Salvar o dia

O tempo teima em cair sobre as cabeças. Todos os planos são pensados e repensados para que caibam dentro de um sonho possível, aquele que se firme e se realize no âmbito de uma vida. Vida é ligeira, frenética, escorregadia. Quando se vê, já foi. Vale então perguntar: qual o truque para fazer valer o que se tem como meta, como escolha a se confirmar, em preenchimento à sede e à fome do ser? Claro. Do ser. Pois há de se ter que o ter não é meta principal.

Sigo perambulando pelas ruas de Natal, perguntando tudo a todos. Ninguém responde nas manhãs ensolaradas e nas noites cheias de brisa morna e que antecedem mais um carnaval. Não encontro nas janelas nenhuma daquelas jovens mulheres debruçadas e sorridentes da Segunda Guerra Mundial, de conversa com moços casadoiros (ou não) que vinham do norte. Nem vejo diante das portas e nas calçadas os homens cheios de histórias e estórias, que costumavam se balançar em cadeiras de ferro, revestidas por fios de plásticos translúcidos e cheios de cores. As ruas e as casas e os grandes edifícios estão vazios de homens nesse tempo. Um tempo de vazios em terramarear. Tempo de dúvidas e medos. E as esquinas já não se abrem para os encontros e sequer para os despachos festivos e notícias boas de jornal gritadas pelos meninos das manchetes (que continuam nelas).

Mesmo assim, sigo caminhando. Mesmo assim, acalento um futuro universal. Mesmo que o tempo esteja em fuga rápida e que já não dê sequer para ouvir uma sinfonia inteira, seguindo os movimentos do maestro e da batuta erguida por sobre as testas que brilham. A música é só uma, parece um mantra. Seria bom que fosse. É outra coisa. É um gemido geral. E forte. E é de uma criança que ainda está na escola, jardins da infância. Aprende e aprende e esquece e esquece. Mas pretende salvar o mundo. Ao menos salvar o dia, como aquela ginasta que escorregou e caiu, mas se levanta lentamente. Ainda busca se reerguer. E reerguer a geração e as vindouras. E as que já foram, levadas pelo tempo e pela noite, que deu fim ao dia. Fácil não é.

Mas a sede e a fome continuam. Artistas e poetas são mesmo seres muito sedentos e gulosos. Sempre querem de tudo. Experimentar de tudo. Sonhar de tudo. Ver e ouvir e sentir. De tudo. Tudinho que se encontra por aí é alimento, engana e agrada e afaga o estômago e a boca. Aí a boca vem e diz que ainda precisa de mais, porque é ela que vai anunciar as mudanças que se deseja e a boa nova que o vento soprou, causando a fé teimosa que traduz os dias salvos e as noites em que a seiva brota leve e é transportada às ideias. A dez passos de um outro dia, que ainda vai ser mais brilhante e santo.

Nada mais então restará a ser dito quando a luz nova for vista de perto. No poema solene e cantábile. Há uma melodia ainda guardada. E ela chegará por aqui. Um dia.

 

Lívio Oliveira – advogado público e poeta

livioalvesoliveira@gmail.com

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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