Saudade do velho ‘Moa’

Com Moacy3 Procurava uma poesia de Ada Lima pelo campo virtual da net (postada aí na seção ‘Pro dia nascer poesia’) e mergulhei direto no Balaio Porreta de Moacy Cirne. Deu saudade do cabra, apesar dos poucos contatos entre nós. Gostei de relembrar a publicação de crônica minha no criterioso blog de Moacy. Nos comentários do post, eu lembrava que tinha chegado das comemorações do Dia da Poesia, no Centro Histórico, e o amigo Falves estava la; deu entrevista à TV e tudo, falou do Poema Processo, e da injustiça da universidade em “nunca ter chamado Moacy Cirne para uma palestra sequer”. E Jarbas Martins retrucava lamentosamente: “Uma correção, Sérgio, à fala do meu amigo Falves no que diz respeito ao não convite da UFRN para palestras de Moacy Cirne. Oficialmente, é verdade, não tenho conhecimento de nenhum convite a Moacy, para falar sobre Quadrinhos, Poema Processo e Cinema. De forma isolada, além de indicar os seus livros aos meus alunos, no Departamento de Comunicação Social, tenho convidado por diversas vezes Moacy para tratar de temas relativos à arte e comunicação. Um outro fato constrangedor, Sérgio: seus livros, diversamente das livrarias de São Paulo, não são fáceis de se encontrar em nossas livrarias. Nem na livraria do Campus (Cooperativa).”

Segue minha crônica, intitulada ‘De quando o quarteirão é mundo’

Sinto até calafrios quando ouço alguém se auto-afirmar um cidadão do mundo. Eu, apenas um passarinho de gaiola, acostumado às cenas e costumes da esquina. Deitado em rede, numa varanda minha, até imagino-me nas gôndolas de Veneza, tomando um café no Champs-Élyseés ou a passear nos becos milenares do Cairo. É que os desaventurados têm esse costume dos sonhos impossíveis, de mastigar a essência daquilo que poderia ter sido e não foi.

Digo isto, amigo leitor, porque li entrevista com a jornalista Glória Maria. Ela, que passou dez anos à frente do Fantástico e largou o programa para novas aventuras, foi indagada se sente falta da emissora. Dessas mulheres de essência cosmopolita, afirmou: “Saudade é palavra que só existe na língua portuguesa. Sou uma cidadã do mundo”.

E eu, aquele cara do outro quarteirão; aquele que apenas assiste o rapaz distraído derrubar os livros da moça para ali iniciarem romance de novela, me arrepio com a frase da jornalista. Sou um provinciano, preso mesmo aos quarteirões da vida que construí. Ora, querer mais que a infinitude do mar, os mundos dos livros ou a eternidade das amizades é mostrar-se ingrato com a vida. Uma vida, registre-se, longe daquela “vida besta” assistida dos sobrados das casas do interior, descrita por Drummond.

Se coleciono auroras em vez de postais é porque suspeito que a verdadeira vida reside mesmo na imaginação. E por ela viajo, sonho e me transformo naquele herói das multidões, tão cheio de carisma e beleza. Como já afirmei, a vida é uma grande ilusão. Não se engane. E melhor é, ao acordar do sonho, assistir o cotidiano já conhecido, de esquinas do passado e do presente. A vida é mais fácil assim. Da ilusão brota poesia. E como disse Ferreira Gullar, a poesia existe porque a vida não basta.

O amigo leitor pode me chamar de fraco, medroso ou outra classificação que o valha. Confesso outros defeitos muitos, não esses. Sou apenas um provinciano, e incurável, como Cascudo. Se me esforço a permanecer em minha redoma é por preferir a distância de um mundo dito mais fascinante e perfumado pelo cheiro do capital. E como Schopenhauer, também opto pela esquiva aos bípedes como melhor forma de expulsar minhas vontades e desejos – frutos de todos os pecados.

E assim, por estes quarteirões de uma Natal de morros, dunas, mar e rio, coloco os tijolos do muro de minha vida, com o cimento do meu silêncio e gratidão: alicerces das minhas fantasiadas paixões.

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