Salvemos a China

Por Marcelo Coelho
FSP

Que a China continue produzindo seu “hardware”. O “software” continuará a ser americano

SALVAR O mundo, na maioria dos filmes de ficção científica, era sinônimo de evitar a destruição de Nova York e, digamos, Kansas City.

O problema é outro em “Kung Fu Panda 2”, animação da DreamWorks que tenta (sem sucesso) reproduzir a simpática fórmula do filme original.

“É preciso salvar a China”: a frase, com variantes, é frequentemente pronunciada pelo herói atrapalhado e comilão, um panda que passara de ajudante de cozinha a mestre supremo das artes marciais na animação anterior.

Mas salvar a China do quê? Logo no início do filme, suaves e caprichadas silhuetas de papel recortado e colorido dão lugar a uma paisagem de perigo.

Fundições de metal, onde trabalham lobos de couraça, cobrem de fumaça negra o ambiente. É como se estivéssemos na Inglaterra vitoriana, com mais de um toque totalitário: o pesadelo fabril do capitalismo selvagem se adiciona à opressão política.

É que um pavão malvado descobriu um uso militar para a pólvora, antes empregada apenas na confecção de fogos de artifício. Prepara canhões monstruosos, contra os quais os poderes tradicionais do kung fu são de pouca ajuda.

Longe dali, um velho ratinho, monge e combatente, exercita-se na conquista da paz interior. Consegue domar, com gestos lentos, o percurso de uma gota d’água que caiu em suas mãos.

Estão dados, com isso, os termos de uma equação cujo significado não é difícil de captar.

Não é que a China se tenha transformado, aos olhos dos Estados Unidos, no representante do mal absoluto. Ainda assim, a ameaça está presente. Antes da Primeira Guerra Mundial, o furioso progresso econômico da Alemanha se combinava com a mentalidade militarista e a rigidez política do “kaiser” Guilherme 2º.

Deu no que deu -e se o “perigo amarelo”, hoje, não adquire características de ameaça militar, não deixa de estar próximo o momento em que o PIB da China irá suplantar o dos Estados Unidos.

Como “salvar a China”, ou melhor, os Estados Unidos, desse futuro tenebroso?

“Kung Fu Panda 2” imagina uma resposta. Na “paz interior” está o segredo dos simpáticos personagens (que no sufoco acabam até apelando para a ajuda de antigos inimigos, um jacaré e um touro de péssimos bofes, cujos equivalentes geopolíticos seriam, talvez, a Rússia e a Alemanha).

Trata-se, em síntese, de retornar a padrões culturais mais pacíficos e contemplativos, que não excluem as artes marciais, mas reduzem-nas à beatitude coreográfica, à resistência estoica, ao refinamento estético da porcelana, da caligrafia, da arte de empinar papagaios.

O teórico americano Joseph Nye Jr. celebrizou-se ao cunhar a distinção entre “soft power” e “hard power” nas relações internacionais. De um lado, a conquista das mentes pela produção cultural; de outro, o domínio militar. A disseminação do “american way of life” valeria mais, a longo prazo, do que invadir com tanques e soldados alguma nova região miserável do globo.

Curiosamente, a teoria do “soft power” tem raízes do pensamento tradicional chinês. Lao Tsé, pelo que leio na Wikipedia, fez o elogio da água, que é mole, fluida e dócil, contra a rigidez da pedra.

Que a China continue produzindo, então, seu “hardware”, suas geringonças eletrônicas, seu aço. O “software” continuará a ser americano: com seus programas de computador, desenhos animados e ídolos da música pop, os Estados Unidos estão salvos.

Parece ser esta a mensagem, como sempre triunfalista, que “Kung Fu Panda 2” transfere para um conflito interno à própria China. A dura tecnocracia industrial trata, como pode, de esmagar seus dissidentes -de um artista internacional como Ai Weiwei aos religiosos da seita Falun Gong. Está destruindo o próprio “soft power” no médio prazo.

Um dos problemas desse prognóstico otimista é que, com algumas exceções (a música, por exemplo), o “soft power” americano dificilmente se descola do elogio da força bruta. Do faroeste aos videogames, a violência é glorificada.

A aquisição de objetos -da quinquilharia de consumo à capa da “Playboy”- fez do “american way of life” um sucesso em todo o mundo, contra a escassez do mundo comunista. Mas esse “soft power” não é tão “soft” assim quando se trata de enfrentar uma China que, de comunista, passa a ser consumista também. Haja pipoca e desenho animado para vencer esse desafio.

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