Sarau, a cidade, a linguagem e o sentimento

“Nenhum rosto é tão surrealista quanto o verdadeiro rosto de uma cidade”Walter Benjamin

Mais uma vez a cidade de Natal me encanta, mais uma vez não sei se “perdi-me ou achei-me”; já não sei diferenciar assombro de alumbramento.

Cri no poder libertador e arrebatador da palavra e agora creio muito mais. Na irmandade que se pode ter com as gentes pra muito além das palavras. Civilidade, ternura, o belo e o sublime tudo ali, aqui, em meios aos livros e aos amigos veteranos e que vão se achegando.

Logo às 10h, quando cheguei ao Sebo Vermelho, já se anunciava a festa: Nei Leandro de Castro nos recita um poema de nossa amiga Nathália Souza. Abimael Silva, como bom – mas acima de tudo espontâneo – anfitrião nos brindou com cerveja gelada. Sim, e o pobre do porco ali torturado, mas tudo bem, que a pra mim veio o jerimum e que jerimum! E as pessoas foram chegando e foram se formando grupos voláteis, se construindo e desconstruindo, como toda a poesia.

Meu sentimento por Jarbas Martins se revela cada vez mais profundo, a cada palavra amiga, a cada poema recordado e, principalmente, à sua visão fugidoira do senso-comum, do ver além-olhos, do ver além-corpo, além-aparência e sua complacência jesuítica (no melhor sentido que possa haver do termo).

E o que dizer de João Da Mata? O amigo que dá cascudos, que abre os olhos, que é perspicaz e não tem medo de criticar a poesia, a atitude, os riscos, pois que assim é amor, como tudo, dialógico. O seu olhar de louco, a sua sede de poesia, o seu sentir-poético.

Tácito fugiu algumas vezes, mas voltou à boa poesia, voltou do seu jeito que o próprio nome revela, não obstante a força de sua palavra e de sua observação.

Tânia Costa, meiga-maga, linda-maga (como bem lembrou Jarbas à sua semelhança física com àquela de Cortázar). Essa mulher, como esquecer? Como ficar longe? Depois de tudo? Depois de compartilhar os legumes em meio às carnes, depois de compartilhar a cerveja que não bebe e, que inenarrável: depois de nos abrir o Museu e nos levar de volta à infância ou, no meu caso, me levar à infância pela prima hora.

Claúdia Magalhães é uma mulher à parte. A exuberância em forma de mulher, o expressionismo teatral em suas últimas conseqüências. O que se esconde debaixo de cabelos, lábios, pernas, expressões assim?

O consciente e quase-conterrâneo Cefas Carvalho. Falves Silva por quem chamava Volontè. Ciro e sua linda família que me enche de saudades de tudo que nunca tive. Homero, que não é Homero Homem, mas é homem (!), Terezinha de Jesus e seus olhos Lispectorianos, Buendía. Aquele um que de tanta cachaça estava mais em pé que todos, Paulinho pé na trave. Aqueles que não me lembro o nome, mas que jamais esquecerei. E todos os demais. Os que iam e vinham. O andarilho que nos recita à sua visão de mundo. Marginal ou marginalizada? A alegria de todos, a celebração da poesia e da vida.

Os sujeitos-históricos que permaneceram no sarau depois do sarau. O sarau que varou a noite (ou quase). O sarau sem fim. O sarau que em mim continuou no domingo, quando em alto-mar, me afogava pra me aproximar de Zila, pra sentir a poesia que, sim, é preciso ir fundo, camaradas, é preciso ir até o fundo. O sarau que continuou nos pés quando dançava e cantava boleros e sambas antigos com a magnética Odaíres, João Da Mata e todas as pessoas que nunca tínhamos visto, mas que eram conosco. O sarau do meu banzo da manhã de segunda-feira, num colchão invejável que me dava vontade de pular.

O sarau permanece. O sarau é permanente. Dentro de nós que amamos e gozamos a poesia em todos os seus sentidos e desdobramentos. O sarau que me faz acrescentar ao verbete idílio: Natal, cidade, pão do amor onde cristalizei meus frutos e amores perros, verdadeiros.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Tânia 18 de Maio de 2010 22:13

    O sarau não teria sido o mesmo sem “um tufão chamado Nina Rizzi”.

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