Salvador em festa – Viagem ao coração do Brasil

Quando eu voltar na Bahia
Terei muito que contar
Ó padrinho não se zangue
Que eu nasci no samba
E não posso parar
Foram me chamar
Eu estou aqui, o que é que há.
(Dona Ivone Lara)

Sopravam as águas turvas do verão. O Brasil ensaia para o carnaval. Despedaçado viajo na companhia de mais três amigos (Homero, Antonio Medeiros e Abimael) para a Bahia de todos os santos, pecados e batuques. De Natal partimos e chegamos á cidade de Caruaru para o primeiro pernoite. Pela manha uma visita á famosa feira “que tem tudo pra gente comprar”. Sinais dos tempos os artigos são todos industrializados e comuns á maioria das feiras do Brasil. Acabaram-se aqueles artigos artesanais fabricados por singulares artesões populares. Tudo é globalizado e fabricado em larga escala. Quem não adere aos novos tempos não sobrevive. Ainda assim encontro o quiosque de um velho cordelista. José Severino Cristóvão escreve desde astronomia até Lampião, poetando também sobre os dias das mães e crianças. Sem esquecer de cantar a sua Caruarú amada, ontem e hoje numa história que tem no mestre Vitalino um dos seus principais e conhecidos artistas.

Ainda na terra dos famosos Condé visitamos a casa onde morou o mestre Vitalino, localizada no alto do Moura. A casa preservada mantém os utensílios domésticos do famoso artesão popular, Encontramos artesanando na casa do mestre, o seu único filho que mantém o ofício que projetou Vitalino no mundo inteiro. O filho de Vitalino continua confeccionando em barro as figuras, costumes e brincadeiras que imortalizaram o seu pai. Para quem ainda não conhece recomendo o belo livro “Arte de Barro e o Olhar da Arte / Vitalino e Verger. Catálogo da exposição realizada em 2009 em Recife- PE com curadoria do Raul Lody.

Mestre Vitalino

Nascido no dia 10 de julho de 1909 no interior de Pernambuco próximo á cidade de Caruarú, foi nesta bela cidade que mestre Vitalino exerceu o seu ofício de transformar o barro em obras de artes. Um grande artesão-cronista dos costumes de seu povo. Deu forma a centenas de peças em formas de animais, carros de boi, casas de farinhas, bois, retirantes, cangaceiros, caçadores, bêbados e outros motivos do labor, costumes e tradições da rica cultura nordestina. Peças que iriam adornar museus no mundo inteiro e seriam disputadas por ávidos colecionadores.

Objetos frágeis qual o homem que as criou no Alto do Moura, uma pequena cidade tornada famosa pela arte de um grande mestre, seus familiares e muitos seguidores. A benção meus mestres Zé Caboclo e sua filha Marliete, Zé Rodrigues, Ernestina, Luis Antonio, Manuel Galdino e tantos outros artesões do oitavo dia. Uma arte universal com representantes em todo o Brasil.

No Alto de Moura, em Caruaru (PE) tudo lembra o mestre Vitalino. Algumas centenas de lojas de artesanatos e de artesões. A casinha de barro batido onde fica o Museu Vitalino e onde morou o mestre nos seus últimos anos de uma vida laboriosa de artesão e tocador de pífano. Vitalino teve uma prole de mais de quinze filhos e dos seis sobreviventes a maioria segue os passos e mãos do pai famoso. Um dos animais mais sagrados no nordeste é o boi e são famosos os bois do mestre Vitalino. Os filhos e pessoas famosas eram agraciados com uma dessas figuras míticas e únicas do mestre. Vitalino. Numa terra de atividade eminentemente pastoril e agrícola “as mãos produzem comida e a cabeça só produz confusão ….”, sentencia o mestre. E continua: “Era mais importante que eu aprendesse a usar minhas mãos que minha cabeça”.

Mãos toscas que tecem sonhos, sulcam o barro do rio Ipojuca e perpetuam a saga de um povo bravo curtido pelo sol de uma zona tórrida e seca. É preciso tomar uma e o mestre Vitalino tomou todas. Uma vez reclamaram porque ele artesanou um soldado batendo num bêbado, Aí ele não teve dúvida e moldou o bêbado batendo no soldado. Uma vida breve vitimada por uma varíola aos 51 anos. Uma arte eterna que traz o sopro do criador que a tudo transforma. Bonecos que somos nós seres de sombras e luzes que dizem uma verdade.

Palmeira dos Índios

Antes de chegar á cidade de Sergipe onde íamos pernoitar mais uma noite, uma passada obrigatória na pacata cidade de Palmeira dos índios – AL, onde morou o grande escritor Graciliano Ramos no período de 1928-1930. O autor de Caetés – nascido em Quebrângulo (AL)-, foi prefeito dessa cidade nesse período e na casa-museu são mantidos todos os seus livros, fotografias e banners que contam parte de sua vida. Nos fundos da casa tem um grande auditório que precisa ser climatizado. Graciliano Ramos escreveu alguns dos principais livros da literatura brasileira e visitar sua terra e casa onde morou durante um quadriênio foi um tempo de uma emoção há muito acalentada com a leitura inesquecível das obras Memórias do Cárcere, São Bernardo e Angustia. No museu também podemos apreciar uma edição do livro escrito em parceria com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz; “Brandão entre o Mar e o Amor (1942)”.

Difícil foi encontrar em Palmeiras dos índios um bom lugar para almoçar. Após uma improvisada refeição, compramos uma pequena caixa de isopor para manter gelada a cerveja. Lembrando que o excelente motorista não bebe. A trilha sonora da viagem foi composta por Dalva de Oliveira (incluindo Babalú), Rita Ribeiro, Chico Buarque, Tetê Espíndola, Itamar Assunção e outros.

Aracajú – Sergipe

Em Aracajú ficamos hospedado no hotel Íbis com seu padrão que não tem cama separada de solteiro. Após o banho, uma passada na paria de Atalaia. Sem conhecer os restaurantes e bares, optamos por um que tinha um aspecto agradável e toalhas muito coloridas de flores. Sergipe é a terra do caranguejo, mas as tapiocas decepcionaram a todos. Apesar do preço alto (oito reais), não gostamos das tapiocas levemente recheadas de caranguejo, siri e camarão. Melhor não perder o humor e da próxima vez ficar na beira-mar. Descobrimos umas ótimas pousadas.

Salvador e Rodin

A cidade de Salvador é uma festa permanente. De cores, ritmos, luzes e sabores. Ficamos hospedados no Rio Vermelho. Na primeira noite fomos ao Pelourinho a assistimos parte do ensaio do grupo Olodun. Impossível ficar inerte. O ritmo dos tambores é contagiante. Muita gente assistindo e curtindo.

Em seguida fomos ao antigo bar “Canto da Lua”. Um bar que tem mais de cinqüenta anos e é comandado por um ex-rei-momo. Um show ao vivo de música brasileira anima á noite ao sabor dos calores e sabores baianos. Como dois acarajés, mas não recomendo essa gulodice em dose dupla. Passei mal.

No domingo, dia 30 de janeiro, uma visita obrigatória à exposição Rodin na Bahia. A magnífica exposição de 62 peças em gesso do Rodin está hospedada no belo palacete Bernardo Martins Catharino. As peças são confeccionadas em argila, para depois fazer o molde em gesso e posteriormente em bronze. Essa exposição é uma oportunidade única de comprovar o gênio criador de Rodin. Logo no início da exposição no palacete que por si só já é uma obra d´arte, vemos “O beijo”. Maravilhosa escultura em grandes dimensões de 184 x 112 x 110 cm. Em cada detalhe a marca do cinzel do genial Rodin. Depois O Escultor e sua Musa, Eva, Galatéia, O Despertar, Cabeças de Mulher com torso e a Danaide. Depois a porta do Inferno e o homem numa meditação profunda em “O Pensador”. Tudo conspira para uma grande celebração do olhar que extasiado fica paralisado por tanta beleza. São peças de uma grande sensualidade que aforam por sob as camadas e músculos da matéria feito pele.

Escreve Rodin: Esforcei-me por fazer sentir em cada intumescência do torso ou dos membros o afloramento de um músculo ou de um osso que se desenvolvia em profundidade sob a pele. E desta forma a verdade de minhas figuras, em vez de superficial, parecia desabrochar de dentro para fora como a própria vida …”

O objeto da verdadeira arte é mostrar o sublime e Rodin soube extrair da matéria bruta, a poesia que pulsa em cada movimento das suas peças, Uma de suas esculturas mais expressivas é a “Porta do Inferno” que diz da sua grande admiração pela poesia Dante. Aliás, não é possível dissociar a obra de Rodin da ´poesia de Dante e Ovídio.

Igreja Terceira de São Francisco

Impossível apreciar tanta beleza em tão pouco tempo. Passeando na sombra de velhos monumentos, subindo e descendo ladeiras em pedras seculares, chegamos à Igreja Terceira de São Francisco, uma das mais belas do Brasil. Igreja construída por militares possui um grande e deslumbrante Claustro. A igreja da ordem 3ª de São Francisco tem uma bela fachada esculpida em pedra inspirada na secular universidade de Salamanca. No seu interior muito ouro e belos móveis em jacarandá.

A sala do consistório apresenta um belo painel de azulejos de uma Lisboa antes do terremoto que devastou a cidade em 1755. A sala dos santos também é muita bela.

Os Azulejos do Claustro térreo da Igreja de são Francisco é um verdadeiro espetáculo teatral e histórico. Sobre sua origem escreve o pioneiro Fr. Antonio de Santa Maria de Jaboatão no monumental “Novo Orbe Seráfico Brasílico” (Vol. II ). “Potestas potestati subjecta” (todo poder está subordinado a outro maior) e passear lentamente por esse claustro magnífico é um balsamo para os sentidos e alma que aliviada repousa no silencio interior desse templo ancestral e religioso para alem de qualquer credo,

Museu de Arte Sacra da Bahia

Sem dúvida nenhuma o Museu de Arte Sacra da Universidade de Bahia, instalado no antigo Convento de Santa Teresa, é um dos mais belos e ricos do Brasil. Visita obrigatória a um rico acervo de imagens e objetos litúrgicos posicionados nas antigas celas. Destaque para as belas Sant´ Anas mestras com Maria em pé e no colo. A sala dos Santos de Roca e as Salas-celas com azulejos dos séculos 17 e 18 e vistas para a bela Baia de Todos os Santos. No museu também pode ser visto a maravilhosa “Nossa senhora das Maravilhas” com um manto de prata.

O lugar estratégico do convento onde abriga o museu serviu de alojamento para as tropas portuguesas por ocasião das lutas pela independência da Bahia, até a vitória em 02 de julho de 1823.

Pe. Antonio Vieira

Indo em busca do “Museu de Arte Sacra” me deparo por acaso com a imagem do Pe Vieira em plena rua. Impossível não parar e fotografar.

O Padre Vieira residiu muitos anos no Brasil, onde pregou alguns dos seus mais conhecidos sermões. Aos seis anos acompanhou seus pais, fixando-se na Baia, onde só voltaria para Europa 27 anos depois. Foi aluno do colégio jesuítico da Baia e logo se mostrou um aluno brilhante. Para se comunicar com os ameríndios e escravos aprendeu o tupi-guarani e quibundo. Os indígenas o respeitam e chamam-lhe de padre grande (“payassu”).

O Sermão Décimo Quarto, pregado na Bahia, à Irmandade dos pretos, no ano de 1633, é celebre pela defesa dos escravos e da sua condição de amados pela mesma mãe de Deus. VIEIRA conclama os escravos a não só aceitarem à condição de cristãos, mas a ficarem felizes com sua cruz e fado.

Saibam pois os pretos, e não duvidem que a mesma Mãe de Deus é Mãe sua: Sciant ergo ipsam matrem: e saibam que com ser uma Senhora tão soberana, é Mãe tão amorosa, que assim pequenos como são, os ama, e tem por filhos.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

cinco + 19 =

ao topo