Salò e Petróleo: 
agir apesar de tudo

Por Vinícius Nicastro Honesko
CULT

Como pode o intelectual intervir no mundo?

Durante as gravações de Salò ou os 120 dias de Sodoma, em 1975, Pier Paolo Pasolini mostrava-se exausto. Era um tempo de muito trabalho, de muita exposição política, de debates públicos intermináveis, de uma Itália assolada pela polarização extrema entre direita e esquerda e pelos atentados terroristas que tingiam de sangue os diários e semanários. A exaustão do intelectual podia ser notada na expressão cansada com que, por vezes, aparecia em entrevistas. Além da produção e filmagem de Salò, que lhe consumiam, em 1975 Pasolini escrevia contundentes cartas públicas e artigos para jornais e revistas em que beirava certo desespero: anunciava o fim de um modo de vida tradicional, a ascensão de um novo fascismo (guiado pela sociedade de consumo), a corrupção e os crimes políticos daqueles anos de chumbo italianos.

Esse cansaço e desespero, quase ontológicos, de Pasolini, entretanto, não impediam seu trabalho. Escrevia como nunca, expunha-se quase ao ponto de saturação de sua imagem, pensava projetos, organizava ideias etc. Dentre essas inúmeras atividades, incluía-se aquilo que, segundo ele mesmo, seria sua grande e derradeira obra, um imenso romance, “um Satyricon do moderno”. Em entrevista concedida a Luisella Re, em 01 de janeiro de 1975, quando da pergunta, “O senhor tem algumas previsões para o futuro?”, Pasolini responde que estava trabalhando em um projeto, “uma espécie de ‘summa’”, diz ele, “de todas as minhas experiências, de todas as minhas memórias”. Tal projeto é Petróleo, livro que, sabemos, permaneceu inconcluso durante a vida do autor. De fato, o livro, inacabado, recebeu sua primeira edição apenas em 1992, pela editora Einaudi, com organização de Maria Careri e Graziella Chiarcossi. Mais do que um romance tecido de modo convencional, o livro seria, como atesta a carta que Pasolini envia a Alberto Moravia (incluída já na edição de 1992), construído com uma narrativa na qual o próprio autor estaria implicado (e os críticos apontam as personagens centrais – Carlo I e Carlo II – como autorretratos do próprio Pasolini) e, além disso, seria também uma denúncia dos abusos de poder na Itália.

Pouco antes da entrevista a Luisella Re, Pasolini escreve um texto para sua coluna no Corriere della Sera, em 14/11/74, intitulado “O que é este golpe?”, no qual fala sobre os crimes e problemas políticos fundamentais que estão acontecendo na Itália daqueles anos. No artigo, diz ser necessário colocar em debate os problemas, bem como denunciar tais crimes. Essa seria a função do intelectual. Entretanto, ao mesmo tempo, ele sabe que qualquer forma de ingresso de um intelectual na prática política estatal daqueles anos é impossível. “A coragem intelectual da verdade e a prática política são duas coisas inconciliáveis na Itália”, diz. Restaria ao intelectual um papel servil: debater problemas morais e ideológicos, numa pura figuração hipócrita.

Pasolini, todavia, pensa a posição do intelectual para além dessa função. No mesmo artigo, diz que o intelectual deve intervir, ainda que seja numa denúncia de toda a classe dos políticos, postura que reassume em entrevista concedida a Jean Duflot, em 1975, quando afirma literalmente: “um intelectual tem o dever de exercer uma função crítica sobre práticas políticas globais, de ‘destotalizar’, senão, que intelectual seria ele?”. No limite, portanto, o intelectual tinha de se colocar como alguém que tem o dever de intervir eticamente no mundo e, assim, agir como um corsário – e tal é o adjetivo que recebem seus textos publicados no Corriere della Sera naqueles mesmos anos.

É no dia primeiro de fevereiro de 75, um mês após anunciar a Lusinella Re o projeto em que empenharia sua vida, que Pasolini escreve, na mesma coluna do Corriere della Sera, um artigo (que se tornará notório) no qual faz uma sucinta e precisa análise do que acontece no cenário econômico e político da Itália desde o início dos anos 60. A partir da sua constatação do desaparecimento dos vagalumes no norte da Itália, por conta da poluição e destruição dos campos vindas com a industrialização daqueles anos, Pasolini fala que o que está acontecendo em seu país não é algo esporádico e de ocasião, mas sim uma verdadeira mutação antropológica em que os valores tradicionais não contam mais, nem mesmo enquanto falsos valores. Surgem, diz, “os ‘valores’ de um novo tipo de civilização, totalmente ‘outra’ em relação à vida rural e paleoindustrial. […] Não estamos mais, como todos sabem, diante de ‘tempos novos’, mas de uma nova época da história humana: desta história humana cuja contagem se dá em milênios”.

Alguns meses depois, pouco antes de sua morte, Pasolini, também em entrevista a Jean Duflot, fala dessa mutação antropológica, do surgimento desses novos homens e do poder que os governa. Diz ele tratar-se de “um poder histérico, que tende a massificar os comportamentos, a normalizar os espíritos simplificando freneticamente todos os códigos, especialmente ‘tecnicizando’ a linguagem verbal. […] O novo fascismo é propriamente uma poderosa abstração, um pragmatismo que canceriza toda a sociedade, um tumor central, majoritário…”.

Como sentir-se diante de um panorama tão obscuro? Como intervir, cumprindo seu papel de intelectual, em tal contexto? Como agir nessa era de mutação antropológica? No contexto dos primeiros cinco anos da década de 70, por certo, como se constata nos seus artigos para jornais e nas entrevistas, Pasolini expõe a própria vida no debate político. E, nesse sentido, vê-se dois momentos cruciais dessa exposição: Petróleo e Salò, suas ações radicais. O mundo no qual a vida dos homens perde seus referenciais é um lugar onde nenhum tipo de inocência é possível e ele, como intelectual, sabia que à vida no seu tempo não havia esperanças mas, mesmo assim, com uma vitalidade desesperada (título de uma das séries de sua coletânea Poesia in Forma di Rosa), sabia também que não lhe restava senão a resistência. E tal resistência, levada ao extremo, seria realizada tanto na exposição do que chama de “a anarquia do poder”, em Salò, quanto na sua summa acusativa, Petróleo. Poucos dias antes da morte, Pasolini confessa ao amigo Paolo Volpani que terminado Salò não trabalharia com cinema por um bom tempo e que, naquele momento, dedicava-se a um imenso romance, justamente, Petróleo. Neste, diz Pasolini ao amigo, “todos os problemas desses vinte anos de nossa vida italiana política e administrativa, da crise da nossa república: com o petróleo como fundo, como grande protagonista da divisão internacional do trabalho, do mundo do capital, que é aquele que determina assim essa crise, os nossos sofrimentos, as nossas imaturidades, as nossas fraquezas e, ao mesmo tempo, as condições de subjugação da nossa burguesia, do nosso presunçoso neocapitalismo”.

A vontade de denúncia, uma espécie de “coragem da verdade”, toca a fundo Pasolini. Sem esperanças, o intelectual joga-se no confronto diário, pois, para ele, sem esperanças também estava a Itália e o mundo. Naqueles anos, a recorrência e ressonância da voz do Marquês de Sade é uma constante no seu confronto com os detentores do poder. Numa carta aberta ao Presidente da República, publicada no Il Mondo de 11/09/75, Pasolini fala do enigma que para ele é a “vocação de governar” e que, no limite, na Itália tal vocação não portaria nada de especial senão o próprio modo de deter o poder. E, nesses mesmos meses, é o monsenhor de Salò a pronunciar um trocadilho que ecoa nesse enigma que ronda Pasolini: “nada é mais anárquico do que o poder. O poder faz o que quer, como quer.” O poder na sua arbitrariedade e, por isso, Pasolini recorre a Sade: os imperativos do sádico que nulificam o corpo, reduzem-no a mercadoria, assim como também o fazem os imperativos do poder com aqueles a ele sujeitados.

Se, para lembrar o crítico René Schérer, podemos dizer que, em Salò, está a exposição clara da democracia que termina em fascismo e do hedonismo que se traduz na putrefação e destruição dos corpos, em Petróleo – em seu caráter alegórico obscuro e viscoso –, por sua vez, Pasolini procura demonstrar como ele, enquanto intelectual público, também está implicado nessa destruição. Nos últimos anos de sua vida, portanto, Pasolini faz de suas denúncias uma maneira de declarar-se nesse processo destrutivo, mas, ao mesmo tempo, sua forma de resistir, sua única ação possível diante da evidente catástrofe de seu tempo. Portanto, ao dirigir Salò (e com exposições viscerais de como se lhe mostrava o poder) e ao escrever Petróleo (com seus quase autobiográficos Carlo I e II, com as denúncias veladas e, por vezes, claras de corrupção e crimes políticos), sabia-se implicado nesses mundos que descrevia: a Salò de 1945, que alegoriza a tirania de todo poder, e a Itália de seu presente, os anos 70, onde o horror do poder se consolida de modo nefasto. No limite, Pasolini sabia que, com a função de destotalizar que cabia ao intelectual, deveria se expor, custasse isso sua vida.

“Tudo o que faço está provavelmente destinado ao fracasso, mas faço-o apesar de tudo, porque há que fazê-lo”, disse Sartre em um programa de rádio em setembro de 1973 (e sabemos desse seu resistir até os limites dos pulmões, em 1980). Talvez, poderíamos dizer que diante de um mundo que se mostrava impossível, aos intelectuais não restava senão certo desespero (e não seria isso de uma atualidade inconteste?). Porém, àqueles que se nutriam de mundo não havia saída e, ainda que fadados ao fracasso, colocavam-se inexoravelmente em jogo até o fim, até a morte. Nesse sentido, Pasolini, apesar de tudo, faz tudo o que faz até o limite, até não mais poder fazê-lo, até os confins da praia de Ostia.

 

Vinícius Nicastro Honesko é professor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR)

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