Samba e a estética da simpatia

Por José Geraldo Couto
BLOG DO IMS

Uma coisa não se pode negar a Samba, de Olivier Nakache e Eric Loredano: é um filme perfeitamente sintonizado com o momento. Seu tema é a imigração ilegal na França e sua construção estética e narrativa parece feita sob medida para agradar a um público que quer um tanto de realismo (mas não muito), um tanto de crítica social (mas não muito) e um tanto de novidade (mas não muito).

“Simpático” parece ser o adjetivo que mais se aplica ao filme. A começar do título, tudo nele é simpático: o protagonista, as situações, a trilha sonora. Assim como o longa-metragem anterior da dupla, Intocáveis, Samba é protagonizado pelo carismático ator negro Omar Sy, aqui no papel do imigrante senegalês Samba Cissé, às voltas com a necessidade de um visto para permanecer em Paris, onde vive há dez anos lavando pratos e fazendo outros trabalhos sem qualificação.

Se em Intocáveis o contraponto a Omar Sy era o milionário paraplégico vivido por François Cluzet, aqui esse papel cabe à adorável Charlotte Gainsbourg, no papel de uma estabanada voluntária de ONG de apoio aos imigrantes.

Para quem espera uma abordagem mais consequente ou original do assunto, o mais frustrante são as linhas que o filme esboça mas deixa de seguir até o fim, aparentemente pelo temor de desfazer o calculado equilíbrio entre a quota de humor, a quota de romance, a quota de pitoresco, de crítica, de turismo etc. Para não deixar de ser “simpático”, em suma.

Falsas identidades

Por exemplo: a questão das falsas identidades e até nacionalidades, que os imigrantes ilegais embaralham para iludir autoridades e empregadores. O caso mais divertido, sobretudo para nós, é o do argelino Walid (Tahar Rahim), que se apresenta como o brasileiro Wilson, porque, segundo ele, “os brasileiros têm mais chance de arranjar emprego e pegar mulher”. As possibilidades dramáticas e cômicas dessa circunstância são imensas, mas os diretores a deixam de lado para poder encaixar suas cenas românticas, seus dramas familiares, seus diálogos de autoajuda, seus clipes musicais.

Neste último departamento, a música brasileira brilha nas vozes de Gilberto Gil e Jorge Benjor. A cena em que Wilson e Samba, num andaime, limpam os vidros de um prédio comercial e flertam com as moças de um escritório ao som de Palco, não só é inspirada “pela propaganda da Coca-Cola”, como diz Wilson, mas parece, ela mesma, um comercial, com sua montagem clipada e sua euforia artificial.

Para não estragar o clima sympa, as agruras da vida de imigrante pobre são bastante amenizadas (compare-se, por exemplo, com O silêncio de Lorna, dos irmãos Dardenne, ou com Coisas belas e sujas, de Stephen Frears, ou ainda com os filmes de Fatih Akin), apesar de uma ou outra violência ocasional. Bons sentimentos, boas intenções e bom astral não fazem necessariamente bom cinema.

Com tantas ressalvas, esta crítica decerto será tachada de antipática, mal-humorada, estraga-prazeres. Talvez com razão. Quem não tiver grandes exigências e quiser passar um par de horas agradáveis e indolores faz bem em ignorar estas linhas e correr para o cinema mais próximo.

A travessia de Neruda

Já Neruda – Fugitivo, de Manuel Basoalto, corre o risco de desagradar até mesmo aos fãs do poeta chileno. O filme narra um episódio central na vida de Neruda (José Secall): sua fuga para a Argentina, com documentos falsos, em 1948, quando, na qualidade de senador comunista, era perseguido pelo despótico presidente González Videla.

A narrativa começa em 1971, com o discurso de aceitação do Nobel de literatura, na Academia Sueca. Neruda evoca então sua fuga de 1948 e o filme é narrado em flashback. O tom verborrágico, solene e autocelebratório do discurso contagia todo o filme. Segue-se um suspense frouxo (não só porque conhecemos de antemão o final feliz, mas porque a filmagem carece de pulso e de vibração), enquadrado por belas paisagens chilenas e pontuado por declamações com voz impostada de versos do Canto geral, livro que o poeta escrevia na época.

Se explorasse mais o aprendizado sobre o Chile profundo experimentado por Neruda em sua travessia, o filme ganharia em interesse histórico e dramático. Mas o didatismo dos diálogos, a engomada reconstituição de época e a dramaturgia televisiva engessam um episódio tão rico de possibilidades.

E o próprio Neruda, que no “simpático” O carteiro e o poeta tinha se convertido quase num autor de autoajuda, aqui aparece como um homem meio aluado e passivo, que não pode ver um pássaro que começa a recitar odes ao condor e à águia e transforma tudo em símbolo da “grandeza de nuestra América”.

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