São João dos Cachorros (Conto)

Por José de Castro*

A princípio era um só. Mas os latidos foram despertando outros. Desespero de quem não quer olhar. Não pode e nem deve olhar, porque o cão lê o medo no olho do homem. E aí é pior. Sente o resfolegar, o rosnar dos cães bem na sua perna. Anda como autômato. Se correr… Nenhuma arma. Nenhum pedaço de pau, nenhuma pedra.

Uma lua fosca e débeis luzes de postes retorcidos iluminam a rua de terra, deserta. Os cães continuam a segui-lo. Aliás, persegui-lo. Acuam-no como caça preciosa. Cada quarteirão vencido parecia ter léguas de distância. Cada esquina dobrada, mais cães se juntavam à procissão barulhenta no seu encalço.

Levava um pacote de alimentos para gatos e um livro desgastado de tantas e quantas leituras. Não criava bichos de estimação. De bicho, bastava a si próprio. Os gatos, de um amigo. Daí os alimentos.. Os cães querem é o gato imaginário escondido no saco, pensou. Jogasse fora o alimento? Mais fúria, quem sabe… O livro, não. Leitura não alimenta cachorro. Subisse numa árvore? Merda de cidade mal arborizada… Desse um grito feito Tarzan dos gibis? Arriscado bancar o herói quadrinizado.

A barra da calça molhada pela baba dos famintos. Suor lhe empapa o corpo. Caminhando e pensando no grande idiota que inventou ser o cão o melhor amigo do homem. Melhor amigo é da sua mãe, imbecil, à merda. Xinga o pensamento.

Aqueles os ex-cães. Noturnos que não têm dono. Esquecem origem, medalha e pedigree, se é que um dia tiveram. Rosnam violentos como o lobo. Cobiçam o homem na selva cidade. Mundo cão, esse.

O cérebro esmiuçou conhecimentos caninos. Não muitos. Sabia da escola treinadora de cães. Caçar bandidos. Farejar pó. Não se enquadrava no figurino. E então? Como sair daquela? Lembrava amigo morto pela baba de cachorro louco. Calafrio no corpo. Náusea. Não esmorecer. Estômago vira, revira. Vomitar pirão com torresmo. Travou o gogó.

Abocanhada na perna da calça. Apertou o passo. Pernas pesavam toneladas. Ouvidos se acostumavam à latomia espumosa. Rápida olha para trás. Muitos os cães. Rua inteira coberta de pelos encardidos. Profusão de bocas arreganhadas. Mar de orelhas, pontiagudos os chifres. Assemelhavam-se à manada de búfalos pronta ao estouro. Ladravam, mordiam-se entre si. Não a sombra por falta de espaço.

Estranha alcateia, sem líder, cavalgando a noite. Ele, a mascote. Merda de cidade pequena com tantos cachorros assim. Povo pobre. De onde tiram alimento para essas feras? Que milagre faz sobra de tão pouco na vida? Boca dos filhos. Filhos da puta esses cães magros e asquerosos.

Dormia a cidade. Ele, o fantasma de ruas sombrias, acuado. Fingisse de morto? O bafio da cachorrada em seu rosto. Cheirá-lo com seus focinhos frios, baba gosmenta, pulgas, carrapatos e carrapichos no pelo bernento. Ideia melhor precisava ter.

Iam e vinham à sua frente, em semicírculos. Urubus à espreita da carniça. Hienas farejando a presa.

Arrastava um cão pequeno abocanhado nos fiapos da mesclinha azul. Um tropeção seria o diabo. Levantou a vista. A pracinha à frente. Um coreto. Miragem da noite, oásis de salvação. Último reduto da esperança em frangalhos.

Quando a cidade acordou, viu o nicho da praça preenchido por estranho santo, maltrapilho. O breviário na mão esquerda, um livro de Poe. Na direita, o maná dos gatos. Prestavam-lhe tributo os cães. Um mar deles.

Aos poucos, o povo foi se aproximando cauteloso por entre os bichos. Ajoelhavam-se ao lado dos cachorros que coalhavam a praça. Estranho aquele são francisco de assis que deixara os pássaros e se dedicava aos cães. Sangravam-lhe as pernas esfarrapadas.

– Viva São João dos Cachorros! – histérico, o povo.

– À merda vocês todos! – o xingo entredentes.

Formigavam os pés. Batatas de cãibra subiam e desciam como lagartos pela barriga da perna. Cada braço, um cabo de aço. Ruptura à vista.

– Viva São João dos Cachorros! – o povo.

– À puta que pariu vocês todos! – inaudível protesto afogava-se na garganta.

Num momento em que o povo se curvou, olhos fechados, tentou se mover. Inútil. Pernas e braços não mais o obedeciam. Boca cerrada, língua travada. Gritar, como?

– Viva São João dos Cachorros! – a ladainha do povo.

– É a puta que pariu vocês to…! – não consegue mais o pensamento engessado.

Tempo demais fingindo-se santo. Agora, paciência. Era uma estátua de verdade.

Línguas ávidas vão lambendo as chagas de pedra encarnada.

 

*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Autor de livros infantis. Membro da SPVA/RN e da UBE/RN. Contato: josedecastro9@gmail.com

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