Salvador Dali

Salvador Dali, o artista-multimídia e a poesia do inconsciente crítico-paranóico

Ti saúdo velho Dali, de lá, de sempre…
Continuamos masturbando e sentindo culpa
A memória escoa na mesmice de quimeras
Gala inspiradora, bruxa devoradora
Cu- tu- velo fincado na espera de um Jámon
Tetas magras e ovos crescidos do cão rastejador
A dor enlanguesce o ser Maldoror
Direi ouvir ruídos que furam o juízo final
Engole o rato que a província requenta
E dali e d´acolá busca domesticar
Esse obscuro objeto do viver
Ti saúdo velho irmão catalão
Ser supremo na noite da criação
Damata

“O sono é um estado de equilíbrio, uma espécie de monstro, na qual seu corpo desaparece”. “Restaurada pelo sono, a essência do homem é duplicada.Dali

Há 105 anos nascia em Figueras (Espanha), um dos maiores gênios do século XX – Salvador Dali. Um artista multimídia e poliedricamente facético. Extravagante e provocador. Pintor e escritor. Anarquista e Monarquista. Obsceno e ao mesmo tempo casto. Cenógrafo e desenhista de moda e mobiliários. Ilustrador de alguns dos maiores clássicos da literatura. Joalheiro e homem afeito a performances e happenings provocadores e imaginativos.

Dali soube converter toda a sua laboriosa vida num grande espetáculo. Criador do método paranóico-crítico, onde as alucinações, visões e obsessões eram postas em movimento numa sistematização das alucinações delirantes do inconsciente.  Dali atuava num mundo próprio difícil de situar. A morte, o dinheiro, o erotismo e Gala, sua companheira, musa e modelo, foram suas obsessões permanentes. No centenário-Dali (2004) muitas exposições foram realizadas no mundo inteiro em sua homenagem, especialmente na sua Catalunha. Tivemos oportunidade de ver algumas dessas exposições e, nesse artigo, fazemos uma rápida viagem por esse universo místico, onírico e paranóico, onde discutimos algumas facetas menos conhecidas desse artista múltiplo e genial.

Uma pintura conversível

Os anos 30 do século passado foram os mais significativos na pintura surrealista do Dali- pintor- revolucionário. Nessa década Dali realizou diversos objetos-surrealistas carregados de sensualidade. Esses “ready-made” eram feitos de objetos do cotidiano, mais tornados inúteis do ponto de vista prático e racional. Entres esses objetos destacam-se o Telefone-Lagosta , o Sofá–Lábios vermelhos da atriz Mae West e Manequins com Gavetas. As coisas possuem múltiplas funções para Dali. São elas mesmas e são outras coisas. O conversível é a essência da pintura daliniana, onde  colheres são símbolos gnósticos. As mandíbulas do Homem são os seus órgãos mais filosóficos.  O “ovo frito” pendente por uma corda é o paradigma de toda matéria macia e consistente, ao mesmo tempo. O tutano do osso (ou medula) – o mole no duro-, possui para Dali, o valor da verdade. A atividade paranóico-critica (paranóico: mole; crítica:dura) funciona para Dali como uma máquina cibernética viscosa altamente artística  (in  prólogo à  edição original francesa  do Mito trágico de El Ângelus).

Um dos quadros mais famosos de Dali é um Óleo sobre Tela “Persistência da Memória” (1931) onde aparece um relógio escoando. Os relógios moles de Dali representam um trocadilho que significa botar a língua para fora. Em francês, “faire la montre molle”. Uma alusão ao tempo e a memória que escoa.  O mole é como uma onda que se propaga. O relógio também é uma alusão ao “Tosão de Ouro”, que Jasão e outros heróis gregos – tripulantes da nave Argus, com ajuda de Medéia, foram buscar na Cólquide, região do sol nascente. Eu havia dito a Waston, durante um almoço em Nova York : “Meu quadro A “Persistência da Memória”, é uma previsão do ADN”. Meus relógios moles, que carregam um tempo imemorial e gelatinoso, não eram nada mais que os ADN especiais, chamados adormecidos, que seriam depositários da memória de espécie. O LSD, diz Timothy Leary, tem como efeito dar corda de alguma maneira nos relógios moles, e pôr assim o espírito em contato com as energias primordiais (Paixões Segundo Dali 1968).

As belas telas “O Grande Masturbador”, “Jogo Lúgubre” e o “Retrato de Paul Eluard” são do ano 1929.  Inspirado em Goya, Dali pinta um quadro que prenuncia a terrível guerra civil espanhola: “Premonição da Guerra Civil” (1936). Nesse quadro aparece uma figura humana gigante, com várias mãos e pés se estrangulando em delírio.

Gala e o Ângelus de Millet (1933), O espectro do sex-appeal (1934), España (1938), Metamorfoses de Narciso (1936-37), são outros grandes quadros desse pintor original. Em Dali, observa Breton – o autor do “Manifestos do Surrealismo” – a pintura se funde com a poesia. As imagens dalinianas são enigmáticas e capazes de suscitar os mais diferentes sentimentos ocultos. Uma pintura altamente elaborada por alguém que conhece profundamente a história das artes e da literatura. Tudo o que não nasce da tradição é plágio, teoriza Dali. Ele analisa a obra Velázques, para concluir: “Velázques me ensina mais sobre a luz, reflexões e espelhos do que toneladas de tratados científicos. Ele é um tesouro inesgotável da matemática e das ciências exatas.”

Dali também foi um grande ilustrador de livros.  Ilustrou o livro de poemas “Os Cantos de Maldoror, A Divina Comédia, A Bíblia, As memórias de Casanova, o Dom Quixote, a autobiografia de Benvenuto Cellini  e outros grandes clássicos da literatura foram enriquecidas e valorizadas em edições luxuosas com as ilustrações do pintor-leitor e amante da literatura. A evolução do traço genial de Dali ao longo de sua carreira  também pode  ser acompanhada nesses “signos que ele transformava em ouro” .  A genial personagem do D. Quixote, criação do seu conterrâneo Miguel de Cervantes, lhe despertava um interesse especial e ele utilizou toda a sua inventividade e genialidade para ilustrar com belas litografias, encomenda do editor Joseph Foret, o maior clássico da literatura universal. Em “As confissões inconfessáveis de Salvador Dali”, ele diz: “ Dom Quixote é uma espécie de louco, o mais fetichista da Terra, que tem a intenção de possuir as coisas mais raras do mundo. Então eu quero que cada uma das minhas ilustrações de Dom Quixote seja a coisa mais rara pelos meios empregados na sua execução. Cada elemento destas litografias deve comportar um elemento de dom-quixotismo exacerbado.”

Literatura

Em 1942 Dali publica na Dial Press “The Secret life of Salvador Dali”, na tradução de Haakon Chevalier. Chevalier também traduz o único romance de Dali, “Hidden Faces” (Rostos Ocultos), publicado pela mesma editora Dial Press, em 1944. Dali sente-se como parte de uma cosmogonia na qual Deus está presente, como mito, ou como realidade. “Diário de um Gênio” é publicado em 1964; um livro-diário, que se passa entre os anos 1952-1963, irreverente e impiedoso contra aqueles que defendem uma falsa-moral e “dignidade da arte”. Nesse livro ele comparava Platão a “uma espécie de Dama das Camélias do pensamento antigo”, mas aplicada a seus contemporâneos. De Matisse, dizia: “esse pintor de algas que só serve para favorecer a digestão burguesa.” Ao final do livro, os anexos: A arte de peidar, Elogio da Mosca por Luciano de Samosata, um poema dedicado a Picasso (sua grande admiração), a mística daliniana diante da história das religiões e Salvador Dali e O Mundo Angélico.

Vários livros são testemunhas do método de trabalho daliniano, e ajudam a penetrar nesse universo de delírios eróticos e místicos. As paixões Segundo Dali, foi publicado junto como escritor Pawels; Dali-Pauwels, em 1968. O Relato de sua vida fabulosa e delirante foi confiado ao escritor André Parinaud, publicado com o título o “As confissões inconfessáveis de Salvador Dali”, em 1973.Esse livro delirante  é muito revelador do método daliniano, e  foi publicado com 33 desenhos a bico-de-pena do próprio Dali. Dali ainda escreveu vários manifestos, artigos e ensaios sobre a arte.

O seu melhor livro é “El mito trágico de El Ângelus de Millet”. Este livro foi escrito entre os anos 1932-35. Desapareceu e foi encontrado pelo editor francês Jean-Jacques Pauvert, que o publicou em 1963. Em 1978 saiu a edição espanhola pela Tusquets Editores. O Ângelus de Millet, nec plus ultra do método paranóico-crítico, comenta um pequeno e grande quadro do pintor Jean-François Millet. Um quadro crepuscular onde aparece a mãe com as mãos unidas em pose de oração, e o pai segurando o chapéu com a cabeça levemente encurvada. Vê-se uma igreja ao fundo, é a hora do Ângelus. O Casal de camponeses veste roupas toscas, botina, touca e avental. Ao lado do homem tem uma forquilha de três dentes. Ainda compõem o quadro, um carrinho de mão, cestos e sacos para colher batatas. Esse quadro acompanhou Dali em toda a sua vida e, é para ele, a mais perturbadora, a mais enigmática, mais densa e rica obra em pensamentos inconscientes que jamais existiu (El mito Trágico de “El Ángelus” de Millet, p. 27.).

Na interpretação paranóico-crítica-daliniana, observa-se muitas alusões incomodas sobre um “erotismo rural”, que o quadro tentava camuflar.  A mãe podia ser uma variante da mãe fálica egípcia com cabeça de abutre, e utiliza seu marido estranhamente despersonalizado como um carrinho de mão, a transportar seu filho para ser enterrado ao mesmo tempo que fecunda a mulher, sendo ela a mãe-terra, nutridora por excelência. No prólogo desse clássico do surrealismo, Dali diz que dos coeficientes de elasticidade e da viscosidade jesuítica às estruturas éticas implacáveis dos mandamentos morais nascem as grandes obras de arte. A interpretação paranóico-crítico daliniana se divide em várias partes. Na 1ª parte, destaca-se a contra-luz do ambiente crepuscular que determina os sentimentos atávicos, em um momento de espera e de imobilidade que anuncia a eminente agressão sexual. Na 2ª parte, o filho realiza com a mãe “o coito por trás”, segurando com as mãos as pernas da mulher à altura dos quadris. Trata-se de uma postura que denuncia o mais alto grau da animalidade do amor rural Finalmente, o macho é devorado pela fêmea depois do acasalamento. Dali não espera esgotar o conhecimento real e altamente erótico escondido no Ângelus de Millet (1857-59), mas dá uma mostra convincente das potencialidades do método paranóico-crítico de pesquisas.

Dali foi um gênio que deixou a sua marca nos mais diferentes campos das artes em que atuou. Foi um “ Avida Dollars” que soube transformar tudo em arte e dinheiro, como num toque de Midas Um artista completo e multi-mídia quando pouco se falava disso. Uma vida repleta de contradições, ambivalências e provocações a serviço da arte. Para aqueles que o tinham como louco, diria: “A única diferença entre um louco e eu, é que não sou louco”. Até no final de sua vida, Dali fez arte e foi notícia. A morte não existe para os artistas e poetas. Dali foi um pintor-poeta visionário que revolucionou o século XX. Um artista eterno que continua a nos provocar delírios e vertigens. Dali surpreende sempre quando se pensa na sua vastidão de saber e inteligência, feito de provocações e muita honestidade intelectual e inventiva.  Dali foi um precursor da pop arte do século XX, e o conhecimento da sua vasta obra está longe de ser totalmente compreendido. Esse pequeno artigo é só uma pequena mostra da versatilidade desse artista genial e eterno, que venho estudando e me maravilhando há mais de 20 anos.

Cinema

Dali era um apaixonado pela sétima arte e trabalhou em vários projetos para o cinema. Com o seu grande amigo Luis Buñuel, Dali trabalhou nos filmes O cão Andaluz- Le Chien Andalou (1928), e a idade de Ouro -L´age d´or(1930). Este último filme teve pouca participação de Dali, e ambos os filme provocaram um verdadeiro escândalo entre os círculos conservadores. A marca onírica daliniana estão em cenas como a dos sacerdotes ao piano do Cão Andaluz, e a mulher chupando o dedo de uma estátua, na Idade de Ouro. Antes desses filmes surrealistas, Salvador Dali participou, como assistente, de Jean Epstein em “ Mauprat” e “A queda da casa de Usher”. Depois do rompimento com o diretor de “O discreto charme da Burguesia”, escreveu em 1932, o roteiro da película surrealista Babaaou, que não chegou a ser filmada. O roteiro era uma crítica sobre a arte do cinema. A relação conturbada entre as três grandes figuras universais da Cultura espanhola do séc. XX pode ser lida no livro “Buñuel, Lorca, Dali – El Enigma Sin Fin” de Agustín Sanches Vidal O enigma sem fim é um belíssimo quadro de 1938, onde a realidade pintada equivale a um estranho quebra-cabeça. Como estranha e conturbada é a relação entre os três estudantes da residência estudantil, em Madrid. Uma relação de muito afeto e admiração mútua, mas também de grandes rivalidades e hostilidades.  O Grande biógrafo do poeta Garcia Lorca, assassinado pela guerra civil espanhola, é Ian Gibson, que também escreveu o livro Lorca-Dali “ El amor que no pudo ser” . Dali teve posições pessoais muito controversas e provocativas. Na mocidade foi expulso de casa ao escrever “cuspo com prazer no retrato da minha mãe”. Politicamente, tinha fascínio por Hitler e elogiava o franquismo.

Dali era um grande admirador dos irmãos Marx, especialmente do Harpo. Em 1937 foi para os Estados Unidos trabalhar com Harpo Marx no roteiro de “Jirafas a Caballo” ( “Girafas sobre um ovo a cavalo”). O roteiro que nunca foi concluído, tinha Groucho como Shiva com múltiplas mãos preparando-se para pegar um telefone, e Harpo tocando um instrumento a bordo de um barco que navega num mar de ciclistas      Hitchcock lhe pediu ajuda para realizar a cena do sonho em “Quando fala o Coração” (Spellbound) 1945, que trata pela primeira vez da psicanálise no cinema. “É mais uma história de caça ao homem, mas aqui envolta em pseudo-psicanálise”, diz Hitchcock em entrevistas a Truffaut. Uma seqüência desse filme bolada por Dali, devia mostrar a metamorfose da heroína (Ingrid Bergman) numa estátua de onde escapavam milhares de formigas. Em Roma, Dali apresenta uma exposição na estréia de “Como lhe agradar”, de Visconti, filme no qual Dali realizou os cenários e figurinos.

Walt Disney lhe encarregou de um projeto de um filme sobre “O Quixote”. Esse filme não foi realizado, mas Dali ilustrou brilhantemente cenas do célebre livro que depois seriam utilizadas em edições ilustradas do maior clássico da literatura universal. Dali também fez vários desenhos cenográficos para o projeto do filme “Destino” de Walt Disney, 1946 .

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