhar no campo de centeio frases cruas, sem nada a ver com qualquer cereal, marcando por seis décadas as dúvidas e angústias de adolescentes, onde tudo merece escárnio e nada merece condescendência, caiu na reação de volta, como na Lei de Newton, uma gozação, que fere de riso mortal o autor Salinger.

“Ele só tem um ovo”. “Ele só fez um livro”. Como se isso reduzisse a eficácia do ovo ímpar ou o sucesso do livro único. Enquanto a crítica, roncolha de erudição, e os garanhões, inúteis de dois culhões, continuam navegando no mesmo mar de espiagem e despeito.

Intelectual e político é tudo igual. Cada um só admira o próprio umbigo. O político para desfrutar, no poder, o gozo dos interesses. O intelectual para ganhar, no aplauso, a saciedade ingênua da fama que afaga a vaidade. Todos lambendo, a seu modo, o ovo disponível que se ofereça à babação.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. François Silvestre 3 de outubro de 2013 13:48

    Pois é, mestres Alex e Rolim, bom ler os seus comentários. Que me afagam o umbigo, mesmo que eu negue ser intelectual ou político. Tentei ser o último, me esborrachei. Quis ser o anterior, amadureci. Não sou um nem outro. Ser comentado por você dois, num texto despretensioso, já me põe no campo de centeio.

  2. Anchieta Rolim 3 de outubro de 2013 8:18

    Gostei François, como se diz no boxe: Um cruzado bem na ponta do queixo. É isso aí!

  3. Alex de Souza 2 de outubro de 2013 21:52

    O que também é uma sacanagem com homem, François, é dizerem que só teve um livro. Os outros são muitos bons também. Abraço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo