Sankofa para além do Volte e Pegue

“Eu preferia estar morto do que ser membro de uma raça que não pensa no amanhã, pois esse amanhã anuncia um mal ao qual nos é inimaginável. Por isso que eu não posso lisonjear você e eu estou aqui para te dizer, enfaticamente, que se não nos organizarmos seriamente como povo e enfrentarmos o mundo com um programa de nacionalismo africano nossos dias na civilização estarão contados e será apenas uma questão de tempo para que o Negro seja completamente e complacentemente morto”.

Marcus Garvey

Um pássaro com o bico voltado para trás, pegando a pedra do passado com as patas viradas para frente. Esse é o símbolo de Sankofa. De acordo com a filosofia africana, significa “nunca é tarde para voltar ao passado e recuperar o que você esqueceu”. É isso que eu tenho feito todos os dias ao acordar. Resgatar meus valores civilizatórios africanos a fim de sulear meus passos; tem sido um processo muito doloroso, mas também fortalecedor.

 Para saber quem eu sou, precisei compreender de onde eu vim. Os marcadores ocidentais fazem cada vez menos sentido para mim. O mundo dos brancos não foi projetado para nos acolher. Ao contrário. Sofremos com o apagamento do nosso legado e temos nossa imagem e valores distorcidos. Somos considerades seres não belos e sem capacidade de amar e produzir ciência.

A filosofia africana nos informa que quando não sabemos de onde viemos, aceitamos qualquer identidade que seja imposta a nós, e passamos toda a vida em um “não lugar”. Voltar para casa de forma ética e estética nunca foi tão necessário. Mas, apesar de ser uma caminhada urgente, percebei que estava trilhando em uma via de mão única.

Dei-me conta disso quando ouvi a filósofa Aza Njeri dizer, em uma entrevista, que tão importante quanto voltar e beber da fonte dos nossos antepassados, é pensar no legado que vamos deixar para as próximas gerações. Aza me lembrou que somos as/os ancestrais de amanhã e, portanto, precisamos honrar com nosso compromisso ancestral de dar continuidade à luta iniciada pelas/os nossas/os mais velhas/os; e honrar com nosso orí (cabeça em iorubá) é fundamental.

Precisamos ter responsabilidade com o material que produzimos, sobretudo neste contexto de exposição midiática. Tenho consciência que um debate sério e aprofundado não se faz em poucas linhas de uma crônica, mas encaro isso como uma estratégia para impulsionar pessoas negras a irem além.

Sabemos que pessoas negras não podem errar no Ocidente. Somos julgades até pelos menores erros que cometemos, mas quando escrevo não espero que minhas palavras ressoem como uma crítica. Trata-se mais de um apelo para que não deixemos morrer todas as conquistas daqueles que lutaram (ou morreram), para que pudéssemos hoje erguer a voz. Nossos antepassados negres bateram o chão para que eu e você estivéssemos falando, escrevendo e publicando. A pergunta é: que legado você está deixando para as próximas gerações?

Africana em diáspora, educadora, escritora e pesquisadora. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

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  1. José de Castro 24 de maio de 2021 20:41

    Gostei demais das reflexões que nos trouxe a querida amiga cronista e ensaísta Ana Paula Campos. Precisamos, sim, estar atentos à nossa história, resgatar nossas memórias, sejam elas quais forem. E siga assim, sempre nos lembrando que temos uma dívida enorme com todos os povos originários da América e com os de África também… Em nossas veias corre tanto o sangue dos povos indígenas quanto dos africanos… Parabéns pela sua voz… Um abraço, amiga.

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