São Demétrio

Por Demétrio Diniz

Trouxe-o da Romênia, e nem sabia antes da sua existência, numa estampa dourada, igual às que ilustravam as paredes descarnadas das salas-da-frente no sertão. Uma litogravura semelhante, como se o mundo fosse de linhas circulares: o que se vê nos Cárpatos pode se ver também em Alexandria.

Em duas poses São Demétrio aparece com lança, numa delas vem montado num cavalo vermelho que tem asas e voa. É bonito, mas para minha surpresa, o guerreiro tem as pernas finas. Não acredito muito em homem com pernas de pinto, mas se era guerreiro e depois santo, deve ter sido forte.

Não sei o que de bom andou fazendo lá pela Tessalônica, onde viveu e foi morto, se por muitas vezes tingiu de sangue sua lança, como gostou de tingir um certo rei de França, que depois de matar milhares foi santificado como São Luís. No fim São Demétrio entrou para a história como mártir, morto a mando do imperador Maximiliano.

Santo é santo, tem uma força que não se sabe de onde vem. Tanto é que dois mil anos depois, no pequeno quarto de um apartamento em Natal, vejo-o na parede várias vezes por dia, a ele e ao seu cavalo vermelho voador.

Ainda não sei por que o guardo tão bem, eu que em matéria de religião sou descrente de tudo. Talvez pela gravura, a me remeter à infância num mundo particular, animado por estampas de santos e outras como a do Biotônico Fontoura, Elixir Xavier, e a inesquecível gravura do cofre, sempre na parede da Farmácia Triunfo. À esquerda da estampa um homem barrigudo e feliz abre o cofre e deixa ver um monte de dinheiro; à direita, outro, magro, barba rala, amarelo, aponta para ratos e papel velho na segunda gaveta. Sob a primeira figura, a legenda “Este vendeu a dinheiro”, e sob a segunda, “Este vendeu fiado”. Nesse tempo barriga e gordura se associavam à prosperidade, e magreza à doença e miséria.

A vida urbana da minha infância era pobre. As pessoas morriam colocadas sobre três ou quatro tamboretes na entrada da farmácia, os moribundos feridos de faca ou bala, o que era frequente, esvaindo-se, o sangue descendo pelo batente da porta até ensopar a areia da rua. Ao seu redor um amontoado de gente curiosa ouvia os gemidos agonizantes. E os bebês, que nasciam num ambiente escuro e sem alegria, cercado de segredo e enevoado pela fumaça de alfazema. Salvei-me com os pássaros e os bichos que me fizeram companhia no mato.

Comecei com as pernas de pinto de São Demétrio e vou concluindo, como no adágio que fechava as histórias de trancoso, com pés de pato, esses sabidamente nodosos. Uma amiga disse, com propriedade, que começo longe e no fim volto para Alexandria. A verdade é que quando penso que estou indo a algum lugar, estou só voltando ao xadrez da infância.

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