Sanções:’bofetada na diplomacia dos emergentes’

BBC/O GLOBO

Um editorial do jornal britânico “The Guardian” afirma que a resolução proposta pelos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU prevendo sanções contra Teerã é uma “bofetada nos esforços de negociação” das potências emergentes.

O texto defende o acordo negociado na segunda-feira por Brasil e Turquia com o Irã. Para o jornal, o entendimento turco-brasileiro é “o mais perto que chegamos até agora do início de uma resolução” para a questão nuclear iraniana.

Por isso, diz o “Guardian”, “a proposta de resolução (promovida pelos EUA) pode ser interpretada como uma bofetada das grandes potências nos esforços de negociação de outros países. Mas, em um mundo multipolar, Barack Obama não pode simplesmente fazer isso.”

“A Turquia está emergindo como uma importante potência diplomática no Oriente Médio. Turquia e Brasil, o outro mediador do acordo, são membros não-permanentes do Conselho de Segurança e signatários do tratado de não-proliferação. O Japão, igualmente, compartilha o comprometimento de encontrar uma solução diplomática neste impasse com o Irã. Juntas, essas nações assumiram o papel de mediadores honestos abandonados pelo Reino Unido, a França e a Alemanha.”

Melindre

A questão suscitou artigos incisivos nesta quarta-feira em diversos jornais estrangeiros. Na França, o matutino “Le Figaro” se pergunta por que a manobra iraniana “uniu as grandes potências” em torno da resolução americana, incluindo países tradicionalmente contrários às sanções, como Rússia e China.

“A realidade é que a Rússia e a China não gostaram nem um pouco que o Brasil e a Turquia se permitissem fazer um acordo nuclear com Teerã sem se dar ao trabalho de consultar Moscou e Pequim de antemão”, opina o jornal.

“Chocados por uma diplomacia turco-brasileira tão desenvolta no conteúdo quanto na forma, os chineses e russos cederam (à proposta americana).”

Já alguns dos principais jornais americanos fizeram duras críticas ao Brasil e à Turquia por patrocinar o acordo com o Irã.

O “The New York Times” aponta que ambos os países “estão ávidos para desempenhar um maior papel internacional” e “ávidos para evitar um conflito com o Irã”.

“Respeitamos estas ambições. Mas como todo mundo, eles foram manipulados por Teerã”, afirma o editorial, lembrando que desde 2006 o governo iraniano “desafia as reivindicações do Conselho de Segurança de suspender seu programa nuclear”.

Para o “NYT”, a nova resolução “provavelmente não é dura o suficiente para fazer Teerã mudar de ideia. Mas o fato de a Rússia e a China terem concordado deve gerar nervosismo entre alguns atores dentro do dividido governo iraniano.”

“Brasil e Turquia deveriam se unir às outras potências e votar a favor da resolução do Conselho de Segurança da ONU. Mesmo antes disto, deveriam voltar a Teerã e pressionar os mulás por um acordo crível e por negociações sérias.”

Ironia

Mais incisivo, o diário americano “Wall Street Journal” diz que o governo brasileiro aproveitou a boa vontade de Washington para entrar na negociação iraniana e “triangular sua própria solução diplomática”. Para o diário financeiro, o acordo de Brasil e Turquia com o Irã foi um “fiasco” para a diplomacia Obama.

“O governo tentou se recuperar rapidamente anunciando, no dia seguinte, que havia chegado a um acordo com a Rússia e a China para sanções na ONU”, afirma o editorial. O jornal diz que esta situação é um “fracasso” diplomático, que deve ser “totalmente creditado à estratégia diplomática infeliz do governo Obama”.

“O duplo constrangimento é que os EUA incentivaram a diplomacia de Lula como uma maneira de angariar apoio para uma resolução de sanções na ONU. Em vez disso, Lula usou a abertura para triangular sua própria solução diplomática. Assim, em vez de EUA e Europa colocarem o Irã contra a parede, foi Ahmadinejad quem colocou Obama no canto.”

Para o jornal, a política de “mão estendida” para o Irã resultou em que o Irã está hoje menos isolado diplomaticamente, e mais perto de desenvolver uma bomba atômica.

“Israel terá de considerar seriamente suas opções militares. Tal confrontação é muito mais provável hoje graças ao presidente americano, cujo principal sucesso diplomático foi convencer os vilões de que lhe falta determinação para conter suas ambições destrutivas.”

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Tácito Costa
    Tácito Costa 19 de Maio de 2010 11:10

    Os jornais americanos não aprenderam nada com a invasão do Iraque. Novamente apoiam a guerra e esquecem a diplomacia, usam dois pesos e duas medidas com relação ao Oriente Médio – aliás, em relação ao mundo todo. A justificativa para a invasão do Iraque, todos lembram, era a posse de armas de destruição em massa, que nunca apareceram. Agora, dizem que o Irã pode fazer a bomba atômica. Tá difícil os EUA admitirem que o mundo mudou e que não podem continuar com essa arrogância histórica. Bom foi assistir de camarote a “grande” mídia brasileira botar, mais uma vez, o rabinho entre as pernas. Malhou até não poder mais os esforços da diplomacia brasileira em conseguir o acordo. Depois foi forçada a noticiar o que foi notícia no mundo todo. Sim, o Irã é uma ditadura e o presidente é fundamentalista que merece ser combatido. A prisão do cineasta Panahi mostra que não existe democracia no país. Continuaremos criticando o desrespeito aos direitos humanos no Irã. Mas reconhecemos que o acordo foi um avanço.

  2. Marcos Silva 19 de Maio de 2010 12:52

    Tácito:

    Seu comentário está muito bom. E os EEUU não podem posar como uma vestal diante de ditadura: pior que tentativas de acordos, cansaram de APOIAR ditaduras sangrentas.
    Fico estupefato com a cara de pau de amplos setores da imprensa: a bomba é condenável no Irã, claro; quanto aos países que já detêm gigantescos arsenais, tendo um deles lançado bombas atômicas contra populações civis, tudo bem.
    Abraços:

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