São muito pequenos

Por Janio de Freitas
FSP

A Obama falta a explicação aos esperançosos de que seu caminho não se construíra com mais do que bravatas

O MUNDO vai descobrindo, ainda pela voz de poucos, que lhe têm faltado personalidades capazes de induzi-lo a avanços que só podem partir da solução de problemas, quase todos, mantidos em seu nível bárbaro. A fome na África e a violência política e étnica entre africanos, as guerras de dominação como as do Afeganistão e do Iraque, os poderes opressores pelo planeta afora, a sujeição das sociedades à ganância dos sistemas especulativos, os fundamentos do terrorismo e, claro, o foco de tantos agravantes que é o conflito de Israel com os palestinos.

Barack Obama pareceu capaz de preencher parte da lacuna. O Obama no poder não é, porém, o Obama quando candidato. É outro do segmento em que Lula se tornara incomparável, praticante do dístico publicitário “antes e depois”. A Obama falta, talvez porque desnecessária, a explicação aos esperançosos do mundo de que o seu caminho não se construíra com mais do que bravatas.

O discurso de Obama na ONU me fez lembrar uma tirada de Otto Lara Rezende, bem ao seu jeito, de crítica moral ao coproprietário, bastante alto, de um jornal do Brasil hoje extinto: “É o maior anão do país”.

“Não há atalho para a paz. São israelenses e palestinos, e não nós, que têm que achar a solução para aquilo que os divide.” “[…] A solução tem que dar plena segurança a Israel”. Se o foro que reúne 193 países é só um atalho, para que serviria a ONU? Talvez só para que os Estados Unidos invadam países, como Iraque, Afeganistão, Panamá, Granada, Vietnã, Laos, Camboja e outros, como advertência à humanidade de que seus ímpetos não se submetem nem à maior e mais legítima representação do mundo.

Esse Obama que só admite a negociação direta dos opostos é o mesmo que designou não um, mas dois representantes simultâneos do seu governo para encaminhar negociações com israelenses e palestinos. E se juntou à mesma ONU, à União Europeia e à Rússia, no que chamam de “o Quarteto”, tendo como delegado o saltitante ex-primeiro ministro Tony Blair, para obter a cessação de construções de assentamentos israelenses em território palestino e, em seguida, a condução de negociações de paz.

Esse Obama é o mesmo que se dispôs a intermediações por saber da inviabilidade de êxito em negociações só entre israelenses e palestinos. Ao grupo radical Hamas, que domina a concentração palestina da Faixa de Gaza, a paz e a criação do Estado da Palestina não convêm: minoritário entre os palestinos, o Hamas perderá o poder para a Autoridade Nacional Palestina.

À extrema-direita israelense, do fundamentalismo religioso, e à direita que dela depende para dominar o parlamento e ocupar o poder, a paz não serve ao projeto de Grande Israel, que ambiciona a posse total da “Terra Santa”. Ao passo que, mantido o conflito, a multiplicação de assentamentos espalhados no território palestino tornará impossível o Estado da Palestina. São já estimados em 500 mil os residentes de assentamentos invasivos.

Esse Obama que invoca a necessidade de dar-se segurança a Israel mantém o país que governa como o maior fornecedor de armamento aos israelenses, a ponto de justificarem a presunção de que são o povo relativamente mais armado do mundo. Inclusive com bombas nucleares. Quem, portanto, não conta com segurança alguma, nem contará, são os palestinos.

Ainda na parte de seu discurso sobre a economia mundial, um dos canhonaços bem assestados de Dilma Rousseff na ONU valeu também para a política mundial: “Não é por falta de recursos financeiros que os líderes dos países desenvolvidos ainda não encontraram solução para a crise. É, permitam-me dizer, por falta de recursos políticos e, algumas vezes, de clareza de ideias”. E falta, acréscimo indispensável, de integridade pessoal.

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