Se tudo der errado

Semana passada minha filha de dezesseis anos reafirmou que sou uma das suas melhores amigas e me pediu conselhos. Saber que ainda estou entre as best friends é incrível porque ela está em uma idade em que as mães geralmente já estão no banco de trás na friend zone.

Dei o conselho e disse da minha alegria em ser tão bem considerada: “Espero continuar a ser digna da sua confiança”, completei, ao que ela respondeu: “sempre será!”. Lembrei da minha própria mãe, de quem eu escondia segredos.

Resolvi aprofundar o papo e perguntei: “e se um dia, mamãe te aconselhar a deixar uma relação ruim, estando você apaixonada pelo cara?” Ela pensou antes de me dizer: “ih, não sei!”. Rimos.

Rimos de uma questão muito séria na vida das mulheres. Questão que as adolescentes da minha geração ainda não discutiam com seus pais. Que viviam, entre aturdidas e angustiadas, por causa da posição que ocupavam em relação aos rapazes. Quase tudo o que eles faziam: traição, ciúme, controle e menosprezo ainda era considerado normal, pasme, em plena década de noventa.

Naquela época ainda se propagavam ideias absurdas, ao menos no meio em que eu circulava, de que as adolescentes precisavam de um namorado para serem felizes. Que deveriam se manter virgens para o casamento, desconsiderando sua libido (energia sexual instintiva e saudável) e apesar da cobrança e insistência dos namorados para transarem. Não era incomum que eles as ameaçassem com o término, caso elas se recusassem a dar o que queriam, enquanto lá na frente, declarassem orgulhosamente sua preferência por se casar com meninas “puras”. Quantas garotas inocentes caíram nessa esparrela sofrendo caladas com medo que os pais soubessem.

Sexo e gravidez antes do casamento era culpa de quem? Delas, claro, que deviam sublimar sua pulsão e fugir das armadilhas como o diabo foge da cruz. Depois, se vinha a frigidez causada pela pressão anterior, mais uma vez, de quem era a culpa? Não deles que estavam sempre prontos e querendo. A mulher era o problema. Sua sexualidade considerada complexa até por estudiosos.

Antigamente as palavras namoradeira e casadoira tinham sentidos opostos: o da primeira era pejorativo, o da segunda, favorável: a namoradeira era aquela que namorava muitos, comportamento reprovável. A casadoira, aquela que se comportava de maneira digamos, “discreta”, o que resultava em mais chances de se casar. Detalhe é que o namorador, versão masculina da namoradeira era o cara! Admirado por amigos e familiares e alvo de brincadeiras que só aumentavam sua fama, ele surfava na onda favorável. Isso faz sentido para você que vive em 2021?

“Mãe, qual é o segredo pra gente ser feliz com alguém?”

Que pergunta! Nós duas no banheiro e eu me arrumando para ir trabalhar.

“Você passa o silicone no cabelo da mamãe?”. De costas, pensava em uma resposta.

“Não sei bem, mas acho que antes, a gente precisa ser feliz sozinha, sabe? Essa ideia não existia na minha adolescência, só a semente dela”.

Lembrei de pacientes presas por convenções a namoros e casamentos péssimos. Sofrendo, adoecendo, chorando e se desesperando em ciclos intermináveis de dor até que, por escolha do companheiro abusivo, a relação terminasse e elas se sentissem ainda mais sem valor.

Uma conhecida recebeu carta do marido alegando como motivo da separação ela ser flácida. Nunca me esqueci disso, porque foi de uma crueldade imensa! Ele a assediava moralmente há anos. A carta foi apenas o golpe de misericórdia, porque o crápula não podia ir embora sem marcá-la uma última vez a ferro em brasa.

Não colocarei os homens em uma única peneira, mas sabemos que ainda há muita coisa a ser feita para mudar suas consciências. O caso do assédio contra a deputada Isa Penna que foi apalpada pelo colega Fernando Cury durante sessão na ALESP, é um exemplo claro disso e não é um caso isolado.

O corpo da mulher não é público como a sociedade ainda considera e nenhum homem deveria tocá-lo sem autorização de sua dona. Essa é uma questão. A outra, diz respeito à esposa desse deputado. Sua dor e vergonha, a quebra da confiança e a humilhação sofrida.

Em que base se fundamenta um casamento desse? Amor, respeito, confiança? É tolerável que um marido aja com tamanha calhordice? Perguntas inevitáveis que todas fazemos ou deveríamos fazer em algum momento das nossas vidas conjugais.

Há pouco tempo a filha de uma amiga saiu de casa para viver com um homem dezesseis anos mais velho. Antes de sair fez uma belíssima carta aos pais: “Se tudo der errado e eu decidir voltar, espero poder contar com vocês”. Essa moça está muito à frente das mulheres de gerações passadas. Ela sabe que deve pôr um fim na relação “se tudo der errado”. E a família que a apoiou também evoluiu. Em outros tempos, as separadas não tinham para onde voltar. Penso que isso ainda precisa ser conversado nos dias de hoje, principalmente no meio religioso, tão leniente com a violência doméstica.

Desejo que você continue a confiar em mim e em seu pai, filha. Porque não te imporemos escolhas quando você for adulta. Só podemos te amar e te aconselhar e esperamos que seja o suficiente. Você é ótima, nunca deixe que ninguém diga o contrário. Leia! Leia bastante! Mantenha-se informada sobre seus direitos nos diversos espaços sociais que ocupar e conte conosco. Aqui sempre terá um porto seguro. Mas conte com você também. Com sua intuição e discernimento. Com sua capacidade de ser feliz, mesmo se tudo der errado e você precisar ir embora.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Ivoni Alves 15 de fevereiro de 2021 7:32

    Nossa!!! Parabéns pelo texto esclarecedor e reflexivo. Me encontrei em algumas partes e confesso que vale a pena compartilhar.

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