Se empresto, me arranho

II – Histórias de Sebos e Livrarias

“ Un livre prêté, comme la vieille garde, ne se rende pás”

Os livros vão e muitas vezes não voltam. Emprestar é ter decepção. Provavelmente o livro foi parar num sebo. E aqui gostaria de prestar uma homenagem a todos os sebistas do país, e em particular aos da minha terrinha. Sim, porque Natal já não é a mesma de quando não existiam os sebos. Saudades do sebo Kliterion do poeta e amigo Jairo. O vermelho cresceu e virou editora. O cata-livro saiu da cidade alta e veio parar na Xavier da Silveira. Muitos novos apareceram e outros fecharam. Alguns temporã: Como o Sebo Cosmopolita dos amigos Homero, Pedro Vicente e Serejo.

Alguns sebos do Brasil e de Natal entraram definitivamente na minha geografia sentimental. Uma cidade sem sebos é uma cidade sem vida. É nos sebos e pelos sebos que podemos avaliar o nível cultural de uma cidade. Ele é uma medida dos que lêem, ouvem e escrevem. Quando vou ao centro da cidade, esqueço as outras “vitrines” e as “meninas” para me perder ou me encontrar nos sebos. Apesar de ainda não termos uma tradição cultural sebista, é possível encontrar com certa persistência e abnegação algumas raridades fonográficas ou literárias. Eu as encontrei algumas vezes e tive grandes alegrias. Procuro outras, talvez nunca depare com elas, mas se as encontrar, certamente será num sebo. E nesse dia, erguerei mais um brinde e te louvarei mais uma vez, sebo.

Mas, o sebo não é só isso! Ë aquele templo sagrado onde se reúnem as fadas, os elfos e gnomos que enfeitiçam e dão colorido à vida. É lá que travamos contato com outras personagens vivas ou mortas. Algumas trilhas são deixadas e novos escaninhos da alma são revelados.

No sebo não só recuperamos o tempo perdido como o livro perdido, mesmo quando esse livro foi emprestado a alguém que já não pode devolvê-lo a nós pessoalmente. Emprestei certa vez um livro a pessoa muito querida de Natal e também freqüentadora assídua de sebos. Repentinamente o meu companheiro de credo e cruzes falece, e a família vende todos os seus livros. Não fui procurar o livro em sua casa e nem participei da compra de sua valiosa biblioteca. Resignadamente achei que não encontraria mais o tal livro. Outro dia, numa das muitas peregrinações aos sebos, eis que me encontro novamente com o meu precioso livrinho…

Histórias de livros não devolvidos são muitas. Em Londres foi fundada uma Liga contra Empréstimos de Livros. O grande poeta André Chenier, nascido em Gálata, Istambul, narra em prosa uma dessas tristezas atrozes.

Emprestou uma edição do Malherbe em 8º, editado por Barbou e anotado por Menier de Querlon. Ao receber o precioso livro veio cheio de borrões à tinta.

Muitos outros – insensíveis – não devolvem e vendem nos sebos ou se apossam do livro mantendo presa uma informação intelectual. Um crime que devia ser inafiançável.

Favor devolver meu livro.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 6 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

três × 5 =

ao topo