Saudades de Edson Nery

Fui visitá-lo na casa – templo de Olinda, vizinha da igreja e mosteiro
de São Bento onde ele rezava suas matinas. O bibliotecário, professor e
escritor pernambucano Edson Nery foi um grande amante das letras e
faleceu aos 92 anos em Junho passado após uma longa enfermidade. Quando
fui visitá-lo a casa estava só com seus valiosos pertences acumulados
durante uma vida. Edson Nery publicou cerca de 20 livros. Os últimos com
a ajuda do historiador e pesquisador Clênio Sierra de Alcântara, que o
acompanhou no declínio da vida física. Quando de minha visita há dois
anos, recebeu –me um senhor que cuida do local. Dou uma brechada. Estou
triste. Tudo ali lembrava ele. Seus objetos biográficos contam uma saga
de amor ao seu ofício de guardião dos livros. Sua ultima palestra
assisti numa FLIPORTO ainda quando acontecia na Praia Porto de Galinhas.
O escritor Edson Nery chegava cambaleante nos seus oitenta e tantos
anos. Reclamava da falta de corrimões para os idosos, e proporciona à
seleta platéia uma brilhante palestra com o título “A América Latina de
Gilberto Freyre”.

Uma palestra de um homem erudito que encanta os ouvintes, formado na
maioria por escritores e professores. Os poetas Tiago de Melo e Ledo Ivo
ouvem – eufóricos – à palestra do colega, com trocas mútuas de afetos e
amizades. Edson Nery fala, sobretudo, de livros, sua e nossa paixão.
Nossa perdição. Ele flana literariamente desde Gilberto Freyre a
Bossuet. “A cabeça está ótima, mas o corpo não obedece”. Nery vendeu o
seu rico acervo de livros a Ricardo Brennand. Está em boas mãos. Os
livros estavam sendo atacados por bichos indesejados. Quando ele precisa
de algum livro, é atendido pelo feliz depositário daquele rico acervo.
As paredes da vasta sala já não possuem as amplas estantes esparramadas
por vários cômodos.

O escritor já não andava. Estava enfermo. Na sala bem decorada por
quadros e objetos de artes, uma cadeira de roda e uma cama-maca de
hospital. O nobre escritor havia sido hospitalizado mais uma vez. Não
consigo reter as lágrimas. Dou uma entrada na bela Igreja de São Bento,
extensão de sua casa e abrigo confortante.

O escritor amava os gatos e tinha a companhia de mais de trinta. Foi
aconselhado pelos médicos a deixá-los. Os gatos ainda existem, mais são
de louças. Junto a eles muitos objetos de artes e comendas recebidas.
Diplomas e medalhas. Quadros recebidos de amigos. Ali vejo um lindo
quadro do pintor primitivo Alexandre Filho. E muitos outros que a emoção
e o curto tempo não permitem apreciar. É hora de partir. Vejo ainda
muitas poltronas de espaldar próprias para ler. Num centro ao lado de
uma poltrona um livro me desperta a atenção. Não lembro o nome do autor
e do título que falava da Noite. Uma noite que envelheceu. Uma noite que
acaba. Um fim de noite…

Saudades.

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