Saudades dos cinemas de rua em Natal

Mais uma vez me acomete uma certa nostalgia ao recordar o cenário da minha Natal dos anos 70 e 80 do século passado. Era um tempo em que, imberbe, eu costumava frequentar entusiasticamente as salas de cinema que existiam em ruas e avenidas natalenses. Hoje, sem tais alternativas, tenho preferido o conforto de ver os meus filmes de predileção em DVD’s ou nos canais de TV fechada e assinada, a seguir – com raras e garimpadas exceções – o ritual cansativo e competitivo de assistir a filmes em cinemas de shoppings.

Acho difícil enfrentar os ruídos de alguns espectadores. O crock-crock da pipoca e outros barulhos são quase insuportáveis. Também, para mim, é inexplicável que eu tenha que procurar uma “terra prometida”, subindo com o meu carro por essas espécies de labirintos em espiral dos shopping-centers, até conseguir acesso a uma sala de cinema disputada por alguns (não generalizo, falo apenas de uma minoria barulhenta) que só veem filmes por não encontrarem criatividade e disposição para outras escolhas de ordem intelectual.

Ah! Em alguns casos, tenho antes que enfrentar grandes filas, o que me faz ficar distante de lançamentos blockbusters (espero não estar ferindo nenhum dos dez mandamentos). Mas…tem nada não. Afinal, sempre assisto às versões dos filmes em casa, na TV fechada ou em DVD’s. Vou tentando me atualizar, na medida do possível. Claro, que aí ocorre algum “delay”. Paciência! Não sou daqueles que têm a sofreguidão de ver os filmes e comentar, moto-contínuo, fresquinhos, fresquinhos (os filmes vistos, claro!) nas esquinas culturais da cidade, ou em rodadas de cerveja. Os filmes são para o meu deleite e crescimento intelectual e espiritual, não para pequenos rituais de ostentação.

Tenho preferido mesmo o balançar da rede, o sofá rechonchudo, ou mesmo a cama, para ver os meus clássicos e algumas boas novidades nos equipamentos compactos que me socorrem toda semana. Confesso, no entanto, que nutro fortes saudades das vetustas salas do Rex, Nordeste, Olde (até hoje não sei porque não era Old) e do meu queridíssimo Rio Grande – FOTO (todos, de maneira melancólica, descaracterizados de suas funções culturais e cumprindo outras missões ou mais nenhuma). Nas suas calçadas não me importava de enfrentar filas. Era algo que continha magia – um encontro vivo com pessoas e com arte.

O saudoso Palocha poderia até ter salvo para nós o Cine Rio Grande. Partiu sem realizar esse sonho seu (e da comunidade de amigos e apaixonados cinéfilos). Jogava na Sena todas as semanas e prometia que – quando ganhasse o grande prêmio – investiria no resgate daquela outrora “catedral” das películas cinematográficas. Pena que não deu. Esteja em paz, Palocha. Por aqui, vamos nos esforçando.

Sabem o que mais lamento hoje? Não ter assistido a nenhuma sessão no velho Panorama, lá nas Rocas. Meus irmãos mais velhos iam para aquelas aventuras pitorescas – as apresentações de pornochanchadas e outros filmes de destacado fundo (êpa!) erótico – e, em meio a figuras, digamos, meio esquisitas na plateia, deliciavam-se em gargalhadas (acredito que a coisa ficava só nisso). Alguns dos leitores deste querido veículo informativo devem lembrar que foi lá que passou “Garganta Profunda” (se não me engano) e outros “clássicos” do gênero, pela primeira vez aqui em Natal.

Talvez até me sobrasse desejo de participar desses eventos “culturais” nas Rocas. Infelizmente, não tinha a idade exigida pela censura da época. Uma sessão dessas devia ser mesmo um grande acontecimento. Para compensar, tive outras oportunidades diferentes. E pude ser contemporâneo de uma época de ouro nas demais salas de “cinema de rua” de Natal, que relembro ao passar os olhos nas fotos virtuais de uma cidade que já não existe. E as cenas maravilhosas se projetam na memória que teima e se amplia.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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