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Samarone fala sobre “Viagem ao Crepúsculo”

Por Dinarte Assunção
Novo Jornal

“Quando esse inferno vai acabar?” A declaração aspeada é de uma senhora cubana, logo após uma tentativa frustrada de adquirir sua cota mensal de carne no governo comunista do então Presidente do Conselho de Estado da República de Cuba, Fidel Castro, em 2007. A mulher contou com a sorte de ninguém tê-la ouvida, exceto Samarone Lima, jornalista e escritor cearense radicado no Recife, que esmiúça a condição de miséria em que vive o povo cubano, em seu livro Viagem ao Crepúsculo (Casa das Musas, 230 pág, R$ 30), cujo lançamento em Natal será hoje, às 19h, no Prozac Bar.

Em sua breve passagem pela ilha, entre o fim de 2007 e início de 2008, Samarone conseguiu descrever os efeitos dos 50 anos de um regime que há muito perdeu as rédeas do rumo a ser tomado. “Os cubanos não são livres. Não podem sair do país. Não podem criticar o regime na fila do pão, sob o risco de serem rapidamente presos pelos infiltrados, e condenados a 20, 30 anos de prisão, após julgamentos rápidos”, diz o autor cearense.

Viagem foi escrito como antirreportagem: o autor fez um jornalismo avesso. Conversou com os cubanos da periferia, das ruas, dos bares, das praças, como porta-voz dos anseios que esse povo nunca pôde externar. Tudo isso foi registrado na memória. Samarone só tomava nota posteriormente, evitando, assim, que a permanente sensação de vigilância obstruísse os desabafos das vítimas do regime comunista.

São também do escritor os livros Clamor (Editora Objetiva) e Zé (Mazza Edições). Samaro-ne falou à equipe de reportagem do NOVO JORNAL sobre as experiências adquiridas às vésperas da saída de Fidel Castro do poder. Recentemente, Orlando Zapata Tamoyo, de 42 anos, um bombeiro hidráulico e prisioneiro de consciência, morreu na ilha depois de 85 dias de greve de fome. “Ele tinha a mesma fome que tenho, e que jamais saciou: a de liberdade”, lamenta o autor.

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Novo Jornal: Qual o sentido do título “Viagem ao Crepúsculo”?
Samarone Lima: De decadência mesmo, crepuscular. Quem sugeriu o título foi uma das primeiras leitoras, Flávia Suassuna. Após ler os originais, ela disse – “Samarone, você fez uma viagem ao crepúsculo”. Achei que tinha tudo a ver com tudo o que vi e vivi na viagem.

O Samarone que chegou à Cuba foi o mesmo que deixou a ilha?
Toda viagem é transformadora. A experiência lá foi tão forte, que não consegui comprar a boina de Che Guevara, que um amigo meu, frade franciscano, me pediu tanto. Voltei refletindo sobre a facilidade que temos em repetir jargões, pensamentos e idéias alheias, mas desconectadas da realidade.

Para escrever “Viagem” você teve de viver como cubano. Não teria sido mais fácil você ter utilizado seu “status” de turista na ilha para desenvolver esse trabalho?
Todas, absolutamente todas as pessoas que me relataram viagem a Cuba como turista, falam de outro país, onde há conforto, bons carros, comida farta, mulheres, charutos, rum. Esse é o mundo do turismo, não o mundo real. Seria mais fácil (e caro) utilizar o status de turista, mas o que eu teria para oferecer aos meus leitores seria a repetição superficial e obtusa, a reprodução dos chavões sobre o país.

Se dirigindo a quem não sabe nada sobre Cuba, o que você falaria sobre a ilha?
Um país complexo, onde o povo paga um preço alto demais por uma revolução que perdeu o rumo. Certamente um dos lugares mais sofridos que já conheci (e olha que já andei muito pelo mundo).

Como você enxerga a posição da esquerda brasileira em não reconhecer Cuba como um regime ditatorial?
É uma postura lamentável, de conivência e silêncios. Tenho esperança de que a morte recente do Orlando Zapata, após uma greve de fome de 85 dias, e de outras mortes que se avizinham, ajudem a abrir o debate sobre o regime.

Você concorda com a ideia de que a blogueira Yoani Sánchez, opositora do governo cubano, é financiada pelo governo dos EUA?
Discordo, até porque ela escreve com o coração, falando das inquietudes de uma geração que não consegue mais ver sentido na realidade do país. Mas lembremos de um detalhe – qualquer voz dissidente em Cuba é imediatamente associada ao dinheiro dos Estados Unidos. São mercenários ou contra-revolucionários, nunca opositores, simplesmente.

A Revolução nunca matou nenhum adversário, conforme Fidel. O que Cuba lhe mostrou a esse respeito?
Os fuzilamentos nunca foram novidade. Neste momento, há 200 presos de consciência, mui-tos em solitárias. Não se mata só com tiros e forcas. Mata-se de desesperança, solidão, tristeza, maus-tratos.

Considerando seu livro conhecido na ilha, você voltaria à Cuba sob o regime comunista?
Se meu livro por acaso ficasse conhecido em Cuba – uma possibilidade que acho muito remota-, poucas livrarias se interessariam em vendê-lo. O mais recomendável era que eu ficasse por aqui mesmo, debatendo livremente e sem medo de ter que dar explicações.

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Tácito Costa