A sanha do mundo recai sobre os pobres e os animais

A foto logo me chama a atenção. Nove homens se equilibram em cima de um tubarão azul. No centro, um está sem camisa. É o turista. Os demais vestem camiseta vermelha e calção azul. São “salva-vidas”. A foto, informa o jornal O Globo, foi tirada em uma praia da República Dominicana, no Caribe.

O animal nadava em água rasa e foi puxado por um grupo de pessoas até a areia por uma espécie de rede de pescar. Um vídeo, chocante, acompanha o texto. Nele vemos o animal se debater desesperadamente, enquanto um dos homens enforca-o com um colete salva vidas. Depois, com o tubarão morto, posam para fotos. Como se fosse um troféu. O conjunto forma um espetáculo macabro.

tubarão

Remeteu-me aquele dentista insano norte-americano que atraiu para fora do parque nacional e matou o leão Cecil, considerado o símbolo do Zimbábue. O caso provocou comoção mundial, vocês devem se recordar. Empurrou-me também a uma leitura feita há alguns anos, o excelente “A vida dos animais”, do Prêmio Nobel de Literatura J M Coetzee. Nesta obra singular, a escritora Elizabeth Costello (alter ego de Coetzee) discorre sobre as questões filosóficas e éticas que envolvem o nosso trato com os animais e faz uma analogia entre o abate do gado bovino e o Holocausto nazista.

Atribuo à facilidade contemporânea de gravar vídeos e fotos e às redes sociais o maior conhecimento que temos hoje das atrocidades contra os animais, o que sempre existiu, é bem verdade.. Um fenômeno mundial. Na semana passada, numa das favelas do Rio de Janeiro, um policial matou com um tiro a queima roupa Bob, o cão de estimação dos moradores. Só porque o animal corria atrás da viatura latindo. E essa semana foi a vez da onça Juma ser morta por soldados do exército, após cerimônia de passagem da tocha olímpica no Centro de Instruções de Guerra na Selva (Cigs), no Amazonas.


juma3

Eu tenho progredido rumo a uma maior atenção e amor aos animais. O mesmo não podendo dizer dos conhecidos como seres humanos. Ou mesmo que esse amor aos bichos aumenta na proporção em que diminui minha esperança nos ditos humanos. Muito tem colaborado nisso, o exemplo de algumas pessoas com quem convivo e convivi, algumas muito mais virtualmente, mas que inspiram-me fortemente.

Na Ribeira, tem um bar onde sempre que estou em algum evento na região, na volta para casa paro para tomar uma água de Coco. É o Bar do Litrão, fica bem próximo à antiga estação rodoviária. Como jamais o encontramos fechado, passamos a chamá-lo de “Bar do Apocalipse”. Traduzo, não fecha porque está aguardando o apocalipse.

Foi num desses dias que vi a cena que me paralisou e comoveu (foto de abertura). Não fui ágil a tempo de flagra-la integralmente. Estacionei próximo ao bar e observei que um morador de rua estava preparando-se para dormir, estendeu o que restou de um colchão e em seguida deu uns quatro passos, até onde estava dormindo um cachorro mais a frente, pegou-o no braço e o deitou ao seu lado. Deu tempo de fazer a foto dos dois já deitados lado a lado, mas perdi essa outra parte. Exatamente como os pais fazem quando os filhos adormecem no sofá e eles o levam para sua cama.

Quanta distância entre o gesto amoroso do morador de rua e o ato perverso do policial na favela. Em um gritavam a pobreza material e o afeto. No outro a exaltação da covardia e da maldade. O que em um renova nossa esperança na humanidade, no outro lança-nos na mais absoluta desesperança. E nesse pêndulo vamos levando a vida.

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